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Assistir a um filme mítico quase 30 anos depois de feito é, entre outras coisas, uma experiência cultural. Triste Trópico, de 1973, revela-se, à primeira vista, como uma daquelas obras chamadas seminais. O até agora único longa-metragem de Arthur Omar foi muito falado e despertou polêmica na época do seu lançamento; depois passou ao limbo. No entanto, mesmo no subterrâneo, continuou a produzir seus efeitos. Entre eles, o mais importante, talvez: Triste Trópico situa-se, claramente, no início da linha genealógica que viria a dar, em 1989, no curta-metragem Ilha das Flores, de Jorge Furtado. Que, por sua vez, tornou-se referência, paradigma e inspirador de epígonos no quadro do cinema brasileiro dos anos 90. Em Ilha das Flores, Furtado utiliza, como Omar já o fizera, um método livremente associativo, em que uma imagem se liga a outra, ora por simpatia e proximidade, ora por oposição. Dessa forma, a narração em off e associação de imagens - freqüentemente conflitantes entre si - vão criando uma rede de significações que só formarão sentido no fecho das obras. Em Furtado, essa significação é diretamente política. Em Omar, o trabalho final de síntese é deixado em suspenso - a sua é uma obra mais aberta, menos facilmente resumível em uma "mensagem", seja ela direta ou complexa, dirigida ao espectador. Triste Trópico é um filme-colagem que alude, claro, ao livro quase homônimo de Claude Lévi-Strauss (Tristes Trópicos). Procura, em tom farsesco, mimetizar certo distanciamento antropológico na abordagem de uma sociedade dada como exótica, a brasileira. Esse distanciamento também é paródico, porque obviamente Triste Trópico ironiza o trabalho eurocêntrico, que procura ver o Brasil de um pedestal, ou pelas lentes de um microscópio. Faz o contrário: mergulha de cabeça na realidade, ou melhor, no real caótico do País. Um país, vale lembrar, à época atolado na fase mais crítica do regime militar, que então parecia não ter fim nem saída negociada à vista. Nesse meio ambiente intoxicado por impasses e intolerâncias, Omar conta a saga de um certo Dr. Arthur, seu xará, médico brasileiro que estudou na Sorbonne, foi amigo do fundador do surrealismo, André Breton e, de volta ao País, durante os anos 20, decide internar-se no sertão, no coração da Terra Brasilis. Essa saga, progressivamente delirante, é expressa por meio da colagem de fotos e filmagens domésticas, cenas de carnaval, imagens e iconografias diversas. Uma colcha de retalhos, sempre aspirando ao sentido - e sempre o negando, pelo menos na íntegra. Do procedimento, no entanto, se destaca o embate entre duas culturas contraditórias - e aqui, a referência principal é a uma certa antropofagia, aquela teorizada por Oswald de Andrade. Um país como o Brasil não deixa a sua condição colonial pelas próprias forças. Deve negar tanto o isolamento como a imitação. Nessa dupla exclusão, precisa buscar a saída pela incorporação do material alheio, mas à moda da casa. É o preceito modernista: "comer" a fina iguaria européia, e digeri-la à maneira local. Por isso, lembra Oswald, a data a ser retida como fundação mítica da nação é a da devoração do bispo Sardinha pelos canibais nativos. Não são poucas as figuras de antropofagia em Triste Trópico. O filme reflete, se o termo cabe, sobre essa situação paradoxal da cultura brasileira, tematizada pelo modernismo dos anos 20, mas ainda longe de ser resolvida, e que atende pelo nome algo impróprio de identidade nacional. Nesse sentido, Triste Trópico filia-se a toda uma linha de pensamento radical sobre o Brasil, que o antecede e continua com ele, como Terra em Transe, de Gláuber Rocha, O Rei da Vela, de José Celso, e todo o movimento tropicalista. No entanto, acolhendo e reciclando essas influências, dialogando com elas, Omar corre em raia própria. E naquele momento histórico, em que se cobrava do artista uma posição política inequívoca, foi relativamente incompreendido. Primeiro, porque se há conteúdo (político ou não) em Triste Trópico, ele deve ser construído a cada momento. Nunca é dado diretamente, e nem de graça. Segundo, porque o procedimento é o de um documentário fake. Busca a "verdade" da arte por meio de um personagem que engana constantemente o espectador. Frauda a relação de confiança que se estabelece entre o público e gênero documental, associado diretamente ao cinéma-vérité. Ao insinuar que o cinema constrói sua verdade interna, Omar é mais do que político - está sendo subversivo, o que garante a permanência e atualidade de Triste Trópico. Leia mais:
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