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Há um mês ele estava na Amazônia, hoje está em Milão, na semana que vem estará em Nova York e no dia 8 desembarca na Suíça, para participar do Festival de Locarno, onde seu vídeo O Livro de Raoul será exibido em competição. É um homem movido a projetos, mas o importante, no caso de Arthur Omar, é que eles terminam sempre por se concretizar. Agora mesmo, Omar já está em processo de captação das imagens de Dionísio, o Inatingível, que assinala seu retorno ao cinema. O filme com Matheus Nachtergaele retoma a linha inventiva de Triste Trópico, feito há quase 30 anos e ainda à frente das pesquisas de linguagem e política que se fazem hoje no Brasil e no mundo. O novo longa-metragem do artista tem cenas filmadas no carnaval carioca e no bumbódromo de Parintins, na Amazônia. Omar também está envolvido numa exposição em Buenos Aires, em parceria com o pintor italiano Antonio Pedretti, e tem projetos de livros e de uma galeria de arte virtual. Se tivesse sido escrita há três, quatro semanas atrás, esta reportagem seria sobre a volta de Arthur Omar ao cinema. Ele se enquadra, como poucos, na categoria do artista que transita em todas as mídias. Omar já estava na vanguarda das pesquisas de vídeo quando o digital ainda não ocupava, como hoje, o centro das atenções em todo o mundo, mas seria reduzi-lo usar para ele a definição de videomaker, apenas. O primeiro longa para cinema, Triste Trópico, exibido na recente 2ª Semana de Cinema Brasil & Independentes, revelou-se um filme muito adiante de sua época. Feito há quase 30 anos, continua não só atual como à frente. Omar está agora de volta ao cinema com Dionísio, o Inatingível. Só isso já valeria uma extensa reportagem, mas Omar é uma fonte inesgotável de surpresas e informações. Ao longo deste mês acrescentou mais projetos ao seu currículo e tem novidades importantes para contar - como a de que O Livro de Raoul, seu vídeo sobre (e com) o cineasta chileno-francês Raoul Ruiz, será exibido nos dias 8, 9 e 10, integrando a mostra competitiva da categoria no Festival de Locarno. Outro vídeo de Omar com Ruiz, O Castelo Resiste, já foi exibido em Locarno, mas o Livro entra agora em competição, na categoria que leva o sugestivo título de Cineastas do Presente. Haverá, portanto, dois representantes brasileiros em Locarno, este ano - o outro é Cronicamente Inviável, de Sérgio Bianchi, que integra a mostra de cinema. E as novidades de Omar não páram por aí - há o projeto do apoio virtual para um balé, sobre o qual ele ainda não quer falar, um livro com ensaios para cinema e vídeo (Um Olho para Reinar) da coleção que Ismail Xavier organiza para a Editora Cosac & Naify, a colocação de Zen e a Arte Gloriosa da Fotografia, pela mesma editora, nas livrarias para venda direta ao público (o livro com entrevistas, anotações, diálogos e sentenças sobre a natureza da fotografia já circulou de forma mais restrita), a função de curador numa galeria, a Imagens em Trânsito, dedicada integralmente à arte virtual, que a Casa França-Brasil pretende inaugurar até novembro, no Rio, a Bienal de Havana, onde, a exemplo do que já fez na Bienal do Mercosul, em Porto Alegre, no ano passado, ele vai mostrar o mural de retratos de foliões que criou a partir de Guernica, propondo uma releitura da obra célebre de Picasso, e o vídeo novo que está fazendo com o pintor Eduardo Sued para a série Rio-Arte Vídeo, na qual já realizou outros três, um a partir da obra de Tunga, outro da de Milton Machado e o terceiro a partir da obra de Cildo Meireles. Aventura - Chega? Não para Omar. Ele ainda encontra tempo e disposição para manter uma coluna diária. "São aventuras do olhar narradas na primeira pessoa; vão formar um novo livro, um dia", explica. "Procuro operar com um novo estilo de referência à matéria audiovisual, reconceitualizar de uma forma não-conceitual diretamente." E resume: "É a Verdade, com tratamento de ficção." Em tudo o que Omar pensa e faz está embutido um conceito, uma proposta radical de mudança da própria idéia de ver. Ontem, ele viajou para Milão, para gravar com o pintor italiano Antonio Pedretti trechos do vídeo que faz parte da mostra dos dois em Buenos Aires, desenvolvendo o tema da paisagem. A exposição, que abre no dia 10 de setembro, é uma promoção do Museu de Belas Artes da capital argentina. "Pedretti é um extraordinário pintor que veio da pintura informal e agora utiliza técnicas de grande liberdade pictórica para trabalhar paisagens", diz Omar. O vídeo será exibido na TV italiana e integra a instalação eletrônica inserida na exposição em Buenos Aires. Pedretti vai mostrar cerca de 30 quadros de grandes dimensões e Omar cerca de 30 fotografias "bastante grandes, com intervenção de computador e intenso colorido". Uma paisagem não é só uma paisagem para Omar. "Desvinculadas de preocupações ecológicas e jornalísticas, minhas paisagens metafóricas representam disposições e espaços mentais", ele não tem medo de dizer. "Faço uma interpretação emocional da paisagem." Essa busca da paisagem, a ser interpretada metafórica e emocionalmente, o levou à Amazônia. Omar descobriu na feira do boi de Parintins a expressão mais completa do êxtase que impulsionou sua série de fotos de carnaval na antropologia da face gloriosa. Sua arte, Omar não se cansa de repetir, é extática. Foi na Amazônia que ele teve a experiência decisiva que faz com que hoje se deva saudar não só seu retorno ao cinema, mas à própria vida. Omar renasceu. Registrava imagens na Amazônia quando o barco virou. Omar foi lançado à água, perdeu câmeras, passou horas no rio e dessa experiência surgiu outro homem. Dionísio, o Inatingível ganhou nova dimensão a partir daí. O filme celebra agora a ressurreição de Omar. Leia mais:
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