Emagrecimento rápido: especialistas alertam para riscos e benefícios dos métodos
Perda acelerada de peso pode afetar massa muscular, intestino e outros aspectos da saúde
Especialistas alertam que a busca por emagrecimento rápido antes do verão traz riscos à saúde. Embora remédios modernos auxiliem no tratamento da obesidade, o foco na velocidade pode causar perda perigosa de massa muscular, constipação intestinal, flacidez facial e o efeito sanfona. Médicos ressaltam que dietas radicais são insustentáveis e que o processo exige acompanhamento profissional para priorizar a saúde metabólica, nutrição adequada e exercícios, e não apenas o peso na balança.
Com a proximidade do verão, aumenta a busca por formas de perder peso em poucas semanas. Dietas muito restritivas, jejuns prolongados, desafios nas redes sociais e medicamentos para emagrecimento podem aparecer como alternativas para quem quer acelerar o processo.
O cenário ganhou novos recursos com medicamentos como semaglutida e tirzepatida. Eles ampliaram as possibilidades de tratamento da obesidade e podem proporcionar perdas de peso expressivas quando há indicação e acompanhamento adequado.
Mas perder mais peso em menos tempo não significa, necessariamente, emagrecer melhor. O processo também precisa considerar a composição corporal, a saúde metabólica, a tolerabilidade ao tratamento e a capacidade de manter os resultados.
Segundo o endocrinologista Dr. Bruno Cardoso, titulado pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), o problema está em transformar medicamentos desenvolvidos para tratar uma doença crônica em ferramentas para acelerar a perda de peso a qualquer custo.
"Semaglutida e tirzepatida representam uma mudança muito importante no tratamento da obesidade e podem proporcionar perdas de peso expressivas quando existe indicação e acompanhamento adequado. O que não podemos fazer é transformar essa eficácia em uma competição para descobrir quem emagrece mais rápido", explica.
1. A balança pode baixar, mas o músculo também
Durante uma perda de peso expressiva, a massa muscular merece atenção. Quando a ingestão de alimentos diminui muito, principalmente sem planejamento nutricional e exercícios adequados, o organismo não elimina apenas gordura.
Para o ortopedista Dr. Renan Bosio, com atuação em nutrologia e medicina do esporte, preservar os músculos deve fazer parte da estratégia desde o início.
"Quando alguém diz que perdeu dez ou quinze quilos, a primeira pergunta não deveria ser apenas em quanto tempo isso aconteceu, mas o que essa pessoa perdeu", afirma.
Segundo ele, a massa muscular está relacionada à força, mobilidade, metabolismo e independência funcional. Em perdas aceleradas, especialmente com baixa ingestão de proteínas e ausência de treinamento de força, pode ocorrer redução de massa magra.
2. Comer cada vez menos não melhora o tratamento
Alguns medicamentos podem reduzir o apetite. Isso, porém, não significa que quanto menos uma pessoa conseguir comer, melhor será o resultado.
De acordo com Patrick Ferreira, presidente da Academia Brasileira de Clínica Médica, o organismo continua precisando de proteínas, vitaminas, minerais e energia para manter suas funções.
"O paciente continua necessitando de proteína, vitaminas, minerais e energia suficiente para manter suas funções. Quando a alimentação se torna excessivamente reduzida e não existe estratégia para preservar a massa muscular, podemos produzir uma perda de peso numericamente impressionante, mas metabolicamente pouco interessante", alerta.
Nesse cenário, proteínas e exercícios resistidos, como a musculação, ganham importância. A quantidade adequada deve ser individualizada de acordo com fatores como idade, composição corporal, condições clínicas e nível de atividade física.
3. O intestino também pode sentir os efeitos
A perda de peso acelerada pode vir acompanhada de mudanças na alimentação e na ingestão de líquidos e fibras. Além disso, determinados medicamentos podem causar efeitos gastrointestinais.
Essa combinação pode favorecer a constipação em alguns pacientes. A coloproctologista e cirurgiã geral Dra. Lorena Willers Coutinho (CRM-SP 172.373 | RQE 66.686) explica que o problema merece atenção.
"Alguns pacientes em uso de agonistas de GLP-1 apresentam redução importante do trânsito intestinal. Quando isso se soma à baixa ingestão de líquidos, fibras e alimentos em geral, as fezes podem ficar mais ressecadas e difíceis de eliminar", afirma.
Segundo a médica, o esforço para evacuar pode favorecer fissuras anais, que provocam dor e sangramento. A situação também pode levar a pessoa a evitar a evacuação por medo da dor, piorando a constipação.
Por isso, sintomas intestinais devem ser relatados ao profissional que acompanha o tratamento. A orientação também é não recorrer indiscriminadamente a laxantes sem orientação.
4. Resistência à insulina não justifica medidas radicais
"Metabolismo lento" e "resistência à insulina" aparecem com frequência nas redes sociais como possíveis explicações para a dificuldade de perder peso. A resistência à insulina existe e merece atenção, mas não deve ser usada como justificativa para dietas radicais ou cortes indiscriminados de nutrientes.
A endocrinologista Patricia Gracitelli (RQE 69887) destaca que a obesidade e a dificuldade para emagrecer são multifatoriais. Alimentação, composição corporal, atividade física, sono, genética, estresse e outras condições clínicas também precisam ser considerados.
"O objetivo deve ser melhorar a saúde metabólica, e não simplesmente fazer a balança cair rapidamente", explica Patricia.
O médico com atuação em Endocrinologia e Nutrologia Dr. Vagner Chiapetti (RQE 45020) reforça que a investigação deve vir antes de qualquer tentativa de corrigir alterações metabólicas por conta própria.
Segundo ele, fatores como gordura visceral, glicemia, triglicerídeos, composição corporal, sono, alimentação, atividade física e histórico familiar podem fazer parte da avaliação.
5. O projeto verão pode terminar em efeito sanfona
Estabelecer uma data limite para mudar o corpo pode aumentar a pressão para emagrecer rapidamente. Para Gabriela Rossmam, médica com atuação em emagrecimento, essa urgência pode favorecer estratégias difíceis de manter.
"Quando alguém decide que precisa emagrecer até dezembro, cria-se uma urgência que favorece estratégias difíceis de sustentar. A pessoa corta vários alimentos, reduz drasticamente as calorias e organiza uma rotina que consegue suportar por algumas semanas, mas não por meses ou anos", explica.
Começar o processo com mais tempo pode permitir ajustes graduais na alimentação, na atividade física, no sono e no comportamento. Assim, também é possível observar como o organismo responde às mudanças.
6. O rosto também pode mudar com a perda de peso
A perda significativa de gordura corporal também pode alterar a aparência do rosto. Bochechas mais fundas, sulcos mais evidentes e flacidez podem aparecer após grandes reduções de peso.
O cirurgião plástico facial Dr. Yuri Moresco (CRM 33797 | RQE 28162) explica que não é possível escolher exatamente de onde o organismo retirará gordura durante o emagrecimento.
"Quando ocorre uma perda significativa de gordura, o rosto também pode perder volume. Dependendo da idade, da qualidade da pele, da anatomia e da velocidade e magnitude dessa mudança, estruturas que antes tinham sustentação podem ficar mais evidentes e uma flacidez preexistente pode aparecer com maior intensidade", explica.
Isso não significa que emagrecer faça mal ao rosto. A mudança mostra, porém, que uma transformação corporal importante também pode repercutir na face.
O médico também alerta para a tentativa de corrigir imediatamente essas alterações com preenchimentos. Segundo ele, é preciso diferenciar perda de gordura, flacidez e deslocamento dos tecidos antes de decidir por um procedimento.
7. A meta para emagrecer deve ser a saúde, não uma data
Os profissionais ouvidos no release concordam que os medicamentos modernos ampliaram as possibilidades de tratamento da obesidade. O objetivo, portanto, não é demonizar essas opções.
O cuidado está em transformar o emagrecimento em uma corrida. Nesse cenário, qualquer estratégia pode parecer válida desde que produza rapidamente um número menor na balança.
"Agora estamos vivendo uma nova fase da endocrinologia, e isso é extremamente positivo. Mas justamente porque os medicamentos são mais eficazes, precisamos utilizá-los com ainda mais responsabilidade", afirma Dr. Bruno Cardoso.
Para o endocrinologista, o objetivo do tratamento não deve ser emagrecer o máximo possível no menor tempo. É preciso tratar a obesidade, melhorar a saúde cardiometabólica, preservar a massa magra e construir resultados sustentáveis.
A chegada do verão pode ser um estímulo para começar a cuidar do peso. Mas não precisa se transformar em um prazo para mudanças radicais.
Nesse contexto, mais importante do que perguntar apenas quantos quilos foram eliminados é observar como o corpo chegou até esse resultado.
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