Condição rara leva jovem a enfrentar 6 diagnósticos de câncer até os 20 anos: 'Enxergar o copo meio cheio'
Natural de Registro (SP), Luis Adolpho foi diagnosticado com a síndrome de Li-Fraumeni, condição rara que leva à predisposição ao câncer
Luis Adolpho tinha três anos de idade quando, durante uma brincadeira com a mãe, sentiu uma forte dor ao ser agarrado pela perna. A reclamação da criança levou à descoberta do primeiro de seis diagnósticos de câncer enfrentados pelo jovem ao longo de seus 20 anos.
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Natural de Registro, no interior de São Paulo, ele jovem foi diagnosticado com a síndrome de Li-Fraumeni (SLF), condição que leva à predisposição ao câncer associada ao alto risco para um amplo espectro de cânceres, incluindo os de início precoce.
Segundo a Biblioteca Nacional de Medicina (NLM, em inglês) dos Estados Unidos, a síndrome faz com que o risco de desenvolvimento de câncer para homens e mulheres com SLF clássica é de 70% e 90%, respectivamente, sendo que 50% dos cânceres ocorrem antes dos 40 anos de idade.
No caso de Luis, o primeiro diagnóstico ocorreu ainda na primeira infância: “Eu era bem arteiro quando criança. E uma brincadeira que eu gostava de fazer com a minha mãe era que eu pedia pra ela deitar comigo no sofá, eu me jogava no chão e saia engatinhando para ela correr atrás de mim, E nessa, como eu me jogava com força, ela me segurava pela cintura.”
“Nesse dia, ela segurou pela coxa e a minha perna escapou da mão dela e bateu na outra, na parte de dentro, que era onde estava o tumor. E eu, que não era de reclamar, cheguei a chorar de dor, fiquei bravo com ela e tudo. Só que ela tinha sentido alguma coisa”, relembra.
O episódio levou a família de Luis a procurar por diferentes médicos na cidade natal, e um deles suspeitou da possibilidade, mas preferiu investigar. O menino foi encaminhado ao hospital do Grupo de Apoio ao Adolescente e à Criança com Câncer, em São Paulo, onde foi diagnosticado com rabdomiossarcoma, um tipo raro de tumor, na coxa direita. Luis entrou em remissão após passar por tratamento com quimioterapia e radioterapia.
Diagnósticos consecutivos
Quatro anos depois, em um exame de rotina e sem qualquer sintoma, o menino foi diagnosticado com câncer pela segunda vez, desta com um osteossarcoma, um tumor nos ossos. Novamente, Luis passou por tratamento e seguiu com a rotina.
Mas o desenvolvimento de um segundo tumor levou os médicos de Luis a realizarem exames e o diagnosticarem com a SLF. Considerada rara, a condição tem incidência global de um diagnóstico entre 20 a 5 mil pessoas.
“É uma síndrome hereditária, então minha família pode ter. Meus pais testaram negativo, minha irmã também. Se nenhum deles têm, os médicos chegaram à conclusão de que foi uma mutação espontânea que começou comigo, ou seja, é ainda mais raras. Se eu tiver filhos, ele também podem ter”, explicou.
Tempos depois, aos 12 anos, Luis começou a se queixar de dores intensas no joelho, que também prejudicavam sua mobilidade e atrapalhavam sua rotina. Os exames, então, identificaram um novo tumor, cujo tipo os médicos não conseguiram definir.
No entanto, os especialistas concluíram que se tratava de um câncer em estágio avançado, que já comprometia boa parte do joelho do garoto. A recomendação, então, foi pela amputação da perna direita de Luís.
“Lembro que estava perto do meu aniversário e, como ia ter festa, pedi para o médico que fosse depois. Minha mãe começou a chorar, mas eu fiquei normal. Eu falei para ela que não precisava chorar, e ela disse: ‘Filho, você entendeu o que o médico falou? Eles vão tirar a sua perninha’, e eu respondi: ‘Mãe, melhor vivo com uma perna do que morto com as duas’, diz Luis.
No mesmo ano, poucos meses após a amputação, Luis também foi diagnosticado uma metástase no pulmão direito. Desta vez, o garoto passou por cirurgia para a retirada de nódulos e não precisou de quimioterapia.
A quinta ocorrência foi durante a adolescência, quando Luis começou a sentir dores no joelho esquerdo. Ele conta que o pai chegou a suspeita de sobrepeso, mas lembra que a dor era ‘diferente’. Logo veio o diagnóstico de osteosarcoma.
O extenso período em tratamento também o levou a ter que deixar de usar prótese na perna amputada e o manteve na cadeira de rodas: “Tive que aprender a andar de novo, e nesse tempo em que eu fiquei parado, minha prótese mudou completamente, entre tamanho, medida, tudo. Tive de voltar à oficina para conseguir andar novamente. Nesse tempo, conforme conseguia ficar em pé, minha perna foi se fortalecendo sozinha”.
No entanto, no começo de 2026, aos 20 anos, um câncer no intestino foi descoberto em um novo exame de rotina. Com isso, Luis fez uma nova cirurgia, no início de abril. Para ele, no entanto, a principal diferença entre essa sequência de tratamento e as demais é seu atual contexto de vida, em que se divide entre o trabalho e a faculdade, em que estuda gestão empresarial.
“Esse é o meu primeiro tumor adulto, então como fica o trabalho, a faculdade? São coisas com as quais agora eu também preciso me preocupar. Por exemplo, ter de me afastar pelo INSS, então são coisas novas”, conta.
‘Sempre enxergar o copo meio cheio’
Mesmo diante de quadros clínicos tão complexos, Luis Adolpho se mantém otimista. A experiência na luta contra diferentes tipos de cânceres, além disso, o levaram a compartilhar sua rotina nas redes sociais.
“Neste sexto câncer, eu não sabia como contar para os meus amigos e decidi gravar um vídeo para a internet. Fiz um vídeo lavando louça, mesmo, mas não achei que fosse dar a repercussão que teve. Depois disso, foi fácil perder a timidez (risos)”.
“Acaba que eu vejo que minha história ajuda muitas pessoas, e eu fico feliz em poder ajudar de alguma maneira. Então quero continuar entregando mais. Acho que o segredo é não desistir, não abaixar a cabeça e sempre enxergar o copo meio cheio. Ver além dos problemas e o lado bom, isso ajuda bastante”, finaliza.
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