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O espetáculo, criado em 2019 e com nova temporada sendo apresentada neste ano, acontece em meio ao Polo Industrial de Cubatão  Foto: Beatriz Araujo/Terra

Bebês sem cérebro, enchentes e poluição: teatro resgata história da ex-vila formada no ‘pé da indústria’ de Cubatão

Peça dá voz a memórias de ex-moradores da Vila Parisi, bairro que ficou conhecido como ‘Vale da Morte’

Imagem: Beatriz Araujo/Terra
  • Beatriz Araujo Beatriz Araujo
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21 out 2023 - 05h00
(atualizado em 25/10/2023 às 10h45)

'Vale da Morte'. Foi assim que ficou conhecida a Vila Parisi, antiga periferia formada no coração do Polo Industrial de Cubatão, no litoral de São Paulo, com cerca de 15 mil habitantes. Um lugar onde a roupa nunca ficava limpa por conta das fuligens das fábricas, que alagava em tempos de fortes chuvas e onde bebês começaram a nascer 'sem cérebro', como ficou marcado na vida dos moradores. Mas o bairro não existe mais desde 1992, quando foi despovoado e extinto.

Esse passado, ainda tão presente na realidade de tantos, é resgatado no espetáculo Vila Parisi*, sobre a vida e a gente do bairro operário de Cubatão, que está em cartaz neste sábado e domingo, dias 21 e 22, na cidade.

Vida nova e morte precoce

O espetáculo, criado em 2019 e com nova temporada sendo apresentada neste ano, acontece em meio ao Polo Industrial de Cubatão
O espetáculo, criado em 2019 e com nova temporada sendo apresentada neste ano, acontece em meio ao Polo Industrial de Cubatão
Foto: Beatriz Araujo

A Vila Parisi foi uma ocupação que começou a ser desenvolvida entre a década de 70 e 80 no epicentro da área industrial cubatense. Ali, na época da ditadura militar e rodeadas de indústrias, moravam majoritariamente migrantes do Nordeste, que vinham em busca de sonhos e de esperança de um lugar melhor.

Zefinha, uma das personagens da peça, é uma mulher grávida que, em um dos momentos do espetáculo, sente a dor de ter dado à luz um filho com anencefalia por conta da exposição aos poluentes. Na época de Vila Parisi, Cubatão ficou conhecida como a cidade dos “bebês sem cérebro” em meio a seu contexto de poluição. Um número comum dito entre os ex-moradores da vila, ouvidos pela reportagem, é de que foram ao menos 37 bebês que nasceram mortos devido a problemas como a anencefalia. O número, porém, não foi confirmado oficialmente pelo município.

Chuva pinicava

O espetáculo, que a reportagem assistiu, é apresentado em uma praça circular rodeada de indústrias, em analogia à Vila Parisi. Nesta temporada, a peça está em cartaz desde setembro e, em alguns dias, choveu. Mas, mesmo a céu aberto, com as chaminés ao redor, a chuva não pinicou. Nem correou. Nem ardeu.

Mas, nos anos de ‘Vale da Morte’, a situação era diferente. A reportagem apurou a história de uma comunicadora, que não quis se identificar, que lembrou a época em que o seu pai e sua avó moravam na Vila Parisi e contavam sobre essa chuva que coçava a pele.

Eles seguiram no bairro até sua extinção. Pelo governo, a maior parte das pessoas foram levadas para o Jardim Nova República (conhecido como Bolsão), mas muitos também se direcionaram para Pilões, Vila Caraguatá e Vila Esperança, por exemplo, todos bairros periféricos da cidade.

Página de divulgação do show do Roberto Carlos na então Vila Parisi em um jornal regional
Página de divulgação do show do Roberto Carlos na então Vila Parisi em um jornal regional
Foto: Reprodução/Arquivo Jornal A Tribuna

Ao Terra, a Prefeitura de Cubatão informou que a área de 41 hectares foi declarada de utilidade pública em 1985, dando início à 'desapropriação de todos os seus lotes'. A partir disso, segundo a prefeitura, em 1986 os moradores começaram a ser remanejados a outros bairros, com "grande maioria contemplada com moradias de interesse social".

‘Vale da vida’

O fim da Vila Parisi, com a expulsão de todos os moradores, foi marcado com um show do Roberto Carlos em maio de 1992, como a passagem do ‘Vale da Morte’ para o ‘Vale da Vida’. Segundo levantamento ao qual a reportagem teve acesso, o evento contou com a presença de mais de 80 mil pessoas.

Agora, no local da Vila, existe o Ecopátio Logística Cubatão, do Grupo Ecorodovias. Segundo divulgado pela empresa, ele é considerado o principal pátio regulador de caminhões do Porto de Santos - um dos maiores da América Latina.

Racismo ambiental

Para um pesquisador, que também não quis ser identificado, falar de Vila Parisi é também falar sobre racismo ambiental. Ao Terra, ele explicou que, diferente da Vila Fabril - uma das primeiras vilas operárias de Cubatão -, a Vila Parisi não surgiu a partir de um modelo de urbanização onde as empresas forneciam casas aos funcionários e era dada mais estrutura.

O processo, segundo ele, foi muito desassistido, com as pessoas se instalando praticamente dentro das indústrias, gerando questões sanitárias, com casos de problemas de saúde decorrentes da poluição e exposição a produtos químicos, e também humanitários, como o aumento da violência.

Na época, loteamento foi permitido pela Prefeitura de Cubatão
Na época, loteamento foi permitido pela Prefeitura de Cubatão
Foto: Reprodução/NovoMilenio/Acervo do Departamento de Imprensa Prefeitura Municipal de Cubatão

Problemas, segundo o pesquisador, que não são exclusivos de Cubatão. Para a reportagem, ele cita os casos do incêndio na Vila Socó (também em Cubatão), da explosão nuclear Chernobyl e do rompimento das barragens de Mariana.

Atualmente, há 30 grandes indústria instaladas no polo petroquímico de Cubatão. As produções feitas na cidade abastecem a cadeia de consumo nacional. De acordo com último levantamento da cidade, em 2022 o Parque Industrial de Cubatão gerou R$ 33 bilhões.

Cubatão segue poluído?

A Prefeitura de Cubatão afirma que a partir de 1983, quando a Vila Parisi ainda estava de pé, a gestão municipal e a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) iniciaram uma ação emergencial na cidade, implantando um plano de recuperação ambiental com investimento de US$ 3 bilhões. O valor foi voltado, por exemplo, para a instação de filtros em chaminés e despoluição dos rios e córregos.

Já em 1992, na primeira Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento - conhecida como Rio-92 - Cubatão foi reconhecido pela ONU como símbolo de recuperação ambiental, com controle de 98% dos poluentes lançados no ambiente.

Mesmo com a retomada, segundo relatório da empresa suíça IQAir, que monitora a poluição de ar em todo o planeta, Cubatão é a 7ª cidade com ar mais poluído do País. Os dados são referentes à média de 2022 e, nesse recorte, Cubatão está caracterizado como uma cidade que excede em 3 a 5 vezes as diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Analisando apenas entre as cidades do estado de São Paulo, Cubatão está no topo da lista. Santos, cidade vizinha no litoral paulista, ocupa o 14º lugar nesse ranking estadual.

No Estado, com o índice mais próximo do de Cubatão, há a cidade de Santa Gertrudes, reconhecida por seu Polo Industrial Cerâmico. Em 2021, por exemplo, era essa região que ocupava o primeiro lugar entre as cidades de São Paulo.

O estudo da IQAir disponibiliza os dados de concentração de partículas poluentes no ar das cidades do Brasil ao longo dos meses do ano e entrega um índice médio .Confira detalhes 10 cidades que ocupam o topo da lista:

Foto: Reprodução/Site IQAir

Agora, neste ano, de acordo com a atualização desta sexta-feira, 20, o índice de qualidade do ar de Cubatão está considerado como bom pelo sistema da IQAir. Sendo assim, a taxa de concentração de poluente neste mês atende ao atual valor da diretriz de qualidade do ar da OMS.

Ao Terra, a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) afimou que o Programa de Controle de Poluição Ambiental em Cubatão foi iniciado em julho de 1983, passando pelos setores da poluição do ar, água e solo. Simultaneamento, explicam que foram estabelecidas premissas necessárias ao licenciamento de novas fontes, atendimento às reclamações da comunidade, assim como às emergências e acidentes ambientais no sistema Anchieta-Imigrantes e rodovias da região.

"Após as várias medidas efetivadas, verificou-se dentre outras, a recuperação da qualidade das águas do Rio Cubatão, com o retorno da vida aquática, diminuição expressiva de episódios críticos de poluição do ar, recuperação da Serra do Mar e minimização de acidentes com cargas perigosas nas rodovias da região", complementou a nota.

Artistas se preparando para entrar em cena em meio a um céu repleto de fumaça das indústrias ao redor
Artistas se preparando para entrar em cena em meio a um céu repleto de fumaça das indústrias ao redor
Foto: Beatriz Araujo/Terra

A reportagem também solicitou à prefeitura de Cubatão informações sobre a quantidade registrada de bebês que nasceram mortos por conta de problemas como a anencefalia na época da Vila Parisi. O espaço segue aberto.

Estado de alerta

Por mais que o cenário de poluição não seja mais o mesmo das décadas passadas, os moradores seguem vivendo em estado de alerta. A reportagem conversou com três moradores que disseram que, de vez em quando, sentem algum cheiro diferente e se perguntam se estão inalando algum produto químico.

Durante a montagem da peça, uma pessoa de São Paulo que auxiliou na iluminação da peça, por exemplo, chegou ao local e logo começou a reclamar que seu nariz estava ardendo muito. Os moradores, porém, dizem que as vezes esquecem que o nariz arde, acabam "acostumando".

Um dos moradores, que vive a cerca de quatro quilômetros do início das indústrias, relatou à reportagem que, em algumas madrugadas, já sentiu cheiros diferentes e viu o céu mudando de cor. Esse cenário acende o estado de alerta e o faz temer que algo possa estar errado com sua comida, sua água, ou até mesmo que já tenha afetado a sua saúde.

* O grupo responsável pela peça pediu que seu nome fosse ocultado da reportagem.

Fonte: Redação Terra
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