Putin sugere ex-chanceler alemão para mediar paz na Ucrânia
Indicação de Gerhard Schröder é recebida com perplexidade em Berlim. Amigo pessoal de Putin, ex-chanceler evita criticar a invasão russa da Ucrânia e já defendeu o líder russo de acusações de crimes de guerra.O governo alemão respondeu com ceticismo aos comentários do presidente russo, Vladimir Putin, sobre um possível fim da guerra na Ucrânia e uma potencial mediação do ex-chanceler alemão Gerhard Schröder nas negociações de paz.
Em uma coletiva de imprensa após as comemorações do Dia da Vitória em Moscou, neste sábado (09/05), Putin afirmou que "de todos os políticos europeus, eu preferiria conversar com Schröder". O líder russo também disse acreditar que a guerra estaria caminhando para o fim.
O veterano político social-democrata, que governou a Alemanha de 1998 a 2005, vem sendo amplamente criticado nos últimos anos por manter laços próximos com o líder russo.
Neste domingo, fontes do governo alemão ouvidas pela agência de notícias DPA classificaram o comentário de Putin como parte de uma série de "ofertas simbólicas que integram a conhecida estratégia híbrida" da Rússia. "Mas a Alemanha e a Europa não se deixarão dividir por isso", disseram.
Ex-chanceler politicamente isolado
Schröder, de 82 anos, vive um ostracismo político na Alemanha por seus laços pessoais com o líder russo e ligações financeiras com empresas controladas pelo Kremlin.
Ele se viu isolado politicamente por sua recusa em denunciar a invasão russa da Ucrânia e por seus laços financeiros de longa data com a indústria energética de Moscou.
Sua legenda, o Partido Social-Democrata (SPD), chegou a abrir um processo de expulsão do ex-chanceler, que acabou fracassando. O Bundestag (Parlamento alemão) também decidiu cortar alguns dos benefícios que ele tinha como ex-chanceler.
Em seus últimos dias de governo, em 2005, Schröder autorizou a concessão de uma garantia bilionária que facilitou a construção do gasoduto submarino Nord Stream, que liga a Rússia diretamente à Alemanha, contornando países como a Ucrânia e Polônia, cujos governos são adversários do Kremlin.
Cargos em empresas russas de energia
Schröder aceitou um cargo no consórcio do gasoduto poucos dias após deixar a chancelaria. A partir de então, passou a acumular uma série de cargos em empresas russas, que só abandonou após o início do conflito na Ucrânia, não sem resistência.
Desde o início da guerra, Schröder também visitou Putin em duas ocasiões. Ele não fez qualquer crítica pública ao presidente após a invasão da Ucrânia e praticamente defendeu Putin das acusações de crimes de guerra em uma entrevista.
Em um editorial de jornal no início deste ano, Schröder descreveu a invasão russa como contrária ao direito internacional, mas também se disse "contra demonizar a Rússia como o inimigo eterno".
Ele gerou nova polêmica ao apoiar a retomada das importações de fontes de energia da Rússia, como petróleo e gás natural liquefeito.
O escritório de Schröder informou neste domingo que o ex-chanceler não iria comentar a declaração de Putin.
SPD não descarta envolvimento de Schröder
Especialistas em política externa do SPD defendem uma avaliação séria da proposta de Putin sobre um possível papel de Schröder como mediador na guerra na Ucrânia.
"Toda oferta deve ser avaliada seriamente para determinar sua confiabilidade", disse Adis Ahmetovic, porta-voz de política externa do SPD, em entrevista à revista Der Spiegel neste domingo.
"Não podemos aceitar que os EUA e a Rússia decidam sozinhos o futuro da Ucrânia e da segurança europeia. Nosso objetivo deve ser ter um assento à mesa de negociações", disse Ahmetovic.
"Se uma condição para isso for o envolvimento do ex-chanceler alemão, isso deve ser considerado em estreita consulta com nossos parceiros europeus e não descartado imediatamente."
Ralf Stegner, especialista em política externa do SPD, expressou uma opinião semelhante. Até o momento, disse ele, a Europa não participou das negociações e não pode enviar propostas. "Se isso pudesse ser alcançado por meio de alguém como Schröder, seria negligente descartá-lo."
"Europa deve estar presente nas negociações"
Segundo as fontes do governo alemão ouvidas pela DPA, a Rússia não alterou suas exigências para voltar à mesa de negociações, portanto, essa opção não é vista como confiável. Um primeiro teste de credibilidade seria Moscou estender o cessar-fogo, após Ucrânia e Rússia concordarem com uma trégua de três dias válida até esta segunda-feira, sob a mediação do presidente dos EUA, Donald Trump.
As fontes destacaram que a Europa e os EUA têm equipes de negociação bem coordenadas. A Ucrânia, juntamente com o grupo E3 - composto por Alemanha, França e Reino Unido - se manteve sempre disponível para conversações. "A Europa precisa estar à mesa de negociações, mas as condições precisam ser adequadas para isso."
Na coletiva de imprensa deste sábado, Putin disse estar preparado para manter conversas diretas com o presidente ucraniano Volodimir Zelenski, mas acrescentou que "quem quiser se encontrar comigo deve vir a Moscou", e que um encontro em outro local teria de ser precedido por um acordo de paz de longo prazo. Zelenski, por sua vez, descartou viajar para Moscou.
rc (DPA, ots)
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