De volta à estação, plataforma trinta e seis. O trem pra Queenstown era um verdadeiro lixo, e eu era o único passageiro no meu vagão. Menos mal. Sentei e tentei dormir, cobrindo a cabeça com a gabardine úmida. Porém fiquei pensando, os olhos revirando nas órbitas, o corpo anestesiado. O tempo escapava como gordura pelo ralo. Se eu falhasse, um outro prisioneiro viria em meu lugar. Sempre há um outro, nalgum lugar. O trem chegou à estação uma hora depois. Em Queenstown não estava chovendo. A plataforma estava tão vazia que o vento corria de um lado a outro, cantando, sem um corpo para sentir. Busquei no bolso da calça o endereço que Radun me ditara ao telefone e, andando sempre em frente encontrei um mendigo, a duas quadras da estação. Olhando o papel, ele soltou uma risada sem dentes, o hálito antecipando as palavras:- Hoje é teu dia de sorte - ele soluçou entre gargalhadas. É bem naquela esquina ali.
Agradeci e dei uma moeda ao homem. A moeda era de Vilesham, e quando ele percebeu soltou um xingamento qualquer. Eu já me afastava. Fui andando mais e mais e mais rápido até que as pernas pararam, decididas em frente a um edifício antigo. A porta se abriu sem perguntas. Uma escada em espiral se erguia na sombra da rua e, nas paredes uma espécie de seiva viva, cujo brilho se anunciava discreto no meio da escuridão, corria sem pressa. Todas as portas estavam fechadas Subi as escadas até o fim. A porta de veludo deixava escapar uma música distante, rouca e desafinada, entremeada por gargalhadas histéricas. Um calafrio me atravessou, rápido. Atrás da porta um espelho e, no reflexo invertido, o mesmo neon azul anunciava: Hula Hoop. A loirinha apareceu no topo da escada, sorriso em riste, os dentes acendendo degraus. Ela enroscou os braços ao redor do meu pescoço, colando todo o seu corpo ao meu. Com uma voz vaporosa, cochichou:
- Sabia que você vinha.
Nada fazia sentido, então a deixei fazer o que queria comigo. Perguntei seu nome. Britney. Mas era parecida com alguém. Bimorfos não tem a mínima criatividade. Atrás dela, a música foi ficando mais alta. O marinheiro espiou pela porta, furtivo. Ela sorriu, e enquanto mordia de leve minha orelha, anunciou.
- Desculpe, baby. Mas esta é a vida real. Escuta,
Por detrás do espelho pude discernir a canção que tocava no Hula Hoop. E a maldita ainda me beijou pela última vez com aquela língua molhada antes de me empurrar escada abaixo.
"I can't get no...no,no,no."
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