Eu trabalhava numa agência de publicidade. Um dia, estava no meio do esboço de um anúncio para um cemitério com nome de saudade quando peguei o vidro de corretor e joguei com força no chão. Se espatifou. Olhei os cacos de vidro, me abaixei e apanhei o maior. Mal contendo um gemido, enfiei o vidro com força na coxa. Rasgou a calça e depois a pele, fazendo um jato vermelho se misturar aos restos de tinta branca do corretor. Já era uma mancha de mais de um palmo quando dei um berro de encenação e dor verdadeira. Me levaram para um hospital. O médico olhou o vidro enfiado até o talo na minha perna e me mandou para a sala de cirurgia. Duas horas depois, foi me visitar na cama. Estava grogue da anestesia e, com os olhos meio fechados, só vi ele segurando o vidro com umas luvas de borracha. Depois colocou o caco numa bandeja e comentou:
Mas que azar, hein rapaz? O vidro foi quebrar e entrar logo na sua perna. Nunca tinha visto isso.
Falou sem maldade, eu senti. No dia seguinte, ele voltou e disse que eu podia ir para casa. Me mandou ficar uma semana de repouso. Como a perna doía, fiquei andando de muleta pela casa. Depois larguei as muletas e passei a pular de um lado para o outro só apoiado na minha perna machucada. Passou a doer mais. Algumas vezes, os músculos não agüentaram a dor, perderam a força e caí feio no chão. No quinto dia, eu abri a gaveta da cozinha, apanhei uma faca e enfiei no corte. Gritei, mas se alguém ouviu, não apareceu para ajudar. Um jorro de sangue começou a descer. Telefonei para a polícia e disse que era uma emergência. Uma ambulância veio, me pegou e levou para o mesmo hospital, mas foi outro médico que me atendeu. Viu minha ficha e perguntou: como foi?
Eu tentei andar sem muletas e começou a sangrar desse jeito, eu respondi.
E como está agora?
Doendo.
É melhor você descansar mais uns dias, ele completou.
Na terceira semana, deixei a TV ligada em um programa com rinocerontes fodendo e peguei uma escova de lavar roupa. Sem pressa, comecei a esfregar a escova na ferida. Primeiro saiu a casca grossa de cima, depois uma camada que estava quase cicatrizada. Logo surgiu sangue na superfície e começou a doer. Parei. De vez em quando recomeçava e escavava mais um pouco com a escova. Em uma semana, uma ferida fedorenta e purulenta ficou à vista. Limpei com água oxigenada e mertiolate e voltei ao hospital. Quem estava lá era o primeiro médico.
Tá piorando sem parar, eu disse. Claro que eu tô tomando os remédios.
Ele mandou tomar duas injeções e ficar mais um mês em casa.
Em três meses, a ferida virou um ferimento negro e asqueroso. A perna passou a doer mais a cada dia, até que eu não pude mais andar. A infecção cheirava mal. As pessoas começaram a me olhar diferente, uns com pena, outros com nojo. Alguns também diziam alguma ofensa, mas a maioria só queria estar longe de mim o mais rápido possível. O médico acompanhou todo o processo. Me deu injeções, pomadas e comprimidos. Minha mãe me deu ungüentos, compressas e chá. Os amigos me levaram na acupuntura, em um homeopata e numa mãe-de-santo, que disse que eu estava sendo vítima de um trabalho de alguém que não gosta de mim. Como nenhum funcionou, numa consulta o médico apareceu com cara de preocupado. Disse só uma palavra e saiu: gangrena.
Fizeram a operação no dia seguinte. Eu pedi só anestesia local, queria ver a operação, mas o médico não deixou. Quando acordei, no lugar da perna esquerda havia uma depressão no cobertor. O coto doía do corte que foi feito, mas também, o médico disse, porque a minha cabeça achava que a a perna ainda estava lá. Não sei por que, Suzana, uma colega do trabalho, estava sentada ao lado da cama. Disse umas coisas que eu esperava, todo mundo está sentindo muito, mandaram lembranças, etc. Não apareceu mais ninguém, eu mal conhecia todo mundo. Uma semana depois de ter alta, dei entrada nos papéis. O funcionário disse que a aposentadoria sai em um mês, o senhor vai ser avisado em casa. Quando me deu os parabéns, ele olhou para onde não tinha mais a perna e depois ficou constrangido, quase pedindo desculpas. Foi aí que não me agüentei mais e comecei a rir.
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