Há quem ache o esporte uma atividade estranha e egoísta. Preza sempre a vitória, nos leva a ser competitivos e envolve uma quantidade de dinheiro que poderia ser melhor usada. Nada disso pode ser aplicado ao Campeonato dos Pregadores. Na verdade nunca houve um, que eu saiba. O campeonato, o mais longo do mundo, foi disputado durante anos só na minha imaginação. Há uns 15 anos eu trabalhava em um jornal na Baixada Fluminense e fazia a viagem de trem porque era mais barata e mais rápida. Os vagões estavam sempre meio vazios, já que às oito da manhã a massa está viajando em sentido contrário. Esparramado nos bancos, tinha o pessoal que trabalhava de madrugada e voltava dormindo nos bancos. Esses eram os que mais se incomodavam com o Homem de Papelão. O Homem de Papelão (apelido que coloquei e só eu usava) era um gordinho que toda manhã aparecia usando uma espécie de vestido feito de cartazes e com pregações da Bíblia escritas a caneta. Não tinha dia em que não aparecesse, andando de um vagão para o outro e berrando que todo mundo vai para o inferno por fumar, beber, jogar e falar palavrão. Dizia e repetia que estávamos próximos do fim dia após dia, viagem depois de viagem, ameaça após ameaça. Mas não estava só. De vez em quando, vinha lhe fazer companhia outro pregador, que, sem saber o nome, chamava de Papai Smurf. Barbudo e baixinho, usava uma túnica azul clara de monge. Ninguém continha o riso quando fazia coro, com uma vozinha parecida com a da Aracy de Almeida, de que é pecado fumar, beber, jogar e falar palavrão. Um dia apareceu no jornal, numa foto ao lado de uma sandália de dois metros de altura, que tinha feito com as próprias mãos. Colocava a sandália no carro, carregava até o lugar da pregação e depois tinha um trabalhão para subir naquele colosso de couro. Tudo porque a sandália era onde passou a pregar. Depois da foto, nunca mais apareceu no trem.
Além dos dois, tinha o Enfezado. Esse era um gigante de mais de dois metros, com um corpo de lutador de boxe. Andava pelo meio dos bancos sem segurar em nada e gritando que todos que íamos parar no inferno. Que quase tinha se queimado no fogo do inferno, mas sobrevivera. Que tinha enfrentado o diabo no tapa, uma batalha que fazia todo mundo ter pena do capeta, obrigado a encarar aquela massa de músculos a serviço da fé. Não dizia o que tinha passado, mas repetiu sempre "tomei de tudo, de tudo".
Tinha ainda dois ou três pregadores que só apareciam nos finais de semana, mas esses não chamavam atenção, como o Enfezado, o Papai Smurf e o Homem de Papelão. Como a viagem durava uns 40 minutos e às vezes o livro estava chato, comecei a organizar um campeonato entre todos os pregadores de trem. A cada dia imaginava uma disputa: "E agora respeitáááável público (a apresentação era no estilo dos lutadores de boxe). Neste vagão se enfrentam o Enfezado e o cantor da Igreja Batista". Ganhava quem convertesse mais passageiros. O Enfezado ganhou todas as provas por fazer conversões na marra, os perdidos da vida, sob a ameaça de passar pelo mesmo que o diabo, não resistiam nadinha. Mas o Homem de Papelão não ficava longe. Falava sem parar até o pobre coitado aceitar parar de beber, jogar... Só o Papai Smurf não se dava bem. Quando finalmente conseguia subir na sandália, o público já tinha ido embora.
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