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    EMILIANO URBIM
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A argentina que não comia carne

Segunda, 08 de abril de 2002, 20h04



Gabriela Lacarta pouco diferia das outras argentinas de vinte e poucos anos e classe média no final do século XX. Bonita sem ser linda, tinha cabelos pretos e usava-os curtos - quase sempre presos por uma tiara - e vestia-se sempre para 5°C a menos que a temperatura ambiente.

Econômica ao falar, moderada ao gastar, elegante ao fumar, desmedida ao beber, irascível pela manhã, tinha como característica peculiar a ojeriza à carne vermelha, postura alimentar adotada desde o meio da adolescência. Filha de uma advogada corrupta e de um psicólogo lacaniano, cresceu num ambiente cercado de algum dinheiro e muitos livros. Desde a adolescência desenvolvera simpatias pelo idioma francês, que ela encontrava nas freiras do colégio, e pelo povo brasileiro, que ela encontrava nas férias do colégio. Passado o ensino médio, Gabriela passou a dedicar-se ao trabalho voluntário, ensinando fotografia a crianças carentes, e à faculdade de Medicina. Patologicamente alheia às convulsões que seu país atravessou nos últimos anos, vivia sem pressa e sem pausa, uma existência circular e repetitiva, como a dos mitos e dos sonhos. Até morrer em um acidente de carro nos arredores de Buenos Aires neste último fim de semana.

Teve, como qualquer outra, a sua história de amor. (1)

Quando em Londres, onde esteve estudando inglês a contragosto durante o mês de janeiro de 1998, Gabriela apaixonou-se por um brasileiro, seu colega de escola e de albergue. Ele tinha 19 anos, dois a menos que ela, era alto, magro e bem-humorado - não necessariamente engraçado. Entre uma batata assada e uma cerveja preta, ele lhe narrava em espanhol capenga histórias de seu país. Gabriela surpreendeu-se com o fato de que estava diante de um gaúcho, um "gaucho" como os homens do pampa argentino. E houve fascínio em seus olhos quando soube que o Brasil não só havia sido uma monarquia, como havia tido dois imperadores, e uma princesa havia libertado os escravos. "Parece conto de fadas", comparou.

Certa noite, estavam os dois nus sobre a cama de solteiro do alojamento do brasileiro, suando com o ar quente da calefação e olhando para o teto. Gabriela virou-se para ele e disse, em inglês capenga: "Já reparou o quanto somos parecidos? Você é brasileiro e não sabe sambar, não é metido a malandro e joga futebol pior que eu eu. E eu sou argentina e não como carne." Surpreendido, disse "Tu não come carne?" e ultrajado gritou "FRESCA! Te bota daqui pra fora!" e com um empurrão derrubou-lhe da cama.

Gabriela vestiu-se rapidamente - pôs até a calcinha virada - e saiu pelo corredor a chorar. Assim seguiu por mais uma semana, com o agravante do soluço, até o dia do vôo de volta para Buenos Aires. Transtornada pela culpa, pediu bife para a aeromoça, vindo a vomitar no banheiro do avião - anotou em seu diário "mais do que a carne, é a rejeição que não consigo digerir". Um ano depois, ligou para o gaúcho, dizendo que ia passar as férias de verão no Brasil e queria muito revê-lo. "Aparece aqui com uma picanha e um espeto de coraçãozinho que a gente conversa!", ele respondeu. E agora está morta, veja só como são as coisas.

(1) O dever e o temor da denúncia de plágio me obrigam a informar que essa frase mimosa, assim, solta no espaço ao som dos violinos - eu ouço! - é chupada da novela Um Coração Simples, de Gustave Flaubert, francês e morto. O livrinho conta a história de uma doméstica de vida muito triste e (talvez por isso mesmo) muito bonita. Você também encontra nas melhores casas do ramo como Um Coração Singelo, mas é tudo a mesma aorta.

Leia a crônica anterior

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