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    ALEXANDRE RODRIGUES
alex.rod@terra.com.br

As pessoas que seguem pessoas - II

Quinta, 04 de abril de 2002, 10h34



ou A verdade sobre os fatos


Na secretária, Guilherme aperta a tecla de voltar e ouve de novo o recado. Liga de volta. Combinam por telefone um encontro, dez minutos depois.

Alfredo pára o carro, mas esquece de sair, fica olhando os pombos dando voltas na praça. A cada buzinada, a revoada recomeça, em um vôo praticamente sem fim. Em um banco, localiza Luiz, que faz um sinal, e só então sai para a calçada.

Marcelo o olha. Percebe as olheiras no amigo. Paulo está com jeito de que não dorme há dias. Cheira a suor e cigarro, a camisa amassada e cheia de manchas. Sentado no banco, as duas mãos em concha, segura grãos de milho. De repente, atira todo o milho perto de Marcelo, que precisa saltar para não ser atingido pelos pombos que chegam em bando.

E então?

Fiquei muito tempo pensando antes de te ligar. É um assunto miserável, mas nós dois somos amigos.

Fala logo.

Ricardo pede um café com conhaque. O garçom o olha, depois o relógio de parede e depois ele de novo. São três da tarde. Sob o toldo amarelo do bar, ele e Renato olham as pessoas na rua. Um casal se abraça encostado a uma estátua de Tiradentes. Dois hare-krishna tentam vender incenso a quem passa na rua. Mas Ricardo não presta atenção em nada. As palavras de Renato ainda queimam.

A Renata. Ela foi vista numa orgia.

Se vira para Sérgio, que arrumou, sabe-se lá onde, um novo saco de milho e joga um punhado para os pombos mais próximos.

Quem te contou?

Mariano.

A porta do apartamento. Nervoso, Milton arranca sons ocos enquanto esmurra a madeira. Plínio finalmente abre. É muito magro, quase esquelético. Sem cumprimentá-lo, Milton entra e se joga no sofá. Alfredo, que vem atrás, explica tudo em voz baixa.

Bem, ver eu não vi, responde Ademir. Quer dizer, não estive lá. Mas há testemunhas. Foi num barco, uma coisa luxuosa, só para ricos. Esses putos sabem se divertir. Quer dizer, Léo, nós somos amigos. Eu ia te contar...

Se você não estava lá, quem te disse?

Alceu.

Quem é esse? – Rogério pergunta, o carro parado num sinal.

Um disc-jóquei, amigo do pessoal. Trabalha numa boate da zona sul e conhece um pessoal grã-fino.

O carro pára na guarita de um condomínio. Romano os recebe sonolento e de roupão, mal acordou.

Esse é o....

João.

O Marcos. Ele é marido da Vera, aquela que dirige uma galeria. Ele quer saber se ela estava mesmo no barco.

O sono, a situação, José toma um grande gole de café para acordar. Edvaldo não consegue parar de pensar na mulher, na imagem de Sílvia num bacanal. Está a ponto de agarrar José pelo pescoço, Manolo percebe. Repete a pergunta.

Não – Péricles responde.

Mas você disse...

O que eu disse é que ela tem um amante.

Mal ouve, Rui dá um salto. Grita:

Quem?

Isso eu não sei. Quem me contou foi o Vanderlei. É editor de jornal.

O telefone tocando, uma garota passa, dá um sorriso para Flávio, que pega um cigarro, acende e depois vê a placa: é proibido fumar. Numa sala ao fundo, atrás de grandes janelas, seis ou sete pessoas falam alto numa reunião. Quando terminam, Orlando cumprimenta o grupo. Sim, conhece Juliana.

Isso foi coisa do Cacá Medeiros. Eu só repassei.

Luno Bezerra é colunista social do jornal. Está em sua sala, caminhando e gritando em um telefone sem fio preso ao rosto, do tipo usado pelas telefonistas. Quando termina, bate o telefone, pergunta: quem é o marido? Valdir dá um aceno.

Escuta: sinto muito pela situação, mas não tenho nada a ver com isso. Estou ocupado, tenho uma coluna pra fazer.

Agora é tarde – diz Giovanni –, só quero saber a verdade sobre os fatos. Você conhece a minha mulher?

Conheço.

E ela foi a uma orgia, tem um amante ou qualquer coisa que o valha?

De repente, Medina Souto abre um sorriso.

Foi um mal entendido – diz. Contei para Bastos sobre outra Letícia. O senhor pode prometer segredo?

Posso.

Então vou dizer o que sei. Cláudia apresenta um programa de televisão. É amante de Nestor, industrial do ramo do aço. Ele é dono do barco onde houve a orgia. Mas a SUA Cláudia não foi.

Remy tem vontade de abraçá-lo. No elevador, Lauro sugere um bife à parmeggiana. Remy agredece. Deixa o amigo em um táxi. Então dirige feito um louco. Faltam 15 minutos para a loja fechar quando entra, suado de correr desde o estacionamento. A vendedora o reconhece. O senhor não esteve aqui ontem? Fui eu sim. A jóia ainda está aí? Pode embrulhar.

A caminho de casa, passa em frente ao prédio de Matias. As luzes estão acesas. Decide parar um pouco, pedir desculpas ao amigo pelo transtorno do dia. “Que amigo que sou! Nem agradeci por tudo”, pensa. Quando a porta do apartamento se abre, deixa cair a caixa com o colar. Fátima o atende seminua.

Alexandre Rodrigues escreve às quintas-feiras no Popular

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