Atriz alemã denuncia ex-marido e abre debate sobre violência sexual digital
Personalidade da TV, Collien Fernandes diz que ex-marido, um ator conhecido, espalhou vídeos pornográficos deepfakes com sua imagem nas redes sociais. Escândalo abre debate sobre violência sexual digital na Alemanha.A atriz alemã e apresentadora de TV Collien Fernandes passou anos lutando contra perfis falsos dela em redes sociais, nos quais alguém se fazia passar por ela e compartilhava vídeos pornográficos deepfakes dela.
Cansada de lutar em vão contra essa violência digital, ela foi à polícia de Berlim em novembro de 2024 e registrou queixa por causa dos perfis falsos - contra desconhecidos.
Na semana passada, Fernandes contou à revista Der Spiegel que, pouco depois, no Natal, o marido dela, o também ator e apresentador de TV Christian Ulmen, começou a lhe fazer perguntas sobre a queixa apresentada por ela e acabou confessando que era ele quem estava por trás dos perfis falsos.
"Meu corpo me foi roubado durante anos", disse a atriz à revista. E de repente ela entendeu que o criminoso era "a pessoa mais próxima de mim", relatou.
Em dezembro de 2025, Fernandes apresentou queixa contra Ulmen em Palma de Mallorca, na Espanha, onde o casal - então já divorciado - residia.
Mais do que isso, Fernandes decidiu tornar o seu caso - que na Alemanha vem sendo comparado ao da francesa Gisèle Pelicot - público. A história dela chama a atenção para um tema ainda não muito debatido: a violência digital, por exemplo a geração por meio de IA de material pornográfico de terceiros e posterior publicação na internet.
Governo reage e prepara lei
A divulgação do caso teve enorme repercussão na Alemanha e abriu um debate sobre violência digital contra mulheres. Em reação à denúncia de Fernandes, milhares participaram no domingo passado (22/03), em Berlim, de uma manifestação contra a violência digital sexualizada e em solidariedade às vítimas.
Nesta segunda-feira, cerca de 250 mulheres famosas tornaram pública uma petição em solidariedade a Fernandes e com dez demandas ao governo. A petição exige medidas políticas concretas para melhor proteção contra a violência digital e o feminicídio. Um dia depois, o número de assinaturas já chegava a quase 25 mil.
O governo também reagiu. Já na sexta-feira passada, quando a Spiegel foi às bancas, o Ministério da Justiça anunciou que apresentará em breve um projeto de lei para eliminar lacunas no código penal e punir a criação de vídeos pornográficos deepfakes.
O objetivo da proposta é punir explicitamente a criação e a distribuição desses vídeos, o que não é considerado crime na Alemanha. O ministério comunicou que leva muito a sério a proteção contra a "violência digital" e enfatizou que ela atinge principalmente mulheres, sendo que os agressores geralmente são homens.
A proposta do governo foi apoiada também pelo Partido Verde e por A Esquerda, da oposição.
À emissora alemã ARD, a atriz declarou que decidiu apresentar a queixa - que também inclui acusações de maus-tratos e ameaças - na Espanha porque o ex-marido mora na Espanha - e também porque os direitos das mulheres são significativamente melhores no país do que na Alemanha.
Casal de celebridades
Fernandes, de 44 anos, e Ulmen, de 50, eram um casal de celebridades muito conhecido na Alemanha. Ambos começaram a carreira como apresentadores de TV nos canais Viva e MTV e em seguida desenvolveram carreiras bem-sucedidas como atores.
Os dois se casaram em 2011 e tiveram uma filha um ano depois. Eles também se apresentavam como um casal na mídia e davam entrevistas para falar sobre igualdade de direitos e divisão igualitária de tarefas no lar. Uma campanha publicitária de uma farmácia online, que foi protagonizada pelos dois, ficou famosa por causa da apresentação bem-humorada de cenas do cotidiano de um casal.
Há cerca de três anos, o casal se mudou para uma mansão com vista panorâmica em Palma de Mallorca, na Espanha, um destino de férias muito popular entre os alemães.
A Spiegel afirmou ter contatado Ulmen para que ele se posicionasse sobre as acusações de Fernandes, mas informou que ele não respondeu às perguntas. Depois da publicação da reportagem, o advogado de Ulmen anunciou uma ação judicial contra a revista e afirmou que a reportagem era, "em grande parte, ilegal e baseada em suspeitas" e que "fatos falsos estavam sendo divulgados com base num relato unilateral".