Imprensa europeia vê cordialidade simbólica e pragmatismo no encontro Lula‑Trump
O encontro entre o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, e o dos Estados Unidos, Donald Trump, foi recebido de forma majoritariamente positiva pela imprensa europeia, que destacou tanto o clima cordial da reunião quanto a tentativa dos dois líderes de relançar uma relação bilateral marcada por divergências recentes. Em Portugal, o jornal Público escreve que a reunião de três horas serviu para que Lula e Trump "enterrassem o machado de guerra".
O Le Monde ressalta que, apesar das diferenças ideológicas e de um histórico recente de tensões diplomáticas, especialmente sobre a guerra no Irã, os dois presidentes demonstraram satisfação após a reunião. O jornal francês observa que Lula fez questão de sublinhar a existência de uma "relação sincera" e destacou o peso simbólico do encontro, enquanto Trump elogiou "o dinâmico presidente do Brasil". Citado pelo diário, Lula afirmou que "uma fotografia tem grande valor" e ironizou que Trump sorridente nas imagens do encontro era um sinal mais positivo do que quando aparece "de cara fechada".
Temas econômicos, como comércio e tarifas, estiveram na pauta. O Le Monde menciona que o brasileiro abordou as eleições presidenciais de outubro, garantindo que Trump não terá "a menor influência" no pleito, sem citar o ex-presidente Jair Bolsonaro.
O cancelamento da coletiva conjunta prevista após a reunião, no entanto, chamou a atenção do jornal francês, que viu no gesto um sinal contraditório após um encontro descrito como tão relevante. Ainda assim, Lula falou sozinho à imprensa e reiterou que a conversa havia sido importante para ambos os países.
Para o El País, Trump e Lula consideram relançada a relação entre Estados Unidos e Brasil após o encontro de trabalho e o almoço na Casa Branca, chamados pelo jornal espanhol de reunião-chave para a relação bilateral entre dois países centrais do continente americano.
O Público lembra que a relação entre os dois líderes tem sido turbulenta e que, no ano passado, o presidente americano impôs tarifas muito pesadas às importações de produtos brasileiros por causa do julgamento de Bolsonaro. A reunião era aguardada com a expectativa de que pudesse apaziguar as relações entre os dois países e acabou descrita pelo jornal como um momento em que ambos "enterraram o machado de guerra".
'Movimento pragmático'
Segundo a leitura do alemão Die Welt, a reunião em Washington não configura uma reaproximação estratégica profunda, mas um movimento pragmático, guiado por interesses imediatos de ambos os lados. O jornal destaca que Lula e Trump seguem ideologicamente distantes e que o tom cordial após o encontro não apaga atritos recentes ligados a tarifas, à guerra no Irã e ao caso Bolsonaro. Na avaliação do diário alemão, Lula buscou sobretudo neutralizar riscos externos às eleições de outubro no Brasil, evitando sinais de ingerência americana, enquanto Trump teria interesse em manter canais abertos com a maior economia da América do Sul sem fazer concessões explícitas.
Essa leitura converge com a do Financial Times, que enquadra o encontro como uma relação funcional entre líderes opostos, sustentada mais por pragmatismo econômico do que por afinidade política.
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