Mototáxis: solução de mobilidade ou problema urbano?
Estudo investiga prós e contras dos processos de regulamentação desse tipo de transporte nas cidades, que precisam considerar não apenas os riscos, mas também os benefícios que oferece a populações de menor renda
A crescente participação das motocicletas no trânsito brasileiro tem ampliado a preocupação com os acidentes e seus impactos sobre o sistema de saúde. Dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) indicam que a frota no país cresceu de cerca de 2,7 milhões para mais de 34 milhões nas últimas duas décadas. Também houve um aumento de 35% na participação das motos em mortes de trânsito. Apenas em 2024, elas foram responsáveis por cerca de 60% das internações por acidentes de transporte terrestre e geraram gastos superiores a R$ 270 milhões ao sistema público hospitalar.
Devido a essas questões, hoje os aplicativos de transporte estão no centro de disputas regulatórias. Em São Paulo, a prefeitura tenta barrar sua operação por aplicativos. No Rio de Janeiro, há propostas que buscam regularizar o serviço para que as plataformas sejam responsáveis por coibir infrações de trânsito de motociclistas.
Ao mesmo tempo, o Estado do Rio de Janeiro reconheceu o mototáxi como patrimônio cultural imaterial. O texto da nova lei destaca que ele fornece acessibilidade a zonas montanhosas e de difícil acesso, comuns na região. "O serviço auxilia moradores a subirem as comunidades e se transportarem pelos bairros das cidades de forma mais barata", diz o texto. Além disso, ele destaca que a maioria desses trabalhadores são jovens negros, que precisam de oportunidades de trabalho.
A reivindicação por melhorias e mais segurança para trabalhadores e usuários é importante, mas é preciso que o processo de regulamentação não acabe retirando a essencialidade do serviço. Portanto, entender como e por que o mototáxi é utilizado é essencial para qualificar o debate público.
Mobilidade, um problema estrutural
As grandes metrópoles brasileiras foram formadas principalmente por processos de urbanização desigual, que geram cenários complexos de circulação e mobilidade.
Nessas metrópoles, empregos, serviços e infraestrutura se concentram nas áreas centrais, que ficam longe dos locais de moradia da maioria da população. Uma distância que pode ser tanto física quanto social, no caso dos milhões de moradores de comunidades e favelas, que geralmente estão em regiões de relevos íngremes, com becos estreitos e vielas de difícil acesso.
Quando essa dinâmica geográfica é abastecida por um sistema de transporte de baixa qualidade e efetividade, os impactos às vidas individual e coletiva são importantes. Tempo perdido, dificuldades de acesso a oportunidades e menor qualidade de vida. Portanto, a mobilidade urbana é uma ferramenta de justiça social.
Não à toa, a inovação do mercado de mototáxis começou a operar a partir das favelas cariocas. A cidade tem o maior tempo médio de deslocamento do país, com 58 minutos por viagem. Além disso, pesquisas apontam que os fatores mais determinantes para a escolha entre os modos de transporte disponíveis são o custo direto e o tempo de percurso - que são as principais vantagens da motocicleta.
Mas como o uso desse serviço é impactado diante da preocupação com os riscos que oferece?
O que observamos na Zona Oeste do Rio de Janeiro
Diante desse contexto, nosso grupo de pesquisa sobre políticas públicas da Pós-Graduação em Ciências Econômicas da Uerj buscou identificar os principais impactos desse tipo de transporte na Zona Oeste do Rio de Janeiro.
Esse estudo se insere nas ciências econômicas ao analisar o mototáxi como uma escolha de mobilidade influenciada por custos, renda e acesso, com a vantagem de usar modelos estatísticos e redes neurais para identificar padrões de comportamento e apoiar decisões de política pública com base em evidências.
Essa pesquisa de campo começou em uma dissertação de mestrado, que está tendo continuidade em um projeto de doutorado. Até o momento, entrevistamos 211 passageiros e 71 mototaxistas nos seguintes bairros periféricos cariocas: Bangu, Gericinó, Padre Miguel, Senador Camará e Vila Kennedy. Os resultados ajudam a entender por que esse serviço se consolidou.
Trabalho e renda
Gráfico mostrando a variacão de idade dos motoristas entrevistados. 44% (em amarelo): de 26 a 33 anos; 23% (vermelho): 19 a 25 anos; 17% (verde): 34 a 41 anos; 13% (azul): 42 a 49 anos; 4% (fúcsia): 50 anos ou mais. Gráfico mostrando a escolaridade dos motoristas entrevistados. 73% (em verde): Ensino médio; 27% (vermelho): Ensino fundamental. Gráfico mostrando a última ocupação com carteira assinada dos motoristas entrevistados. 55% (em verde): setor de serviços; 14% (roxo): segurança e vigilância; 7% (azul-claro): construção civil; 24% (vermelho): outros. Gráfico mostrando a atividade principal dos motoristas entrevistados. 66% (em vermelho): Moto-táxi; 18% (amarelo): afirmaram ter outra profissão (não especificada); 8% (fúcsia): desempregado; 6% (azul-claro): outro trabalho com carteira assinada; 1% (azul escuro): outro trabalho autônomo. Imagens fornecidas pelo autor.Com relação aos trabalhadores, observamos que mototáxi desempenha um papel relevante. Corroboramos que a atividade é exercida majoritariamente por homens jovens de baixa escolaridade e histórico ocupacional em empregos precários. Cerca de dois terços dos entrevistados têm o mototáxi como principal fonte de renda.
A renda média mensal obtida com a atividade foi estimada em 1,36 salários mínimos, valor superior à renda mediana regional. Isso sugere uma relativa satisfação com a ocupação e uma forma potencial de reduzir a vulnerabilidade socioeconômica. Ou seja, o mototáxi é um mecanismo de inserção econômica. É uma alternativa de trabalho e estratégia de inserção ocupacional para jovens pobres diante do desemprego.
Usuários
Entre os passageiros, entrevistamos 143 mulheres e 68 homens que estavam em estações de trem, pontos de ônibus, pontos de mototáxi e em frente a escolas. Dentre esses entrevistados, observamos que o modal é mais usado como complemento ao transporte público entre as mulheres (48%) do que entre os homens (37%).
De forma geral, os resultados apontam que a decisão de utilização do mototáxi depende principalmente da acessibilidade do serviço e da percepção integrada de sua qualidade. E observamos que há uma avaliação amplamente positiva sobre a percepção do serviço pelos usuários. Cerca de 82% manifestaram satisfação geral, principalmente com o custo do serviço. Constatamos também uma relação significativa indicando um uso maior na medida em que a renda da pessoa for menor.
Além disso, foram relatados altos níveis de satisfação com relação à facilidade de acesso ao serviço, à satisfação com o atendimento e, surpreendentemente, também com a segurança.
A maioria dos nossos entrevistados (91%) relatou nunca ter sofrido acidentes. Apenas 8% tiveram apenas um único acidente, o que contribui para uma percepção positiva da segurança no serviço. A satisfação com a segurança, inclusive, apareceu como o fator mais relevante na decisão de utilizar o mototáxi, seguida pela renda, atendimento e acesso.
Nossa pesquisa ainda vai continuar. As próximas etapas incluem o aprofundamento das análises com dados da PNAD Contínua — uma base nacional do IBGE que reúne informações sobre trabalho e renda. Também pretendemos incorporar informações geográficas para mapear melhor a mobilidade nas comunidades. Além disso, pretendemos ampliar as entrevistas com usuários, para uma compreensão mais detalhada do papel do mototáxi no cotidiano urbano.
O risco de ignorar a realidade
A tensão entre percepção individual e evidência sistêmica está no centro do debate atual sobre esse serviço. Afinal, não é possível ignorar as taxas elevadas de acidentes, que sobrecarregam o SUS. Alguns estudos mostram que as principais causas estão relacionadas a longas jornadas de trabalho, excesso de velocidade, condução noturna, uso de substâncias psicoativas para aumentar a capacidade de trabalho.
No entanto, qualquer debate sobre regulamentação precisa considerar também os benefícios concretos para a população. Uma política pública que ignore a função social do mototáxi corre o risco de agravar desigualdades. Se o serviço desaparecer sem substituição adequada, milhões de pessoas podem enfrentar ainda mais dificuldades para acessar trabalho, educação e serviços básicos.
Portanto, acreditamos que as propostas de regulamentação do mototáxi poderiam ser focadas em garantir que os motoristas tenham habilitação em dia, limitar jornadas exaustivas e monitorar os limites de velocidade. É preciso avaliar os impactos e cuidar para integrá-lo de forma segura, eficiente e socialmente justa ao sistema de mobilidade. Ignorar sua presença não é mais uma opção.
A divulgação deste artigo contou com o apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Nível Superior (Capes).
Jorge Luiz José da Cruz recebe financiamento da CAPES.
Lucia Helena Salgado e Silva não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.
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