“As pessoas chegam e falam: ‘nossa, como passa rápido, já vai fazer um ano’. Passa rápido para quem está de fora. Para nós que sofremos essa perda, é difícil. Minha ficha ainda não caiu”, relata, ainda bastante abalada, dona Nilza da Cruz, avó de Karine Lorraine Chagas, uma das vítimas do atirador da escola Tasso da Silveira, em Realengo, zona oeste do Rio de Janeiro.
Repercutir com as mães das vítimas do massacre de Realengo é uma tarefa ingrata com respostas óbvias. “Quando eu vejo aquele barulho de criança chegando da escola, sabe, dá uma sensação de que ela vai aparecer”, completa dona Nilza. A reportagem do Terra participou de um dos encontros (quase que) semanais da Associação de Familiares e Amigos dos Anjos de Realengo, grupo formado para manter viva a memória das vítimas, e, sobretudo, para fazer o trabalho de amparo mútuo.
“Uma chora e a outra consola. Tem sido assim a nossa vida”, afirma Joseana Bispo dos Santos, mãe de Milena dos Santos, morta no fatídico dia 7 de abril de 2011.
“Uma criança que veio ao mundo com seis meses, que brigou pela vida, e aos 13 anos foi embora desta forma bruta. Eu não aceito até hoje. Quem morre de tiro é bandido, minha filha estava onde deveria estar, na sala de aula ”, diz Joseana, com lágrimas nos olhos.
Rotina parecida tem Maria José Silva, mãe de Larissa Silva Martins, também de 13 anos, outra vítima. “Está tudo a mesma coisa. Cada dia que passa parece que a dor aumenta mais. “Não consigo ficar dentro de casa. Quando chega 7h e 12h30 (horários em que ela saía e chegava da escola) é a coisa mais triste do mundo”, lamenta, saudosa de sua “pequenina”, como chamava a filha. “Só Deus sabe, é muito recente para nós conseguirmos suprir a ausência.”
O grupo de pais planeja, além de uma missa de um ano em memória dos adolescentes assassinados, uma carreata para chamar a atenção da mídia para que o caso não caia no esquecimento. O bullying que teria atormentado Wellington Menezes a ponto de ele cometer o genocídio também é tratado como preocupação social. As mães pedem que a população do Rio de Janeiro utilize fitas verdes nas roupas, carros, onde puder colocar. A cor representa alívio para quem viveu um trauma, teria poder calmante. “As pessoas não podem esquecer da nossa dor”, relembra Dona Nilza. Não mesmo.
Duas das vítimas: Karine e Milena . Foto: Reprodução
As mães de realengo
As mães que perderam seus filhos no massacre