Recorde de governadores eleitos no 1º turno cria efeito ambíguo e cenário incerto para disputa entre Flávio Bolsonaro e Lula
Desmobilização das campanhas estaduais pode afetar o comparecimento às urnas no próximo domingo, 25
A definição dos eleitos ou reeleitos na maioria dos governos estaduais no 1º turno das eleições deste ano deve influenciar a disputa presidencial entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Sem uma campanha para governador em andamento em 21 Estados, que concentram cerca de 92% do eleitorado brasileiro, a mobilização dos eleitores diminui e pode contribuir para a elevação dos índices de abstenção, segundo avaliam especialistas consultados pelo Terra.
De acordo com dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mais de 33 milhões de eleitores --21,07% dos eleitores aptos a votar-- não compareceram às urnas no 1º turno. Historicamente, no entanto, a participação dos eleitores tende a diminuir ainda mais na segunda votação. Entre 2002 e 2018, a abstenção aumentou em todos os segundos turnos. Em 2022, houve uma pequena queda, passando de 20,9% para 20,6% --uma variação quase imperceptível de -0,36 ponto percentual.
Fábio Vasconcellos, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e da PUC-Rio, que conduziu um estudo que analisou as disputas presidenciais de 2002 a 2022 em 1º e 2º turno, afirma que definição antecipada nos estados eleva a abstenção nacional em média em 1 ponto percentual, mas pode ter efeitos distintos sobre os candidatos, dependendo das características de cada região do País.
“A abstenção no Nordeste é um problema maior para o Lula porque você tem uma base que majoritariamente vota nele. A cada dez votos, seis são dele. No Sudeste o Flávio é mais bem votado. Se houver abstenção ou desaceleração maior ali, ele pode ser mais prejudicado. Mas, no País como um todo, se você pegar todos os dados e comparar, o efeito [da abstenção] é nulo”, explica Vasconcellos.
No Sudeste, Vasconcelos ressalta que, historicamente, os candidatos à Presidência costumam ampliar sua votação entre o 1º e o 2º turno, mas essa evolução pode ser menor quando as estruturas estaduais deixam de atuar diretamente na campanha.
O cenário chama a atenção porque São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro já definiram seus governadores no primeiro turno. O Espírito Santo é o único estado da região que terá uma nova votação para o Executivo estadual, com Lorenzo Pazolini (Republicanos) e Ricardo Ferraço (MDB).
“Você tem aí um problema de desaceleração do ganho de voto do candidato a presidente aliado do governador eleito no 1º turno quando tem a desmobilização das campanhas", cita Vasconcelos.
O cientista político e professor do Insper, Leandro Consentino, avalia que o fim das campanhas para governador produz efeitos contraditórios sobre a disputa presidencial. De um lado, a interrupção da mobilização estadual pode reduzir o engajamento dos eleitores. De outro, governadores eleitos ou reeleitos no 1º turno ficam mais livres para atuar em favor de seus aliados na corrida pelo Planalto.
“Eu acho que tem um efeito ambíguo, pensando nos candidatos a presidente. Por um lado, acho que há uma desmobilização das campanhas estaduais. Por outro lado, eu acho que também tem um outro efeito, já que uma vez que os governadores já estão com sua vida resolvida, eles podem se dedicar muito mais à campanha dos seus aliados à Presidência”, pondera.
Quais estados terão segundo turno para governador?
Cinco estados e o Distrito Federal terão disputa para governador no segundo turno. Nessas unidades da Federação, as campanhas estaduais continuam em andamento e podem contribuir para a mobilização dos eleitores na eleição presidencial.
Veja quem estão em disputa:
- Espírito Santo: Lorenzo Pazolini (Republicanos) e Ricardo Ferraço (MDB).
- Amazonas: Omar Aziz (PSD) e Professora Maria do Carmo (PL).
- Rio Grande do Norte: Allyson (União Brasil) e Cadu de Lula (PT).
- Acre: Mailza Assis (Progressistas) e Alan Rick (Republicanos).
- Tocantins: Professora Dorinha (União Brasil) e Vicentinho Júnior (PSDB).
- Distrito Federal: Celina Leão (Progressistas) e Leandro Grass (PT).
“É a primeira vez que a gente tem uma competição presidencial tão acirrada e, pela primeira vez, com tão pouco segundo turno nos estaduais. São dois fatos inéditos que a gente vai ter que estudar muito quando saírem os resultados, para ver o que aconteceu”, conclui Vasconcellos.
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