Do algoritmo a urna: como a geração do TikTok está redesenhando a política brasileira
Mais conectados, menos fiéis a partidos, atentos à autenticidade, jovens desafiam campanhas
Entre um vídeo de humor, uma receita e uma trend, um corte de podcast sobre política aparece na rela. Em poucos segundos, um candidato diz uma frase de efeito, um influenciador comenta um projeto de lei, e milhares de internautas compartilham opiniões nos comentários. Para boa parte dos brasileiros de 16 a 24 anos, é nesse fluxo acelerado de conteúdos que a política passou a acontecer.
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Essa geração não deixou de se interessar pelos rumos do país, como muito se fala. Mas mudou a forma como consome informação, constrói suas convicções e escolhe seus representantes. Se antes partidos, programas eleitorais e televisão ocupavam o centro da disputa, hoje o voto jovem também é moldado por algoritmos, criadores de conteúdo e uma busca por identificação e autencidade, segundo as pesquisadoras consultadas pelo Terra.
Os números mostram a força desse eleitorado. Nas eleições gerais de 2018, o Brasil registrava pouco mais de 1,4 milhão de eleitores entre 16 e 17 anos, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Em 2022, essa parcela ultrapassou 2,1 milhões, crescimento de mais de 51%. Já nas eleições municipais de 2024, eram mais de 1,8 milhão de adolescentes aptos a votar -- uma alta de 78%. Somados aos mais de 18 milhões de brasileiros de 18 a 24 anos, eles representam um segmento cada vez mais importante para qualquer campanha.
Juventude diversa
A ideia de que existe um único "voto jovem" é um dos principais erros apontados pelas cientistas políticas ouvidas pela reportagem.
"A primeira característica é que não existe um eleitorado jovem homogêneo. Há diferenças importantes de classe, raça, religião, escolaridade, território e inserção no mercado de trabalho. Ao mesmo tempo, uma das clivagens mais relevantes identificadas pela literatura internacional é a de gênero", afirma Mayra Goulart, professora do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Segundo a pesquisadora, mulheres jovens têm assumido posições mais progressistas em temas ligados à igualdade de gênero, direitos reprodutivos e diversidade, enquanto parte dos homens jovens vem aderindo a discursos conservadores e à direita radical. Para ela, isso está relacionado às transformações nas relações sociais, às mudanças no mercado de trabalho e às inseguranças vividas por essa geração.
Carolina de Paula, doutora em Ciência Política pelo IESP/UERJ e diretora executiva do DataIESP, acrescenta outro elemento decisivo: o contexto histórico vivido por esses jovens.
"O que percemos é que essa atual geração atravessou essa crise institucional que a gente passou. Impeachment, Lava Jato, pandemia, e fica nesse momento de polarização que estamos vivendo. E isso produz um maior deconfiança dos partidos, das figuras mais institucionais e das próprias instituições políticas, e torna esse voto menos fiél às legendas mais tradicionais. Eles são mais ligados a figuras e causas".
Pautas importantes
Emprego e renda permanecem entre as principais preocupações da juventude. A diferença é na forma que os temas são vistos. Para Caroline, segurança pública, saúde mental, custo de vida e pautas identitárias também aparecem entre os assuntos que mais pesam na decisão do voto, especialmente entre mulheres.
Mayra observa que essa geração já não mede suceso apenas pela estabilidade profissional. "Essa geração olha para a trajetória dos seus pais e nem sempre encontra um modelo de vida que gostaria de reproduzir", afirma. Segundo ela, as redes sociais expõem diariamente modelos de trabalho associados à flexibilidade, autonomia e qualidade de vida, o que faz com que passem a questionar o emprego formal como único caminho possível.
Por isso, o debate deixou de ser apenas sobre conseguir um emprego, segundo a pesquisadora.
Os jovens querem saber como irão trabalhar, quanto irão ganhar, quanto tempo terão para viver e quais possibilidade de realização pessoal poderão construir.
A política em poucos segundos
Se a televisão moldou gerações anteriores, TikTok, Instagram Reels, YouTube Shorts e canais de cortes cumprem parte desse papel entre os mais jovens. Carolina explica que essa mudança política alterou profundamente a forma de consumir informação política.
Segundo ela, o formato curto favorece conteúdos rápidos, mas dificulta o aprofundamento dos debates.
"Não dá tempo para explorar o contraditório, para explorar outros argumentos, então esse novo modelo de informação é muito fragmentado".
Mayra alerta para outro efeito. "Os cortes alteram a forma como problemas políticos complexos são processados. Ao condensar debates em poucos segundos, privilegiam interpretações lineares, respostas imediatas e enquadramentos dicotômicos".
Muitos jovens conhecem debates públicos por meio desses recortes, e não pelas entrevistas ou discussões completas.
Autenticidade
Mayra afirma que os jovens passaram a construir suas referências políticas em comunidades digitais e por meio de influenciadores, substituindo parte do papel que antes era desempenhado pelos partidos.
Carolina observa que o principal filtro para conquistar esse público é a autenticidade.
"A questão da autenticidade. Não querer ser enganado. Eles estão muito atentos nesse sentido. A maior parte é nativo digital, então estão acostumados com essa linguagem. [...] Eles têm uma sensibilidade mais fácil para identificar conteúdos que são forçados."
Ao mesmo tempo, a pesquisadora destaca que a comunicação funciona como porta de entrada, mas não substitui questões concretas do cotidiano.
"O que a gente percebe pelas pesquisas é que a identificação muito forte com a autenticidade [...] seja direita ou esquerda, ou com o que ela se identifica. Mas, a questão do desempenho econômico também entra. Emprego, preço dos alimentos, é muito parecido com o resto do eleitorado. [...] A comunicação é a forma de entrada."
Voto desapegado
Entre pesquisadores, ainda não existe consenso sobre a volatilidade do voto jovem. Carolina afirma que alguns temas, como escândalos de corrupção, costumam afetar esse eleitorado de forma mais intensa.
Mayra ressalta que muitos jovens mudam de candidato sem necessariamente abandonar suas convicções.
"As pesquisas indicam que o voto jovem é menos consolidado e mais aberto a mudanças", explica. Segundo ela, isso acontece porque muitos desses eleitores ainda participaram de poucas eleições e não desenvolveram vínculos duradouros com partidos ou lideranças.
Ao mesmo tempo, uma vez construída determinada identidade política, as comunidades digitais podem reforçar continuamente essas crenças, tornando-as bastante resistentes.
Eleições de 2026
Para as duas cientistas políticas, convencer os jovens exige muito mais do que produzir vídeos virais.
Mayra afirma que campanhas precisarão apresentar uma visão de futuro que dialogue com expectativas de autonomia, saúde mental, qualidade de vida e realização pessoal.
Carolina concorda que compreender esse eleitor passa por entender seus códigos de comunicação e sua relação com o ambiente digital, destacando ainda a importância de pequenos influenciadores regionais na próxima disputa eleitoral.
Além disso, Mayra identifica quatro tendências para 2026: o aprofundamento da divisão política entre homens e mulheres jovens, a fragmentação do eleitorado, a centralidade das expectativas sobre o futuro e o fortalecimento das comunidades digitais como espaços de formação política. Mas faz um alerta importante.
"Será importante distinguir mobilização digital de mobilização eleitoral. Curtidas, compartilhamentos e visualizações não se convertem automaticamente em votos. A capacidade de transformar engajamento em comparecimento às urnas continuará sendo um dos fatores decisivos da eleição de 2026".