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Falta de foco no professor é uma lacuna que se carrega gestão após gestão, diz Priscila Cruz

Especialista aponta que programas de transferência de renda e expansão de infraestrutura esbarram na qualidade docente

26 out 2026 - 17h48
(atualizado às 17h51)
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Resumo
Para Priscila Cruz, do Todos Pela Educação, a falta de foco na formação docente é o maior entrave para a educação brasileira, limitando o avanço de programas como o Pé-de-Meia e o ensino integral. Ela defende aprimorar avaliações como a Prova Nacional Docente, fortalecer o pacto federativo sem amarras ideológicas e priorizar o ensino da Matemática e a educação técnica moderna. Para a especialista, melhorias reais dependem de liderança política para enfrentar reformas estruturais e pedagógicas.

A expansão da educação em tempo integral, a ampliação de programas de transferência de renda como o "Pé-de-Meia" e as metas de alfabetização e do ensino da Matemática são pautas cruciais para o futuro do País. Mas todas elas esbarram em um teto intransponível se o Brasil não enfrentar o seu principal problema: a formação do professor.

O alerta é de Priscila Cruz, presidente-executiva do Todos Pela Educação, em entrevista à repórter especial e colunista Renata Cafardo e ao editor Victor Vieira, durante a série de lives "E agora, Lula", promovida pelo Estadão. Para a especialista, a ausência de um foco estruturado na formação inicial e continuada dos docentes é uma lacuna que se arrasta "gestão após gestão" nas esferas federal, estadual e municipal.

Presidente-executiva do Todos Pela Educação, Priscila Cruz participou de live do Estadão sobre os desafios do novo governo.
Presidente-executiva do Todos Pela Educação, Priscila Cruz participou de live do Estadão sobre os desafios do novo governo.
Foto: Felipe Rau/Estadão / Estadão

"Se pudesse fazer um apelo ao novo governo, seria: foque nos professores. É a grande lacuna que a gente vai carregando para melhorar a qualidade da educação gestão após gestão", pontuou Priscila, destacando que todas as outras políticas públicas acabam batendo em um teto de desempenho justamente por causa da qualidade dos docentes e das condições de ensino.

Para isso, a especialista sugere melhorar instrumentos e avaliação como a Prova Nacional Docente (PND), garantindo que ela de fato meça as competências essenciais de um bom professor. Ela também citou a importância da retomada das reuniões periódicas e estruturadas entre o presidente da República, governadores e prefeitos, blindando a pauta educacional de "birutices ideológicas" e focando estritamente na aprendizagem.

Embora iniciativas de incentivo financeiro — como bolsas para atrair estudantes com notas altas no Enem para as licenciaturas (que geraram um aumento de mais de 40% nas matrículas) — sejam bem-vindas, Priscila alerta que o governo federal não pode se transformar em um mero "distribuidor de bolsas", sem garantir a retaguarda pedagógica.

O programa Pé-de-Meia, voltado a combater a evasão no ensino médio, também foi avaliado por Priscila com ressalvas quanto ao seu dimensionamento. Segundo o Todos Pela Educação, a evasão escolar gira em torno de 7%, o que torna questionável a alocação de recursos voltados para 50% dos estudantes sem um direcionamento mais preciso.

Para a especialista, a melhor política contra a evasão continua sendo uma escola interessante, com tempo integral real — que inclua esporte, alimentação e projetos culturais —, e a visão do programa deveria ser a de garantir uma poupança para o jovem iniciar a vida adulta.

No entanto, o financiamento da escola em tempo integral enfrenta sérios obstáculos. Estados e municípios precisam do apoio federal para garantir infraestrutura, contratação de professores e manutenção. Priscila reforça que o governo federal tem o papel fundamental de complementar esses recursos e prestar apoio técnico por meio de um pacto federativo sólido, lembrando que a articulação entre União, Estados e municípios vem sendo enfraquecida.

Apesar dos desafios, a especialista aponta que existem exemplos claros de que a virada é possível quando há vontade política e liderança direta dos chefes do Executivo. Ela cita o caso do Piauí, que avançou expressivamente na aprendizagem de Matemática, na ampliação do ensino integral e na expansão da educação profissional, além do Rio Grande do Sul, que, mesmo enfrentando adversidades, conseguiu subir dez pontos em indicadores educacionais sob a gestão de Eduardo Leite (PSD).

Para replicar esses saltos em âmbito nacional, Priscila defende um foco maior não apenas na alfabetização, mas também no ensino da Matemática. Integrar o raciocínio lógico e corrigir as lacunas de aprendizagem desde os primeiros anos são medidas fundamentais para evitar que as turmas cheguem ao 9º ano com o conhecimento muito defasado.

Priscila defende ainda a necessidade de alinhar os cursos profissionalizantes às economias do futuro (como economia digital, verde, criativa e do cuidado), abandonando estruturas ultrapassadas e aproximando as escolas do modelo dual — combinando teoria e prática diretamente nas empresas, a exemplo da Alemanha e da Suíça.

"Educação não elege, e é com tristeza que eu falo isso", conclui a especialista. "Temos que confiar que aquele político vai querer mexer, porque dá trabalho e exige colocar capital político na mesa."

Estadão
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