Urna mostrada em reportagem sobre adulteração de votos não é utilizada nas eleições do Brasil
TESTE QUE APRESENTOU FALHA NA SEGURANÇA DO EQUIPAMENTO OCORREU EM 2018, NOS ESTADOS UNIDOS
É enganoso o vídeo que associa uma reportagem sobre adulteração de votos nos Estados Unidos ao sistema eleitoral brasileiro. Segundo o TSE, os equipamentos exibidos são da norte-americana Election Systems & Software, que nunca atuou no Brasil. Diferente do modelo dos EUA, as urnas brasileiras possuem arquitetura própria, softwares desenvolvidos exclusivamente pela Justiça Eleitoral e múltiplas camadas de segurança, além de serem plenamente auditáveis por testes públicos e de integridade.
O que estão compartilhando: vídeo com trecho de uma reportagem da RedeTV que mostra como é fácil alterar votos em urnas eletrônicas usadas nos Estados Unidos. Uma legenda sobre as imagens afirma que "Bolsonaro tinha razão, as urnas podem ser fraudadas".
O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é enganoso. A reportagem é de 2019 e trata de insegurança de uma urna eletrônica usada nos Estados Unidos, e não no Brasil.
Conforme o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a empresa Election Systems & Software, citada na reportagem, não atua aqui e nunca forneceu equipamentos para as eleições locais.
O tribunal destacou que, diferentemente de outros países que compram ou alugam urnas eletrônicas prontas, as utilizadas pelo TSE têm arquitetura própria e são construídas seguindo requisitos descritos em mais de 500 páginas de edital. Servidores do órgão participam do projeto eletrônico e da qualificação do equipamento.
Saiba mais: Em 30 anos de uso da urna eletrônica no Brasil, quatro empresas venceram licitações e fizeram a fabricação e montagem dos equipamentos. Nenhuma delas foi a americana Election Systems & Software.
Os modelos mais recentes foram fabricados pela Positivo Tecnologia. Antes dela, Diebold/Diebold Procomp, Unisys Brasil e Procomp Indústria Eletrônica fizeram urnas.
Segundo o TSE, o edital lançado para a produção dos equipamentos detalha requisitos técnicos e de segurança a serem obedecidos pela empresa vencedora da licitação. Além disso, as etapas de fabricação e testes são supervisionadas por servidores e técnicos a serviço da Justiça Eleitoral.
A tecnologia brasileira dispõe de uma rede de proteção com diversas camadas de segurança que inviabilizam tentativas de invasão ou fraude dos sistemas eleitorais. A cada ciclo eleitoral, as equipes de desenvolvimento de software do TSE produzem e desenvolvem todos os programas das eleições, inclusive os que serão inseridos nas urnas.
Urnas brasileiras são auditáveis
A legenda "comprovante impede fraude nas urnas", sobreposta ao vídeo da reportagem, defende a retomada do voto impresso no Brasil, mas é importante observar que os equipamentos usados pelo TSE são auditáveis.
Como explicado pelo Comprova, coalizão de checagem de fatos que o Verifica integra, as principais formas de verificar a segurança do equipamento são o Teste Público de Segurança e o Teste de Integridade.
No teste de segurança, realizado no ano anterior à eleição, especialistas podem identificar falhas ou vulnerabilidades a serem corrigidas.
Já o Teste de Integridade, que ocorre enquanto os brasileiros votam, simula uma votação normal e considera as circunstâncias que podem ocorrer durante o pleito. Ele é acompanhado por empresas de auditoria externa com o objetivo é verificar se o voto depositado é o mesmo que será contabilizado pelo equipamento.
Também no dia da eleição, é feita a emissão da zerésima em todas as seções do País. O documento comprova não haver nenhum voto na urna antes da votação. Ao final do dia, é feita a impressão do Boletim de Urna (BU), relatório impresso que contém a apuração dos votos armazenados no equipamento e que pode ser consultado por qualquer pessoa.
A legenda "Bolsonaro tinha razão", também acrescentada na publicação checada, refere-se aos diversos ataques falsos ou enganosos que o ex-presidente Jair Bolsonaro fez às urnas eletrônicas utilizadas no Brasil ao longo de seu mandato. Essa postura, inclusive, foi um dos motivos que levaram à condenação dele por tentativa de golpe de estado.
Empresa Smartmatic não tem acesso a programa das urnas; software é desenvolvido e gerido pela Justiça Eleitoral
Urnas eletrônicas dos Estados Unidos não são as mesmas usadas no Brasil
E sobre o que é a reportagem no post?
Boatos que usam a reportagem da RedeTV para defender uma suposta fragilidade das urnas brasileiras já circularam anteriormente no Brasil, tendo sido desmentidos pelo Verifica em 2022.
A reportagem afirma que o principal fabricante de urnas eletrônicas dos Estados Unidos, a Election Systems & Software, anunciou ter mudado de opinião sobre a segurança eleitoral e pediu que o governo tornasse obrigatório que as máquinas emitissem comprovante de voto em papel.
A companhia defendeu que os comprovantes de papel evitam erros e adulterações por hackers.
A mesma reportagem mostra, em seguida, que o professor de ciência da computação e engenharia da Universidade de Michigan, J. Alex Halderman, mostrou ser fácil alterar o resultado de uma eleição.
Isso ocorreu em 13 de setembro de 2018, durante a EmTech, a principal conferência global sobre tecnologias emergentes organizada desde 1999 pela MIT Technology Review, uma publicação do Instituto de Tecnologia de Massachusetts.
Conforme a própria revista, o professor levou ao palco uma máquina e pediu a três voluntários que a usassem para votar em uma eleição simulada. Os três escolheram o mesmo candidato, mas quando os resultados foram impressos registravam uma vitória de dois a um para o outro candidato.
O professor explicou que isso ocorreu após ele infectar um cartão de memória com um software malicioso para roubo de votos. Esse cartão foi utilizado para programar os candidatos na máquina. Esse método era o mesmo utilizado para programar as urnas do país naquele momento. Conforme ele, aquele modelo de máquina era utilizado em 18 estados americanos.
No ano anterior, como divulgado pelo Tecmundo, hackers também conseguiram burlar diferentes urnas eletrônicas do sistema eleitoral dos Estados Unidos durante a conferência Def Con, em Las Vegas. Uma delas era do mesmo modelo testado posteriormente por Halderman.
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