Mulas do tráfico: Brasil registra 10 prisões a cada 9 dias de pessoas transportando drogas no corpo ou em malas
Aeroportos do Brasil registraram mais de 3 mil prisões por tráfico em quatro anos; maioria dos detidos é brasileira
Nos últimos quatro anos, 3.023 pessoas foram presas transportando drogas no corpo ou em malas nos aeroportos do Brasil. Em Guarulhos (SP), cidade que abriga o maior aeroporto da América Latina, a recorrência desses casos levou a Polícia Federal a montar uma ‘cela’ improvisada dentro de um hospital para acompanhar pessoas detidas com drogas no organismo --realidade que transformou o Hospital Geral de Guarulhos (HGG) em referência nesse tipo de atendimento.
Cirurgião geral e diretor do HGG, Afonso Cesar Cabral Guedes Machado trabalha há 12 anos nessa frente e afirma que, apesar de muitos casos envolverem baixa complexidade médica, o risco segue elevado. “Olha, não nos compete julgar as ações das pessoas, mas eu acredito que a grande maioria nem saiba o risco que está ocorrendo. O risco de uma das cápsulas estourar e eles morrerem é grande. Mas acho que a oferta de uma remuneração rápida e boa talvez seja o que atrai tanto esse perfil de pessoas, mas certamente eles não imaginam o risco de morte que correm".
Levantamento exclusivo realizado pela reportagem do Terra, com base em dados da Polícia Federal, mostra que, embora 2025 tenha registrado queda nas detenções de ‘mulas do tráfico’, o cenário segue expressivo. De acordo com o levantamento, pode-se considerar que houve 10 casos a cada 9 dias.
Foram analisadas ocorrências de âmbito nacional, considerando os 12 meses de cada ano e recortes de gênero e nacionalidade. Em 2022, houve 600 prisões. Em 2023, a quantia passou para 769, até chegar ao pico de 2024, com 965 registros. Em 2025, pela primeira vez em quatro anos, o número apresentou recuo, batendo 689 casos.
Embora os números de ‘mulas do tráfico’ presas no Brasil tenham apresentado queda em 2025, quando se usa a régua do gênero nos dados, nota-se que a onda de casos dificultou a predominância isolada de homens ou mulheres, gerando uma sazonalidade equiparatória.
Mulheres foram maioria em 2022 (301) e em 2024 (495), ano do pico de detenções. Já os homens lideraram em 2023 (403) e em 2025 (349).
A grande disparidade encontrada nos dados aparece no recorte de nacionalidade das ‘mulas do tráfico’. Segundo a PF, 69% dos casos registrados entre 2022 e 2025 são de brasileiros, representados por 1.050 ocorrências. Em contrapartida, estrangeiros representam 31%, com 471 casos.
‘Mesmo em queda, cenário continua crítico’
Ainda que em queda no último ano, a recorrência de casos de ‘mulas do tráfico’ segue sendo preocupação para o Estado e para as autoridades. Em Guarulhos, a Polícia Federal montou uma 'cela' improvisada dentro do Hospital Geral de Guarulhos para lidar com pessoas detidas no aeroporto com drogas no corpo.
O HGG, por causa da proximidade com o aeroporto de Guarulhos, tornou-se referência para esse tipo de ocorrência, o que lhe rendeu a alcunha de ‘Hospital das Mulas’.
Usado por populares, o apelido pode soar exagerado, mas reflete uma realidade específica da unidade, que com alguma frequência precisa lidar com casos desse tipo. O espaço, que facilmente se assemelha a uma cela, fica no meio da unidade e contempla estrutura adaptada, incluindo privada com sistema de descarga modificado. O aparato permite que a pessoa evacue as cápsulas, mas não as descarte.
Segundo Machado, toda a estrutura foi criada para acomodar os agentes da Polícia Federal, que acompanham o processo de internação, e também para evitar incômodos aos demais pacientes que procuram atendimento na unidade.
Para o diretor do HGG, boa parte do trabalho costuma ser tranquila por envolver baixa complexidade. Ainda assim, após 12 anos convivendo com a presença das autoridades e com as ‘mulas do tráfico’, algumas situações seguem difíceis de assimilar.
“Acredito que a grande maioria nem saiba o risco que está ocorrendo. O risco de uma das cápsulas estourar e eles morrerem é grande. Mas acho que a oferta de uma remuneração rápida e boa talvez seja o que atrai, mas certamente eles não imaginam o risco de morte que correm" -- Afonso Cesar Cabral Guedes Machado, Cirurgião geral e diretor do HGG
Cifra oculta da criminalidade
Embora o país tenha registrado mais de 3 mil pessoas presas por tráfico nos aeroportos brasileiros nos últimos anos, o doutor em ciências sociais e professor de Direitos Humanos e Políticas Públicas da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), Cezar Bueno de Lima, aponta que todos os crimes convivem com subnotificações --quando não há registro oficial para as autoridades.
“A gente chama de cifra oculta da criminalidade. Simplificando aqui, didaticamente a cada mil crimes que acontecem no Brasil menos de 3% chegam ao Poder Judiciário e isso se aplica também no caso do tráfico de drogas. Ou seja, 97% não são comunicado”, aponta.
Segundo o pesquisador, essa questão atrapalha a repressão do Estado contra a criminalidade, tornando-a mais simbólica do que efetiva, já que não há registros de todos os crimes que ocorrem no País.
Crime como opção
Questionado sobre o que leva pessoas a aceitarem uma atividade que pode colocar a própria vida em risco, Lima relaciona o fenômeno à estrutura por trás dos delitos. Segundo ele, sociologicamente há uma 'explosão' do crime como opção de emprego, sobretudo em um país socioeconomicamente desigual.
“Existe uma oportunidade. Nós temos aí 64 facções no Brasil hoje, aproximadamente, e você tem que ver como empresa empreendimento, o que a gente chama de indústria de cultura de crime. É uma indústria que opera na ilegalidade, mas ela pode fazer a limpeza, a lavagem de dinheiro na legalidade. Ela tem dono, tem hierarquia, divisão de trabalhos, contratos informais que prometem aos seus trabalhadores um retorno semanal ou retorno mensal”, descreve Cezar Bueno de Lima.
Para o professor, a pouca perspectiva de viver bem e com qualidade pode levar parte da população ao crime como alternativa de ascensão social. Além disso, ele aponta uma redefinição do próprio conceito de trabalho.
"Eu quero ganhar mais. Eu vou correr risco, mas esse risco está atrelado à perspectiva de você ganhar muito mais do que chegar no final do mês e receber um salário mínimo” -- professor Cezar Bueno de Lima
“Ou seja, muitas pessoas não querem trabalhar legalmente porque, de fato, o salário que ela recebe não vai conseguir, digamos assim, fazer com que ela sonhem de uma perspectiva de adquirir bens materiais socialmente e culturalmente valorizados na sociedade. Então, tem uma opção", explica o estudioso
A ressocialização como caminho
A pena para tráfico internacional de drogas no Brasil varia de 5 a 15 anos de reclusão. As condenações também levam em consideração fatores como ser réu primário, mãe e outras circunstâncias.
Leonardo Precioso, empresário e ex-detento, lidera a Recomeçar 360, instituição que apoia pessoas egressas do sistema penitenciário. Cotidianamente, ele busca criar oportunidades para reduzir a reincidência no crime, oferecendo cursos, ajuda para retorno ao mercado de trabalho e outras iniciativas.
Após anos trabalhando com pessoas que cometeram diversos crimes, ele reconhece que, mesmo depois de pagar a dívida com a sociedade, retomar a vida pode ser difícil.
“No começo as empresas tem um pouco de resistência, mas depois entendem que o sistema tem suas insuficiências e que nós atuamos capacitando, preparando, atendendo… justamente para que as pessoas tenham as condições básicas de recomeçar, de entrar no mercado".