Script = https://s1.trrsf.com/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE
Publicidade

Apelos por negociação: a Ucrânia está se cansando da guerra?

10 out 2026 - 16h17
Compartilhar
Exibir comentários
Resumo
Apelos recentes de políticos ucranianos por negociações com a Rússia reacenderam o debate sobre a fadiga da guerra, mas foram rebatidos pelo presidente Zelenski, que rejeita capitular. Analistas veem as falas como estratégias eleitorais ou testes da opinião pública. Embora pesquisas apontem que 75% da população apoia conversas de paz e tolere um cessar-fogo nas linhas atuais, a maioria recusa a entrega de territórios, mantém o apoio à resistência e rejeita as exigências maximalistas de Moscou.

Declarações de alguns políticos favoráveis a diálogos com a Rússia reacendem debate sobre fadiga de guerra. Pesquisa, porém, mostra resistência dos ucranianos a concessões exigidas por Moscou.Três conhecidos políticos ucranianos defenderam recentemente o fim da guerra por meio de negociações com a Rússia. Embora a maioria da população apoie conversas de paz, os ucranianos rejeitam amplamente qualquer acordo que envolva a entrega de territórios a Moscou. Para especialistas, até mesmo um cessar-fogo baseado nas atuais linhas de frente já constituiria uma concessão importante por parte de Kiev. Após mais de quatro anos e meio a Ucrânia estaria dando sinais de que está cansada da guerra?

A cidade de Zaporíjia foi atingida por bombas aéreas russas na madrugada de 10 de outubro, após ataques lançados durante a noite anterior
A cidade de Zaporíjia foi atingida por bombas aéreas russas na madrugada de 10 de outubro, após ataques lançados durante a noite anterior
Foto: DW / Deutsche Welle

Um dos políticos que defende o fim do conlito é o deputado Oleksij Hontcharenko, do partido Solidariedade Europeia. "A realidade hoje é a seguinte: estamos perdendo a guerra. Estamos perdendo inúmeras vidas. Não temos recursos suficientes não apenas para financiar a guerra, mas sequer para manter o país funcionando", escreveu nas redes sociais.

Hontcharenko propõe negociar com Moscou temas como a neutralidade da Ucrânia e a renúncia à adesão à Otan, a suspensão de sanções, o status da língua russa e da Igreja Ortodoxa Russa no país, além da situação da região de Donbass. "Morrer com todo o país em nome da entrada na Otan, na minha opinião, é um absurdo", afirmou.

Outro defensor das negociações é Danylo Hetmantsev, integrante do partido governista Servo do Povo e presidente do Comitê de Finanças, Política Tributária e Aduaneira do Parlamento ucraniano. Em publicação nas redes sociais, ele escreveu que "a prioridade máxima deve ser o avanço das negociações e da paz" e sugeriu que os termos de um eventual acordo fossem submetidos a referendo popular.

Já o prefeito de Kharkiv, Ihor Terekhov, criticou a ideia de que a guerra não tenha alternativa, embora tenha ressaltado que qualquer paz precisaria se basear na capacidade de defesa da Ucrânia e em garantias concretas de seus aliados.

O que dizem Zelenski e a oposição?

A reação do presidente ucraniano, Volodimir Zelenski, foi imediata. O chefe de Estado lembrou aos parlamentares que eles têm responsabilidade pela unidade interna do país e alertou contra a disseminação de pânico.

"Por mais difícil que seja para nós, não podemos nos curvar a Putin e à Rússia, porque isso destruiria a Ucrânia", declarou.

O partido oposicionista Solidariedade Europeia expulsou rapidamente Hontcharenko de sua bancada parlamentar. Em comunicado, a legenda afirmou que as posições do deputado sobre o fim da guerra e a futura arquitetura de segurança da Ucrânia "divergem da posição da Solidariedade Europeia e de seus princípios ideológicos". Entre os valores considerados inegociáveis pelo partido estão a manutenção de um Exército forte, o ucraniano como língua oficial, uma Igreja Ortodoxa Ucraniana independente, além da integração à União Europeia e à Otan.

"Balões de ensaio" para futuras eleições?

Para o cientista político Oleksij Haran, da Universidade Nacional da Academia de Kiev-Mohyla, o momento escolhido para os apelos à paz não é coincidência.

"Um inverno difícil está por vir, a população está exausta e todos falam de negociações, incluindo representantes ucranianos e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump", disse à DW.

Segundo Haran, alguns políticos já estariam posicionando-se de olho em futuras eleições. Ele também não descarta que as declarações funcionem como "balões de ensaio" para medir a reação da sociedade.

Ihor Tchalenko, analista do Centro Ucraniano de Análise e Estratégias, avalia as manifestações à luz de possíveis negociações em Abu Dhabi. Segundo ele, o encontro técnico tripartite previsto discutiria cessares-fogo setoriais e a retomada do plano de paz de Trump.

Tchalenko afirma que alguns dos políticos envolvidos mantêm bons contatos com a equipe do presidente americano, interessado em obter resultados rápidos antes das eleições legislativas dos EUA, marcadas para 3 de novembro.

"Todo esse movimento tem como objetivo principal organizar uma reunião desse tipo e tentar atrair a Rússia para negociações", afirma. Ao mesmo tempo, as declarações serviriam para testar até que ponto a opinião pública está disposta a aceitar concessões.

O que pensam os ucranianos

Uma pesquisa do Instituto Internacional de Sociologia de Kiev (KIIS), realizada em meados de setembro, mostra que 75% dos ucranianos apoiam negociações com a Rússia para encerrar a guerra, enquanto 21% se opõem.

O instituto ressalta, porém, que a pergunta se referia apenas à disposição para negociar, e não à aceitação de concessões.

Segundo o levantamento:

69% apoiariam um cessar-fogo imediato ao longo da atual linha de frente, desde que os territórios ocupados não fossem reconhecidos como russos, o Exército continuasse sendo fortalecido e a aproximação com a UE e a Otan permanecesse em pauta;

62% afirmam estar dispostos a suportar a guerra pelo tempo que for necessário. Em Kiev, esse índice chega a 72%;

79% acreditam na vitória da Ucrânia, embora a parcela dos que têm convicção absoluta disso tenha caído de 60% para 47% desde o fim de julho.

Para Anton Hrushetskyi, do KIIS, as declarações de alguns políticos não refletem a posição da maioria da população.

"Há uma parcela da sociedade disposta a aceitar uma capitulação, mas ela é minoritária", afirma.

Segundo ele, cerca de um ano atrás, aproximadamente 20% dos entrevistados apoiavam um plano de paz russo que previa a retirada das tropas ucranianas de Donbass e a desmilitarização do país. Ainda assim, enfatiza, a maioria dos ucranianos permanece aberta apenas a compromissos difíceis, não à rendição.

A Rússia realmente quer negociar?

Recentemente, o presidente russo, Vladimir Putin, classificou como "sem sentido" propostas de suspensão mútua de ataques contra instalações energéticas e embarcações civis.

Para Tchalenko, a falta de disposição de Moscou para negociações é um fato fundamental.

Ele rejeita a ideia de uma divisão clara entre um "partido da guerra" e um "partido da paz" na sociedade ucraniana.

"Não existe um grupo expressivo que defenda uma guerra eterna. A posição da Ucrânia já se restringe à atual linha de contato e à obtenção de garantias de segurança, o que por si só representa uma concessão. Não pode haver concessões maiores do que essa", afirma.

Haran concorda que a posição atual da Ucrânia já representa um amargo compromisso.

"Hoje estamos falando em congelar o conflito. Isso já é uma concessão colossal", diz.

Segundo ele, a maioria dos ucranianos poderia aceitar esse cenário, mas não apoiaria uma retirada de Donbass nem o reconhecimento dos territórios ocupados como parte da Rússia.

"O problema não são as negociações nem os compromissos. O problema é que Putin quer nos levar a um inverno difícil para que cedamos. O que Hontcharenko e outros dizem agora apenas encoraja Putin", alerta.

O cansaço pode vencer a resistência?

Segundo Tchalenko, Moscou aposta em ataques maciços contra o setor energético ucraniano, centros de dados, armazéns, pontes em Kiev e a indústria metalúrgica do país.

O objetivo seria fortalecer o grupo da população que deseja o fim da guerra a qualquer custo.

"Assim que a resistência da sociedade diminuir, a Rússia tentará exigir concessões ainda maiores das autoridades ucranianas", afirma.

Já Hrushetskyi destaca que o humor real da população nas ruas difere cada vez mais do que aparece nas redes sociais, onde a presença de robôs e a exploração de emoções são frequentes.

"O cidadão comum é muito mais equilibrado, mesmo em questões difíceis. Os compromissos que os ucranianos aceitam não podem ser concessões unilaterais nem equivaler à capitulação do país. Os ucranianos continuam dispostos a lutar por uma paz verdadeira", conclui.

---------

Não deixe que o algoritmo esconda as notícias. Se você valoriza o trabalho da nossa equipe para uma cobertura jornalística confiável, reserve um momento para nos selecionar como sua fonte preferida no Google clicando aqui. Marque o link da DW quando ele aparecer na lista para sempre ver nossas notícias verificadas primeiro.

Deutsche Welle A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
Compartilhar
TAGS

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.

Publicidade
Meu Terra