Pedro França: "Meu corpo é político e vou colocá-lo em qualquer lugar que ele queira estar"
Multiartista vem revolucionando o retrato de pessoas LGBTQIA+ e com deficiência no audiovisual
Em poucos minutos de conversa com Pedro Henrique França você já se pega imaginando o quão frenéticas foram as gravações do documentário "Corpolítica", dirigido por ele. Afinal, tanto o diretor quanto uma das protagonistas, a hoje deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP), falam de forma rápida e potente, em um encadeamento de ideias que justificam o reconhecimento – tanto da parlamentar quanto de Pedro.
Aos 38 anos, morando no Rio de Janeiro, cidade pela qual é apaixonado desde a infância e onde decidiu viver após a primeira visita, Pedro é uma das figuras mais proeminentes na cultura nacional. Formado em jornalismo, profissão que exerceu por anos, é também diretor, roteirista, ator, DJ, ou seja, um multiartista.
Meu corpo é político e é exatamente por isso que vou colocá-lo em qualquer lugar que ele queira estar. Um corpo deficiente tem uma invisibilidade enorme, então me coloco disponível enquanto um ativista sempre que posso.
Essa ideia de corpo político, inclusive, é o fio condutor do documentário produzido pelo ator Marco Pigossi e lançado no circuito comercial em junho de 2023. No longa, estão relatos de Monica Benicio, Jean Wyllys, Fernando Holiday, Thammy Miranda e Erica Malunguinho, além de Hilton, já citada.
Premiado como melhor documentário no Queer Lisboa 2022 e melhor roteiro no Festival Internacional de Cinema de Brasília também em 2022, entre outras premiações, "Corpolítica" abriu portas para outros projetos como o videocast PCDPOD ao lado de Benedita Casé Zerbini, que encerrou sua primeira temporada na última semana.
"O PCDPOD é motivo de muito orgulho, mas também uma denúncia. Com centenas de videocasts disponíveis, nós sermos o primeiro diz muito", provoca Pedro, destacando que busca agora patrocínio para uma nova temporada.
Em comum, os projetos buscam oferecer novas perspectivas para as narrativas das pessoas com os chamados "corpos dissidentes", algo infelizmente raro na produção cultural atual do país.
"Precisamos de redesenhos possíveis. Por exemplo, a Juliana Caldas, na novela 'O Outro Lado do Paraíso', foi a primeira atriz com nanismo em uma novela. Ela contracenava com Marieta Severo, mas a personagem vivia sendo rejeitada pela mãe, a melhor amiga era uma funcionária da casa e vivia correndo atrás de um 'boy' tipo príncipe encantado. Sabe, ainda que trouxesse o drama dessa realidade, existe um lugar solar que pode conduzir essa narrativa", desabafa Pedro.
O diretor ressalta também o problema do cripface, prática de trazer pessoas sem deficiência para interpretar alguém com deficiência. "Não tem nem dois anos que a Netflix gastou milhões em efeitos especiais para o Leandro Hassum fazer uma pessoa com nanismo e entregar um produto podre, muito ruim, é inadmissível".
"Sinto que não tem espaço na dramaturgia para pessoas com deficiência. Os roteiristas não dão conta dos nossos corpos, não se lembram e, quando lembram, é de uma forma muito capacitista. E por isso as cotas precisam existir, porque o audiovisual não vai ceder", sinaliza ele, exemplificando com os editais públicos recentes que passaram a exigir acessibilidade na sua composição. "Nunca fui tão procurado quanto esse ano e estamos falando de pessoas, em tese, muito progressistas", reflete.
E é essa dificuldade de encontrar boas histórias que fez com que Pedro tivesse um hiato de décadas na carreira de ator. Seu primeiro papel, ainda criança, foi como protagonista da peça "Tistu - O Menino do Polegar Verde", em 1997, e seu retorno foi em "Pá de Cal", de Jô Bilac, em 2021.
"Logo depois do Tistu, fui na festa de um colega e um produtor disse que eu tinha jeito de artista e deu o cartão. Achei que era um caça-talentos, mas ele era do 'Domingo Legal'. Na hora desistimos de ligar porque ou ia ser um dramalhão sensacionalista ou o lugar pejorativo da chacota, de um suposto humor".
Esse lugar de "humor", assim, entre aspas mesmo, é inclusive o que baseia o novo trabalho de Pedro, um documentário sobre humor e capacitismo. "Temos que falar sobre esse tipo de humor feito por nomes como Léo Lins e Rodrigo Marques, esse humor datado, vencido, pavoroso, e sobre quem está lá dando dinheiro e rindo desse humor, das plataformas mundiais que exibem as apresentações", aponta.
Uma das estratégias que Pedro entende como possível é "hackear" as narrativas vigentes. "Promover narrativas das dores da violência só interessa para quem tem algum fetiche. Claro que tem que lembrar que teve escravidão, que existe capacitismo, mas existem outras formas de falar. A gente sai de casa para ver tantas histórias irreais e absurdas e aceita essas histórias, lotamos cinemas para ver coisas impossíveis. Por que não podemos reescrever algo como gostaria que tivesse sido e aceitar uma realeza negra como fez brilhantemente 'Bridgerton'?" questiona, referindo-se à série produzida pela estadunidense Shonda Rhimes.
As pessoas não se dão conta e não entendem a importância da narrativa no audiovisual como um agente transformador. Eu posso ficar quatro horas dando uma palestra, explicando as coisas e as pessoas podem não sentir nada, mas, às vezes, em uma hora e meia de filme ela vai entender tudo.
E completa: "As narrativas precisam urgentemente colocar nossos corpos onde eles colocam pessoas brancas sem deficiência. Por que o mocinho e a mocinha têm que ser dois jovens brancos? A gente quer casar, ser bem sucedido. A gente tem que mostrar que é possível naturalizar os espaços de desejo, de família, de afeto".
E para Pedro não basta que isso se dê em obras autorais e independentes. "Tudo é política: os afetos, as existências. Então, quando eu vejo o 'Minha Mãe é Uma Peça', onde se discute a relação de uma mãe com um filho gay para um público gigante, acho importantíssimo. Mais até do que filmes cults que são considerados 'obras maiores' do que os filmes do Paulo Gustavo, mas foram vistos por cinco mil pessoas e premiados em 12 festivais", finaliza. Ele cita ainda a série "Encantado's" e a telenovela "Vai na Fé" como exemplos de representações políticas de grande impacto.
Entendimento e não pertencimento
A referência a Paulo Gustavo não é à toa. Assim como o humorista, Pedro é um homem gay e conta que tanto a percepção de ser PcD quanto LGBTQIA+ se deu desde cedo.
"Me entendo como uma pessoa com nanismo desde que me entendo por gente, porque um corpo com nanismo está em um campo muito consolidado, desse humor horrível, do lugar pejorativo. Meu corpo é apontado, frequentemente", explica contando que, no dia anterior à entrevista, uma pessoa na rua perguntou alto ao seu lado onde "estavam os outros seis anões", em uma referência desagradável ao conto de fadas.
Porém, a sua percepção política mesmo só se iniciou em 2016, quando a revista Vogue fez uma campanha com a atriz Cleo Pires e o ator Paulo Vilhena como pessoas amputadas para promover a Paralimpíadas do Rio de Janeiro. "O mote era 'Somos Todos Paralímpicos' e aquilo me deixou revoltado. Fiz um texto no Facebook, era época de textão e aí começou. Fui chamado para ir no 'Papo de Segunda' e comecei essa atuação maior", relembra.
Ser a única pessoa com nanismo na sua família, nas escolas onde estudou e no condomínio onde viveu fez com que Pedro tentasse por muito tempo se encaixar em um padrão, como se não tivesse uma deficiência. O ensino em uma escola religiosa também não ajudou no campo da sexualidade.
"Sempre digo para todo mundo: 'Não coloque seus filhos em escolas religiosas, religião se escolhe não se aprende'. Muito do que ouvi do pastor me fez demorar a me entender enquanto uma pessoa gay. Trabalho isso em terapia hoje, mas é muito cruel quando uma pessoa é proibida de viver seus afetos, que tenha o despertar do desejo, a percepção do corpo negada", aponta. Pedro completa citando o filme belga "Close", do diretor Lukas Dhont que conta a história de Leo e Rémi, duas crianças de 13 anos que vivenciam essa proibição dos afetos e descobertas.
Mas quem acha que, por fazer parte de uma comunidade que sofre discriminação, ele minimizou o preconceito está enganado. "A comunidade gay é muito capacistista, gordofóbica, racista, misógina. A comunidade gay é muito equivocada. Eu não frequento festas de gays padronizadas porque elas não me dizem nada, não me agregam e também não despertam nenhum tipo de desejo. E acho importante falarmos sobre isso porque quando se pensa em uma comunidade identitária sempre encontraremos questões problemáticas e eu, enquanto uma pessoa branca, cis e com algum privilégio social, trabalho todo dia para compreender as outras dissidências", desabafa.
Porém, existe espaço para esperança: "Hoje vejo adolescentes trans que contam com o apoio da escola, dos pais, isso era impensável para minha geração. Fico muito emocionado, assim como essas narrativas de afetos entre jovens LGBTQIA+, como 'Sex Education' e 'Young Royals'", finaliza.
E é no combinado desse suspiro de positividade, extenso repertório, pensamento afiado e fala rápida que Pedro ainda tem e terá muito a dizer, seja na segunda temporada do videocast PCDPOD, no novo documentário e na "Representa", produtora de audiovisual e eventos com foco em diversidade fundada por ele, em 2019, e que vem trazendo, como ele gosta de dizer, "redesenhos possíveis".