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Prisão de Daniel Alves choca mais do que acusação de estupro

Por que a detenção de um homem suspeito de violência sexual é mais surpreendente do que o crime em si?

23 jan 2023 - 04h00
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*Aviso: este texto pode conter gatilhos

É comum vermos nomes de jogadores famosos em casos de estupro e violência sexual. De tempos em tempos, é a vez de algum atleta estampar as manchetes dos jornais com escândalos envolvendo, em sua maioria, mulheres jovens. Parece quase um “modus operandi” do universo futebolístico. O cenário, uma boate ou festa particular. A vítima, uma mulher na faixa dos 20 e poucos anos - isso quando ela não é menor de idade. 

O caso de Daniel Alves parece ir, mais uma vez, de encontro com o “sistema” de agressões perpetuadas no mundo da bola. No entanto, o que tem chocado a maioria das pessoas é o fato de o suposto agressor estar preso. 

Mas por que a prisão de um homem suspeito de estupro é mais surpreedente do que o crime em si? A resposta não tem mistério: atos de violência, quando praticados repetidas vezes, passam a ser normalizados.

O jogador Daniel Alves está preso na Espanha desde sexta-feira, 20
O jogador Daniel Alves está preso na Espanha desde sexta-feira, 20
Foto: Reprodução/Instagram

Os indícios de que realmente houve agressão sexual são muito fortes contra o lateral-direito. A denúncia aconteceu de forma rápida, após a vítima ter saído de uma boate, em Barcelona, e ser submetida a exames em um hospital da região. 

Além disso, existem imagens de câmeras de segurança mostrando que o jogador ficou 15 minutos trancado no banheiro com a vítima. Para completar o panorama, ele contou três versões diferentes, à polícia espanhola, sobre o que teria acontecido em 30 de dezembro de 2022, noite do suposto crime. 

Um outro ponto que agrava ainda mais a situação do lateral é o fato de que a mulher não quer qualquer tipo de indenização financeira. Ela só quer justiça pelo que alega ter acontecido.

Mesmo com todas as evidências contra Daniel Alves, muitos homens saíram em sua defesa nas redes sociais. Os comentários são variados, e vão desde “maria chuteira” e “mulher fácil” até comparações com o caso de Najila Trindade, que teve sua denúncia de agressão sexual contra Neymar arquivada por falta de provas.

Chega a ser curioso como, no meio do futebol, fica ainda mais claro o descrédito da palavra feminina. Basta olhar para a lista com nomes de peso, como Robinho, Mendy, Cristiano Ronaldo, Cuca, entre outros, que seguem vivendo suas vidas tranquilamente após terem condenações ou processos de crimes sexuais contra eles

Diante de tudo isso, o medo é um sentimento natural para nós, mulheres, tanto da violência quanto do julgamento. Muitas vezes, acusar seu violador não é uma opção para a vítima. Para uma parcela das pessoas, se nós queremos estar seguras, não podemos “nos colocar” em situações de risco. 

Ou seja, se for mulher, evite sair de casa com um vestido curto, ir a uma festa ou até mesmo dançar com outros homens em uma balada. Se for um homem rico ou muito influente, evite ainda mais, porque vão pensar que você está tentando tirar algum dinheiro dele. 

Neste contexto histórico de opressão, ver a prisão de Daniel Alves realmente surpreende. E ainda que a investigação não esteja concluída, há evidências suficientes que mostram que o jogador possa mesmo ter cometido um crime hediondo.

Afinal, no fim das contas, o que tem que chocar a sociedade é a violência, pois não há prisão no mundo que possa reparar os traumas de uma vítima de estupro.

Se você sofreu ou conhece alguém que sofreu abuso e violência sexual, denuncie através do canal de denúncia da Mulher, Família e dos Direitos Humanos (disque 100) ou da Central de Atendimento à Mulher em Situação de Violência (disque 180).

Papo de Mina
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