Atualizado às 10h44
Um bilhete encontrado no bolso do primeiro corpo resgatado do submarino nuclear russo Kursk - que explodiu e afundou, no mar de Barents em agosto - testemunha que pelo menos 23 homens sobreviveram à explosão que matou a maior parte dos 118 tripulantes. A nota, escrita no mínimo duas horas depois do acidente, foi lida esta quinta-feira pelo almirante Vladimir Kuroyedov às viúvas dos marinheiros do Kursk, na base naval de Vidiayevo."13h15. Todo o pessoal dos compartimentos 6, 7 e 8 passou para o 9. Somos 23. Tomamos esta decisão por causa do acidente. Ninguém pode subir", afirma o bilhete encontrado no corpo do oficial Dmitri Kolesnikov, sem precisar se o "subir" era para a superfície ou simplesmente para um nível superior do submarino. Em seguida, com uma letra pouco legível, estão assinaladas as cifras "13, 5" e a menção "escrevo por tato", dando a entender que os marinheiros estavam na mais completa escuridão.
Esse é o primeiro sinal de que houve sobreviventes no submarino, mas o bilhete não continha dados sobre a causa da explosão. Durante os primeiros dias que se seguiram à catástrofe, foram ouvidos ruídos que faziam pensar que os tripulantes tentavam comunicar em código morse batendo contra as paredes do navio. Esta interpretação foi rejeiada depois pelas autoridades russas. Depois que o Kursk afundou, uma equipe russa tentou abrir a escotilha de segurança mas não conseguiu. Uma semana depois da tragédia, mergulhadores noruegueses conseguiram abrir a escotilha, mas não encontraram sobreviventes.
O chefe da Frota Norte de submarinos russos, Mikhail Motsak, disse que o bilhete foi escrito entre as 13h34 e as 15h15 de 12 de agosto, dia do desastre. Embarcações estrangeiras e russas que estavam na região no momento do acidente registraram duas grandes explosões por volta das 11h30 desse dia. "Também dizia que duas ou três pessoas tentaram sair do submarino pela escotilha de emergência". Motsak disse ainda que a abertura da escotilha deve ter sido impedida pela água que entrava no compartimento. O restante do bilhete era de caráter pessoal.
Os navios russos da plaforma norueguesa "Regalia" trouxeram ontem para a superfície quatro cadáveres. Na manhã de hoje, os corpos se encontravam ainda na plataforma, já que o tempo não permitia decolar os helicópteros que deviam levá-los à base de Severomorsk (Mar de Barents). Evocando razões "morais e éticas", as autoridades negaram-se a descrever o estado em que se encontravam os cadáveres levados para a superfície.
Os médicos forenses examinavam "os detalhes dos que conseguiram resistir para determinar as causas da morte dos marinheiros", segundo uma fonte do Estado Maior da Frota do Mar do Norte, citada pela Interfax. Por outra parte, o almirante Kuroyedov indicou que foram interrompidos os trabalhos nos compartimentos 7 e 8 para concontrar todos os esforços no 9, onde, segundo a nota, haveria 19 corpos.
| CRONOLOGIA DO CASO | 12 de agosto O Kursk encalha no fundo do Mar de Barents. Marinha russa recebe pedidos de socorro na forma de batidas no casco do submarino. |
14 de agosto A Rússia divulga o acidente. |
15 de agosto Primeiras tentativas de resgate dos sobreviventes. A Rússia rejeita ajuda internacional. |
16 de agosto A Rússia pede ajuda. Os pedidos de socorro diminuem de intensidade. |
17 de agosto Mergulhadores noruegueses e britânicos se deslocam para a área da tragédia. |
18 de agosto Cessam os sinais de vida no interior do Kursk. |
19 de agosto As famílias dos marinheiros são avisadas de que os prazos de sobrevivência foram superados. |
21 de agosto A ajuda chega ao local do acidente. A escotilha de emergência do submarino é arrombada. O Kursk está totalmente inundado. Moscou anuncia a morte de todos os tripulantes. |
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