Enquanto os mexicanos vão às urnas neste domingo, para votar para presidente, o líder da guerrilha indígena, o subcomandante Marcos, observa com muito ceticismo as eleições mexicanas, oculto nas matas do estado de Chiapas.
O contexto político de hoje nada lembra as eleições de 1994, quando o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) ameaçou uma "guerra" se as eleições presidenciais não fossem limpas. Na ocasião, o Partido Revolucionário Institucional (PRI) esticou para 71 anos sua permanência no poder, em parte graças ao "voto do medo" gerado em parte pelos próprios redutos rebeldes.Hoje o legendário e carismático subcomandante Marcos (cuja verdadeira identidade não é conhecida, a não ser por seus mais íntimos colaboradores), já quase sem nenhuma influência além dos limites das montanhas e da selva de Chiapas, ao sul do México, promete não interferir no processo eleitoral.
Mas sua influência apenas regional e a falta de interesse da maioria da população mexicana pelo problema indígena não impediu que todos os candidatos dedicassem frases em seus programas, prometendo soluções para o conflito, provavelmente apenas com o objetido de que ninguém os acusem de se esquecer dele.
O centro-esquerdista Cuauhtémoc Cárdenas se comprometeu a lutar pela solução do conflito e pela melhoria das condições de vida dos índios mexicanos.
O mesmo tem feito o conservador Vicente Fox e até Francisco Labastida que, como ministro do Interior - cargo que ocupou antes de ser candidato oficialista - fracassou em sua tentativa de melhorar as relações com os indígenas.
Ao longo de mais de seis anos, desde sua criação, em 1º de janeiro de 1994, o EZLN vem perdendo sua força. Os projetos de Marcos, o líder branco da guerrilha indígena, não tem ganho adeptos e seus pronunciamentos, antes aguardados e comentados, são cada vez mais esporádicos e já passam praticamente em branco pela opinião pública mexicana.
Diante de eleições que as autoridades e alguns círculos políticos antecipam como as mais disputadas e transparentes da história, o subcomandante zapatista aceitou que as eleições aconteçam em paz em sua área de influência, reduzidas a parte dos vales e montanhas de Chiapas, onde vivem povos indígenas de distintas militâncias políticas.
O chefe dos indígenas rebeldes - cujo número é um mistério- tem se recusado a comparecer às mesas de negociação, criticado todos os partidos legais e se solidarizado com os movimentos mais radicais e minoritários da esquerda mexicana. Recentemente, sofreu mais um sério revés em sua popularidade, ao apoiar o universitário Conselho Geral de Greve, formado por uma minoria radical de esquerda, que é abertamente contrário a todos os candidatos às eleições presidenciais de 2 de julho.
O peso político do subcomandante Marcos e seus guerrilheiros indígenas tem se reduzido a manifestações de órgãos defensores dos direitos humanos e campanhas de solidariedade. Agora, ele não é mais considerado um ícone da batalha pela democracia.
No último dia da campanha eleitoral, em Cárdenas, quando cerca de 300 mil mexicanos se reuniram no centro da cidade do México, o zapatismo esteve ausente, num local que antes era o principal reduto dos simpatizantes de Marcos na cidade.
É possível que nas zonas de influência zapatista, a esquerda tenha mais seguidores. Numa ocasião, Marcos permitiu a instalação de mesas de votação em seus territórios, mas convocou o povo a não votar, ordem que foi cumprida em muitas regiões onde quem saiu perdendo foi a oposição, que deixou de ganhar postos municipais.
A posição de Marcos, que permitiu a instalação de urnas em Chiapas, é um mistério, mas ainda se espera que um de seus já tradicionais comunicados indique se ele tem alguma preferência eleitoral.