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Fujimori diz que Toledo é risco para economia peruana

Sexta, 26 de maio de 2000, 01h26min
O candidato-presidente peruano, Alberto Fujimori, recebeu o enviado especial do jornal O Estado de S.Paulo, no Palácio de Pizarro, sede do governo, na quinta-feira à noite, para conceder uma entrevista exclusiva.

No gabinete presidencial estava também o candidato à vice-presidência por seu partido, Francisco Tudela. Apesar das declarações em contrário de seu adversário, o economista Alejandro Toledo, Fujimori afirmou que sempre esteve aberto ao diálogo com a oposição, mas reiterou que a decisão sobre a data da eleição caberia somente ao Jurado Nacional de Eleições (JNE).

Como candidato e como presidente, o senhor estaria disposto a fazer um acordo com a oposição para encontrar uma saída política para a atual crise?

Alberto Fujimori - Tomara pudesse ocorrer. Os canais de comunicação do governo sempre estiveram abertos para qualquer solicitação. Mas o diálogo que se havia iniciado (logo depois do primeiro turno de 9 de abril) foi rompido pela oposição. O senhor Tudela participou de algumas reuniões.

Francisco Tudela - Da última vez, simplesmente não compareceram à reunião e nunca mais soubemos nada deles.

Mas o tema do adiamento esteve presente nessa mesa de negociação?

Tudela - Não da postergação, mas sim das condições...

Fujimori - E as condições foram dadas. E o que chama a atenção é que, conhecida a data do segundo turno, iniciou-se uma intensa campanha eleitoral do senhor Toledo. Mas a dez dias da eleição, ele anuncia que não aceita a data de 28 de maio porque ela não lhe favorece. E justifica isso com razões eleitorais vagas e suspeitas não provadas, que, por sua vez, não justificam um pedido de postergação. Razões que justificariam um adiamento poderiam ser razões técnicas ou razões de eqüidade. Razões de eqüidade, se haviam antes, não há mais.

O sr. considera então que as campanhas se desenvolveram em igualdade de condições, apesar do pouco acesso de Toledo às TVs de sinal aberto?

Fujimori - Posso dizer que Toledo teve três semanas para fazer comícios sozinho no começo da campanha. Muitos diziam que com minha ausência se estabelecia o equilíbrio. Eu estou em campanha só há alguns dias, com uns quatro ou cinco comícios. Se há problemas de eqüidade, eles prejudicam mais a mim do que ao sr. Toledo. Até porque estou há três dias com problemas de saúde e não pude sair.

E sobre as razões técnicas?

Fujimori - Esses problemas de aspecto técnico do Onpe (Escritório Nacional de Processos Eleitorais) não podem ser considerados. Trata-se de uma eleição com apenas dois candidatos. Qualquer um saberia como resolver isso. É uma das coisas mais simples do mundo. Se querem softwares de última tecnologia, que seja - isso nos custou provavelmente alguns milhõezinhos, não é pouco, mas teremos o software. Essa simulação que o Onpe acabou de realizar não deixou margem para maiores observações. Além disso, podemos fazer a contagem manual, há a possibilidade de fazer a contagem rápida pela OEA, pela Transparência, pela Defensoria do Povo, pelas próprias empresas de pesquisa.

Contagem com base em atas eleitorais. Em projeções com margem de erro que não supera 0,5%.

Mas mesmo assim não preocupa o sr. o fato de sair como candidato único no segundo turno, com as conseqüências que isso pode ter?

Fujimori - Não posso obrigar o sr. Toledo a ir à eleição. O Peru não pode caminhar por um caminho sem luzes. Veja, criou-se um clima de incerteza, procuram criar um clima de vazio de poder, criar um caos no país, provavelmente pensando que assim obteriam uma saída pra seu problema eleitoral.

Mesmo assim, o sr. como presidente não teria instrumentos legais para tomar a iniciativa de promover um adiamento para mudar a data da eleição e evitar esse caos?

Fujimori - Não...

Tudela - Essa decisão só cabe ao JNE. Qualquer decisão do Executivo nesse caso, violaria profundamente nossa Constituição. Só haveria uma saída se o Congresso votasse uma emenda constitucional sobre esse tema.

Uma saída jurídica como a pedida pelo Colégio de Advogados de Lima, que vincula a eleição presidencial do primeiro turno à eleição legislativa, não caberia?

Tudela - Essa é uma interpretação que não se sustenta no JNE.

Fujimori - As eleições para presidente e para o Congresso são eleições distintas.

Foram denunciadas irregularidades no primeiro turno...

Fujimori - Irregularidades ou anormalidades que não podem ser tomadas como fraude. A definição de fraude universalmente aceita é tomar ações deliberadas e sistemáticas para distorccer a vontade popular, e isso eu não fiz.

Tudela - Todas as empresas de pesquisa privadas, a Transparência, a OEA e a Onpe tiveram cifras coincidentes.

Fujimori - O sr. (Eduardo) Stein (chefe da missão da OEA), atendendo a um pedido meu, esteve aqui no palácio. Nós conversamos e ele me assegurou que não houve fraude no primeiro turno.

E o que acontecerá domingo?

Fujimori - Essa é uma resposta que não lhe posso dar. Até porque, em todo caso, há contatos entre o chanceler (Fernando de Trezignes), sr. (César) Gaviria (secretário-geral da OEA) e outros. Também se sustentam conversas oficiosas entre o primeiro-ministro (Alberto Bustamante) e os ministros do JNE para ver que possibilidades há.

Não o preocupam manifestações potencialmente perigosas, como a do primeiro turno, quando partidários da oposição marcharam em direção ao palácio?

Fujimori - Não, porque estamos em Lima. E em Lima temos uma situação muito estável e agentes de segurança prontos para agir com prudência, mas também com firmeza. Protestos há. Há manifestações de todos os tipos e sempre soubemos lidar com elas. Não somos um Estado policial nem de força.

O Brasil tem mantido uma posição cautelosa sobre a atual crise peruana. O sr. tem mantido algum contato com autoridades brasileiras sobre o tema?

Fujimori - Não, mas o chanceler Fernando de Trezignes tem conversado muito com o ministro de Relações Exteriores, Luis Felipe Lampreia. Brasília tem adotado a prática de aguardar o desenrolar dos fatos para só então emitir sua opinião. Isso nos parece uma atitude bastante positiva.

Ao fim de seu segundo mandato, qual o seu balanço das relações com o Brasil?

Fujimori - Ótimas. Temos desenvolvido muitos projetos em conjunto, como construções de estradas e esforço bilateral de combate ao narcotráfico. Nos últimos anos, nossas relações comerciais com o Mercosul e particularmente com o Brasil melhoraram muito.

Como o sr. recebeu a nota do Departamento de Estado dos EUA apoiando a posição de Toledo de exigir um adiamento do segundo turno?

Fujimori - Nossa posição é a de que a decisão sobre esse tema cabe só ao JNE. O Departamento de Estado emitiu uma nota apoiando a tese de adiamento do segundo turno. Reitero que, como candidato, não me oponho. Como presidente, encarreguei meus assessores de analisar a declaração, mas ainda não tive contato com eles.

Em variás ocasiões, o sr. tem dito que a democracia no Peru não é perfeita. Que imperfeições o sr. pode detalhar?

Fujimori - Eu diria que, por exemplo, temos muitos passos para dar no Poder Judiciário (a Corte Suprema de Justiça está fechada desde o ano passado sob o argumento de que seus membros eram corruptos) para que ele seja mais bem visto pela sociedade. Há questionamentos, com os quais eu não concordo, quanto à liberdade de imprensa. Mas o que eu considero o principal defeito é a falta de igualdade de oportunidades. Numa democracia, todos devem ter a mesma oportunidade e isso ainda não ocorre no país. Ainda não são todos os que têm acesso à educação, mas estamos caminhando nesse sentido.

Por que o sr. insistiu tanto em candidatar-se ao terceiro período?

Fujimori - Porque tudo o que conseguimos nos custou muito e não poderíamos pôr essas conquistas em risco.

O sr. considera que uma eventual chegada de Toledo ao poder seria um risco?

Fujimori - Às conquistas econômicas, sim. As propostas que ele tem feito causariam um desequilíbrio imanejável que conduziria a uma inflação e a uma falta de credibilidade na economia peruana. Ele propõe, ao mesmo tempo, aumento de salários, baixas taxas de juros para créditos agrícolas, redução de impostos na base de 5%.

Tudela - Isso custaria uns US$ 1,2 bilhão ao ano, e só poderia ser realizado de uma maneira: emitindo o equivalente em sóis.

Fujimori - Além disso, temos divergências sobre o modo de julgar os terroristas. Está na Constituição que os acusados por crimes de natureza terrorista devem ser julgados por tribunais militares. Toledo quer passá-los para a jurisdição da Justiça civil.

A respeito desse tema, presidente, que papel exerce o dr. Vladimiro Montesinos em seu governo?

Fujimori - O papel de um eficiente assessor de inteligência, que permitiu a desarticulação do terrorismo.

Sem nenhum poder de bastidores ou nas sombras em sua administração?

Fujimori - Poder em que sentido? Na política econômica, na política exterior... Não.

Tudela - Eu fui ministro das Relações Exteriores por dois anos. Nesse período, encontrei com o sr. Montesinos quatro vezes. As quatro, em reuniões do Conselho de Defesa Nacional, nas quais se trataram apenas temas militares. Jamais ouvi dele alguma opinião sobre política exterior ou sobre política interna.

Fujimori - Diz-se que ele tem influência em meu governo e em minhas decisões. Em que? Relações Exteriores? O ex-chanceler Tudela diz que não.

Política econômica? É um tema que eu controlo pessoalmente. Manejo das Forças Armadas? Tenho o mando das Forças Armadas. Luta antiterrorista, sim, o sr. Montesinos apóia. Desenvolveu um serviço de inteligência supereficiente, e isso todos reconhecemos.

Agora, com os grupo terroristas desarticulados, esse serviço de inteligência do sr. Montesinos não pode ser reduzido?

Fujimori - Tomara que sim. Espero que sim. Isso é óbvio. Ainda temos de consolidar a vitória contra o terrorismo. Mas quando? Isso ainda não se sabe e quando chegar a hora vamos fazê-lo. Todos conhecem o perfil do presidente.

Sou acusado de ser autoritário por causa dessa firmeza.

O sr. não se considera autoritário?

Fujimori - Não. Sou um presidente muito democrático. O sr. e toda a imprensa estrangeira podem dar-se conta de como se desenvolvem aqui todos os tipos de debate, sobre todos os temas: economia, agricultura, investimento, crenças, etc. E não há como admitir que alguma pessoa diga que o autoritarismo predomina no Peru.

Uma curiosidade: o sr. já leu algum livro de Mario Vargas Llosa?

Fujimori - Já. Já li uns três há alguns anos, entre eles Pantaleão e as Visitadoras.

Gosta dele como escritor?

Fujimori - Sim, gosto. Não li os livros mais recentes por falta de tempo.
O Estado de S.Paulo

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