Editor de vídeos gamer que começou aos 12 anos ensina como entrar no mercado global
Hoje, 11 anos depois, Vinícius Tremea reúne mais de 200 trabalhos editados que juntos somam mais de 1,5 bilhão de visualizações
O interesse de Vinícius Tremea por games começou muito antes de ele imaginar que poderia trabalhar com eles. Quando criança, usava o computador do pai para jogar Minecraft. Aos 12 anos, criou seu próprio canal e começou a aprender edição com tutoriais disponíveis na internet. Anos depois, o que fazia por diversão se transformaria em uma profissão que o levaria dos canais de Fortnite e Counter-Strike a projetos para criadores de conteúdo dos Estados Unidos que, somados, ultrapassam 1,5 bilhão de visualizações
Natural de Caldas Novas (GO), Vinícius entrou no mercado profissional ainda adolescente, editando vídeos para um jogador competitivo de Fortnite que chegou a disputar o Mundial da modalidade. A amizade com o jogador e a experiência com o canal abriram portas para outros criadores da comunidade. No início, recebia entre R$ 50 e R$ 75 por vídeo. A proposta de um dos parceiros do jogador para trabalhar por R$ 500 mensais foi uma das primeiras indicações de que a edição poderia se tornar uma carreira.
A mudança mais significativa veio quando passou a trabalhar com Counter-Strike. Aos 18 anos, recebeu uma proposta para editar os vídeos do canal Lugin, um dos criadores brasileiros de conteúdo sobre o jogo com quem trabalhou por mais de dois anos. A rotina chegava a dois vídeos por dia, entre 40 e 50 por mês. O contrato começou em R$ 4 mil mensais e, posteriormente, passou para R$ 5 mil.
“Quanto mais você faz aquilo no seu dia, mais vai evoluindo”, afirmou Vinícius ao recordar o período em que considera ter avançado mais tecnicamente. A frequência de produção exigia velocidade, consistência e domínio dos recursos de edição. Depois, ele também trabalhou com outros canais: Felipeira, Lukinhas, Cachorro1337, Lukinhas… Todos ligados ao universo de Counter-Strike.
A edição por trás da experiência gamer
O trabalho de um editor vai além de organizar os melhores momentos de uma partida. A escolha dos cortes, o ritmo, os efeitos sonoros, a música, as animações e a construção narrativa ajudam a transformar gravações extensas em vídeos que funcionam como entretenimento para quem acompanha os criadores.
A relação com cada canal também varia. Alguns clientes dão liberdade para que Vinícius proponha mudanças, sugira temas e participe das decisões de produção. Em outros casos, sua atuação fica mais concentrada na edição. Essa diferença exige que o profissional compreenda não apenas as ferramentas técnicas, mas também a identidade do criador e as expectativas da comunidade que o acompanha.
Com o tempo, Vinícius ampliou sua atuação para além do conteúdo gamer tradicional. Seu trabalho combina storytelling, motion design, direção criativa e estratégias de retenção de audiência. Segundo os dados de seu portfólio, os projetos em que participou contam com mais de 200 vídeos editados, que contribuíram para canais que somam mais de 40 milhões de inscritos. Entre os criadores com quem trabalhou estão Nico Grigg, Devin Caherly e Ramo Akh. Ao todo, Vinícius acredita que o número de vídeos editados desde o início de sua carreira ultrapasse mil.
Um dos projetos citados por ele é um vídeo de Nico Grigg sobre uma visita investigativa à ilha associada a Jeffrey Epstein, que alcançou 12 milhões de visualizações. Nesse tipo de produção, o assunto e a curiosidade do público ajudam a definir a estrutura narrativa: a edição precisa apresentar a proposta do vídeo, sustentar o interesse e conduzir o espectador ao longo da história. O resultado, porém, depende de um conjunto de fatores, como o tema, a execução, a distribuição e a audiência — não apenas dos cortes.
Do mercado gamer aos clientes internacionais
A experiência acumulada em canais de jogos contribuiu para que Vinícius desenvolvesse uma carreira com clientes de outros países. Hoje, atende cerca de oito a nove criadores, principalmente americanos, com trabalhos que podem custar entre US$ 250 e US$ 750 por vídeo, dependendo do projeto.
"O portfólio é o principal ponto de partida para quem deseja seguir caminho semelhante. Por isso eu recomendo aos novos editores que selecionem criadores que sirvam de referência. Estude o estilo dos vídeos e pratique com gravações de lives que ainda não tenham sido editadas. Adicione música, deixe o vídeo dinâmico. A partir desses exercícios, é possível montar uma seleção de trabalhos e apresentá-la a potenciais clientes", sugere.
Vinicius também considera o inglês como uma habilidade importante para compreender as necessidades dos criadores, negociar projetos e participar de reuniões. "A prospecção exige iniciativa: busque oportunidades por e-mail, Instagram e Discord, além de utilizar plataformas de portfólio e indicações de clientes".
O próprio percurso mostra uma mudança na escala da atividade. Depois de começar cobrando dezenas de reais por edição, ele passou a atender o mercado internacional e registrou faturamento mensal superior a R$ 40 mil. Há três meses, deixou de atuar como MEI, diante do crescimento do negócio, e estabeleceu como meta alcançar R$ 500 mil de faturamento anual.
Inteligência artificial como ferramenta de edição
Além do trabalho com criadores, Vinícius atua em uma empresa de inteligência artificial, experiência que incorporou à sua visão sobre o futuro da edição. Ele utiliza ferramentas de IA para gerar imagens e vídeos, acelerar etapas de pós-produção e desenvolver animações e motion design.
Na avaliação do editor, recursos capazes de automatizar cortes ou produzir elementos visuais podem reduzir o tempo gasto em tarefas específicas. Isso não significa, necessariamente, que todo o trabalho humano possa ser eliminado: a seleção de ideias, as decisões narrativas e a adequação do resultado à identidade de cada canal continuam exigindo direção e revisão.
“Eu acredito que a IA tem que ser utilizada como uma ferramenta para melhorar o trabalho do editor”, afirma. Para ele, aprender a incorporar essas tecnologias ao processo de produção pode se tornar uma vantagem profissional, especialmente à medida que as ferramentas evoluem.
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