O jogo dos X-Men que obrigava você a apertar Reset no Mega Drive
Para avançar na aventura, não bastava encontrar o caminho certo: era preciso interagir com o próprio console
Nos anos 1990, a era dos 16 bits foi marcada por jogos desafiadores, ausência de tutoriais e decisões de game design verdadeiramente ousadas. Contudo, poucas mecânicas na história do Mega Drive foram tão chocantes — e desesperadoras para os jogadores — quanto a decisão da Sega no clássico X-Men, lançado em 1993.
Desenvolvido pela Western Technologies e publicado pela Sega, o título trazia os mutantes mais famosos da Marvel em uma batalha contra um vírus de computador na Sala do Perigo. Mas o grande obstáculo para ver o final da aventura não vinha dos chefões na tela, e sim da própria física do console.
Uma aventura nada fácil
X-Men colocava o jogador no controle de personagens como Ciclope, Wolverine, Gambit e Noturno. A história começava na Sala de Perigo, onde um vírus transformava as simulações de treinamento dos X-Men em situações perigosas. Ao longo da aventura, os heróis enfrentavam figuras conhecidas dos quadrinhos, incluindo Dentes de Sabre, Fanático, Apocalipse e Mojo.
O problema é que o jogo também não fazia muita questão de facilitar a vida do jogador. Os poderes dos mutantes consumiam energia, os cenários escondiam armadilhas e alguns confrontos exigiam bastante paciência. Para quem jogava nos anos 90, quando não existiam tutoriais detalhados na internet ou vídeos ensinando cada passo, chegar às fases finais já era uma grande conquista.
Mas então vinha o momento que poderia fazer qualquer jogador acreditar que o cartucho estava com defeito: No início da fase do Mojo, o Professor X diz ao jogador que é necessário "Resetar o computador".
Depois de derrotar Mojo, o jogador chega a uma parte em que é necessário interromper o vírus que infectou o sistema da Sala de Perigo. O jogo indica que é preciso resetar o computador. Só que não há um botão na fase.
A reação mais natural era procurar algum elemento interativo no cenário. Afinal, quando um jogo pede para apertar alguma coisa, normalmente existe um objeto correspondente dentro da própria aventura.
Em X-Men, porém, a palavra “computador” tinha um significado muito mais literal do que o jogador poderia imaginar. O computador era o próprio Mega Drive.
Depois de cumprir a etapa necessária, o jogador precisava dar um toque rápido no botão Reset do console. O sistema realmente reiniciava, mas o jogo conseguia perceber que aquele reset havia acontecido no momento correto e retomava a aventura, dando início à fase final do jogo, a base de Magneto.
Era praticamente como se X-Men tivesse decidido quebrar a quarta parede antes mesmo de o jogador perceber que ela existia.
O medo de apertar Reset
Hoje, a ideia parece divertida. Em 1993, porém, apertar Reset depois de passar horas jogando era quase um ato de desespero. Quem cresceu com cartuchos sabe muito bem o significado daquele botão. Reset era o botão que você evitava apertar a qualquer custo.
Sem salvamento automático, checkpoints frequentes ou armazenamento de progresso como nos consoles atuais, reiniciar o videogame normalmente significava perder todo o seu progresso no jogo. E X-Men pedia justamente que o jogador fizesse aquilo que havia aprendido a nunca fazer.
O detalhe ainda mais cruel era que o comando precisava ser executado corretamente. Um toque rápido fazia parte da solução. Se o jogador segurasse o botão por tempo demais, o Mega Drive poderia simplesmente reiniciar normalmente, levando-o de volta à tela inicial e fazendo com que todo o progresso fosse perdido.
Ou seja: além de descobrir a solução, era preciso ter coragem para acreditar nela. A última coisa que muitos jogadores fariam seria apertar o Reset do próprio Mega Drive.
O Mega Drive realmente reiniciava
A genialidade — ou a crueldade — da ideia estava justamente no fato de que o console não fingia que havia sido reiniciado. O Mega Drive realmente passava pelo processo de reset.
Os desenvolvedores aproveitaram o comportamento da memória do sistema para fazer o cartucho identificar que um reset havia acontecido. Um marcador era deixado na memória antes da ação e, quando o jogo voltava a ser executado, ele verificava essa informação para saber se o jogador havia feito o procedimento correto.
Se tudo desse certo, a aventura continuava em vez de retornar simplesmente para a tela de título. A sequência simulava uma espécie de reinicialização do computador infectado. O vírus era suspenso e a história avançava para a próxima etapa, levando os X-Men rumo ao confronto final.
Na prática, X-Men fazia uma brincadeira bastante sofisticada com a relação entre o jogador, o jogo e o próprio console.
Quando o Reset era parte do jogo
Hoje, um segredo como esse dificilmente permaneceria escondido por muito tempo. Bastariam alguns minutos para alguém publicar um vídeo, criar um guia ou compartilhar a solução nas redes sociais. Em 1993, porém, descobrir como avançar em um jogo podia ser uma aventura por si só.
X-Men aproveitou essa experiência de uma maneira bastante criativa. O jogo pedia que o jogador confiasse em uma instrução que parecia absurda justamente porque ela contrariava tudo o que ele havia aprendido: apertar Reset normalmente significava perder o progresso e começar novamente.
É isso que transforma o episódio em algo maior do que uma simples curiosidade de um jogo antigo dos X-Men. Ele representa uma época em que descobrir os segredos de um videogame fazia parte da diversão, e em que uma solução podia estar escondida não dentro do jogo, mas no próprio aparelho.
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