LaserActive: o console de 1993 que queria ser tudo ao mesmo tempo
A Pioneer criou uma máquina capaz de reunir jogos da Sega e NEC, filmes, música e karaokê em um único aparelho
No início dos anos 1990, a guerra dos consoles fervilhava. Enquanto Nintendo e Sega disputavam cada polegada do mercado de 16 bits, a Pioneer decidiu tomar um caminho completamente diferente: em vez de escolher um lado ou apostar em uma única mídia, ela resolveu criar um aparelho capaz de rodar absolutamente tudo. O resultado dessa ambição foi o Pioneer LaserActive, lançado em 1993.
A proposta parecia saída de uma lista de desejos de um jogador daquela época. O aparelho era capaz de reproduzir filmes em LaserDisc e CDs de música e, com os módulos corretos, também podia rodar jogos de Mega Drive, Sega CD, PC Engine e TurboGrafx-16. E isso ainda não era tudo.
O LaserActive também tinha módulos para karaokê, podia utilizar óculos 3D e possuía formatos próprios de jogos que misturavam a capacidade dos consoles da Sega e da NEC com a enorme capacidade de armazenamento do LaserDisc.
Era, em essência, uma tentativa de transformar a sala de estar em um centro de entretenimento definitivo.
Um aparelho que sozinho não era um console
O primeiro detalhe curioso do LaserActive é que sua unidade principal, o CLD-A100, não funcionava como um videogame convencional.
Lançado no Japão em 20 de agosto de 1993 e posteriormente na América do Norte, o equipamento era essencialmente um sofisticado reprodutor de LaserDisc com um espaço para receber módulos de expansão.
Esses módulos receberam o nome de PAC, e eram eles que transformavam o aparelho em algo muito mais ambicioso. A ideia era modularizar uma sala de entretenimento inteira. O proprietário poderia escolher qual função queria adicionar ao equipamento. O problema é que cada uma dessas possibilidades custava caro — muito caro.
Na América do Norte, o aparelho chegou às lojas por US$ 970, enquanto os módulos da Sega e da NEC custavam mais US$ 600 cada. Os jogos exclusivos também tinham preço sugerido de US$ 120.
Ou seja: o LaserActive não era apenas um produto caro. Ele era uma plataforma que ficava progressivamente mais cara conforme o consumidor descobria tudo o que ela podia fazer.
Os PACs de Mega Drive e PC-Engine
Os módulos mais interessantes eram os PAC-S10 e PAC-N10, desenvolvidos em parceria com a Sega e a NEC, e que depois de instalados, o LaserActive passava a aceitar cartuchos de Mega Drive e PC-Engine, além de diferentes formatos de CD-ROM da família do PC Engine e do Sega CD.
Isso transformava o LaserActive em uma das máquinas mais versáteis de sua época. Um único equipamento podia, dependendo dos módulos instalados, reunir bibliotecas de duas plataformas diferentes e ainda reproduzir os formatos multimídia tradicionais do LaserDisc e CD-ROM.
O grande diferencial do LaserActive não estava simplesmente em rodar Mega Drive ou PC Engine. A verdadeira aposta da Pioneer estava nos jogos desenvolvidos especificamente para o sistema.
Os formatos Mega-LD e LD-ROM² utilizavam o LaserDisc como uma espécie de um gigantesco armazenamento para vídeo, enquanto o hardware da Sega ou da NEC cuidava da parte interativa.
Isso permitia criar experiências que seriam extremamente difíceis de reproduzir com a capacidade de armazenamento de um cartucho ou CD convencional da época.
O LaserDisc podia fornecer vídeos e imagens de enorme qualidade para os padrões de 1993, enquanto os componentes do console adicionavam sprites, comandos, menus e elementos interativos.
O resultado era uma tecnologia que antecipava, de certa maneira, aquilo que posteriormente seria associado aos jogos em FMV.
O LaserActive recebeu pouco mais de duas dezenas de jogos Mega-LD e uma quantidade ainda menor de títulos LD-ROM², dependendo do mercado e da forma de contagem.
Entre os títulos estavam experiências bastante diferentes do que se encontrava normalmente em um Mega Drive ou PC Engine.
Pyramid Patrol, por exemplo, foi um dos jogos utilizados para apresentar a tecnologia Mega-LD. Outros títulos exploravam corrida, ação, aventura, tiro, filmes interativos e experiências mais próximas dos antigos jogos de LaserDisc.
O problema de tentar fazer tudo
A grande ironia do LaserActive é que justamente sua maior qualidade acabou se tornando uma de suas maiores fraquezas. Para aproveitar todo o potencial da máquina, o consumidor precisava investir em um aparelho extremamente caro e depois escolher quais módulos comprar.
Em 1993, por quase US$ 1.000, era possível comprar um LaserActive básico. Para transformá-lo em uma máquina capaz de reproduzir os jogos da Sega, eram necessários mais US$ 600 pelo PAC-S10. E isso antes de comprar jogos.
O consumidor poderia simplesmente comprar um Mega Drive e um Sega CD por uma fração desse valor. O mesmo raciocínio valia para a solução da NEC.
A promessa de ter tudo em um só lugar era fascinante, mas financeiramente difícil de justificar. E havia outro problema: o mundo estava mudando. Logo em seguida, a chegada da era 32 bits com o PlayStation e o Sega Saturn sepultou de vez o formato.
Um fracasso que ficou mais interessante com o tempo
O LaserActive acabou sendo descontinuado em 1996, depois de uma vida comercial bastante curta. Estimativas apontam para aproximadamente apenas 10 mil unidades vendidas. Em termos comerciais, foi um fracasso.
Mas, olhando para trás, é justamente essa ambição exagerada que tornou o aparelho tão fascinante. O LaserActive pertence a uma época em que as fronteiras entre videogame, cinema, música e computador estavam começando a desaparecer.
Ele antecipou conceitos que décadas depois se tornariam comuns: aparelhos multifuncionais, mídia digital, experiências interativas baseadas em vídeo, jogos que misturam diferentes formas de conteúdo e sistemas expansíveis.
O LaserActive não conseguiu conquistar o mercado, mas deixou uma das demonstrações mais curiosas de como a indústria imaginava o futuro dos videogames: não como uma simples máquina de jogar, mas como o centro de toda a vida multimídia da sala de estar.
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.