Torcida e sintonia levam Brasil-RS à semifinal após 16 anos
De volta da segunda divisão, Brasil de Pelotas chega às semifinais do Campeonato Gaúcho, feito que não alcançava desde 1998; para presidente, desempenho é fruto de trabalho entre comissão técnica e diretoria, respaldado pelo apoio de sócios-torcedores
A torcida do Brasil de Pelotas vive um ano de redenção em 2014. Depois de passar por maus bocados nas últimas temporadas, o clube retornou à primeira divisão do Campeonato Gaúcho, e não decepcionou: vice-líder do Grupo B na primeira fase, com apenas duas derrotas em 15 jogos, passou pelo Novo Hamburgo nas quartas de final e chegou às semis da competição, o que não acontecia desde 1998. O duelo com o Grêmio está marcado para as 19h30 (de Brasília) desta quarta, em Porto Alegre.
Mas qual o segredo para a reação de um time que foi rebaixado em 2009, após a tragédia que custou três vidas – o zagueiro Régis, o preparador de goleiros Giovanni Guimarães e o ídolo Claudio Millar – e que marcou a história do futebol brasileiro? Segundo o presidente Ricardo Fonseca, são dois: o apoio da torcida e a sintonia entre a diretoria e a comissão técnica.
Eleito em 2012, Ricardo contratou o técnico Rogério Zimmerman para assumir a equipe. Homem de confiança do presidente, Zimmerman havia conquistado o título da segunda divisão gaúcha em 2004 à frente do próprio Brasil de Pelotas. Para aquele ano, segundo o presidente, Zimmerman – então no Canoas – teria a missão de iniciar a reformulação do elenco.
“No segundo semestre de 2012, começamos a reestruturar o clube com a chegada do Rogério Zimmerman. A partir de lá, fizemos uma bela Copinha (Copa FGF, então chamada Copa Hélio Dourado) no segundo semestre - fomos vice-campeões, perdemos para o Juventude a final (2 a 1 no placar agregado). Foi um belo jogo, não merecíamos ter perdido”, contou o presidente do Brasil de Pelotas ao Terra.
“A partir daí, começamos a projetar 2013. Tínhamos que fazer uma equipe de primeira divisão para jogar uma Série A2 (Divisão de Acesso do Campeonato Gaúcho). Começamos a reestruturar e ter uma continuidade de trabalho. A equipe era 70%, 80% do que jogou em 2012. Houve uma continuidade de trabalho”, completou o dirigente.
Com dois anos de esforço conjunto na formação do elenco, diretoria e comissão técnica mostram entrosamento também nos discursos. Em entrevista ao jornal Zero Hora divulgada na terça-feira (25), o técnico Rogério Zimmerman também creditou o sucesso do Brasil de Pelotas em 2014 ao elenco formado nos anos anteriores e aperfeiçoado para a temporada de volta à elite.
“No planejamento que elaboramos em 2013, trouxemos jogadores com perfil de primeira divisão para jogar a Série A2 e buscar o acesso. Agora, a gente já tinha um time acostumado com a elite e só fizemos contratações pontuais. O segredo desta regularidade é o planejamento feito há um ano e meio”, analisou o treinador ao periódico gaúcho.
Olhar o elenco do Brasil de Pelotas em 2014 é atestar essa reformulação a longo prazo no clube. O goleiro Luiz Müller, o meio-campista Washington e os atacantes Alex Amado e Gustavo Papa, por exemplo, chegaram ao Estádio Bento Freitas em 2012. No ano seguinte, foram contratados o lateral Rafael Forster, o zagueiro Fernando Cardoso, os volantes Nunes e Márcio Hahn e o meia Cleiton. Todos eles permaneceram no clube em 2014.
Mas como bancar a folha salarial de um elenco de primeira divisão disputando a segunda divisão nos anos anteriores? É aí que entra a torcida: segundo o presidente Ricardo Fonseca, boa parte da folha salarial é bancada pelo projeto Sócio Xavante, que têm planos com mensalidades que variam de R$ 45 a R$ 120.
“A campanha do sócio que entrou em ação tem mais de 5 mil sócios. Mobilizamos o xavante para retornar à primeira divisão. Como tivemos um grande êxito no segundo semestre (de 2013), resgatamos aquele torcedor que estava afastado”, analisou o presidente, que viu na torcida e nas arrecadações uma grande motivação para atrair jogadores mais conhecidos ao elenco.
“Mostramos para os atletas que era possível jogar uma segunda divisão, mesmo sendo jogador de primeira divisão. Resgatamos toda a credibilidade. O Brasil (de Pelotas) é um marca muito forte. Todo jogador gostaria e gosta de jogar no Brasil, por ser um clube de visibilidade”, acrescentou.
Classificado para as semifinais, o Brasil de Pelotas enfrenta o Grêmio nesta quarta-feira (26), às 19h30 – o confronto único na Arena Grêmio define o primeiro classificado para a decisão do Campeonato Gaúcho. Campeão estadual em 1919, o Brasil busca voltar à decisão da competição, patamar que não alcança desde 1983. E mais do que isso: mostra que a tragédia de 2009 já é passado em Pelotas.
“Aquela tragédia passou. Conseguimos o acesso, foi página virada. Esta é uma página nova, de reestruturação, em cima desse planejamento que deu certo”, disse Ricardo Fonseca, defendendo o planejamento a longo prazo para os clubes.
Receita mantida para a Série D
Em meio aos dissabores dos últimos anos, o Brasil de Pelotas viveu também o rebaixamento na Série C do Campeonato Brasileiro de 2011. Agora, classificado para a Série D de 2014, o time tem como meta o acesso à terceira divisão nacional. A receita é a mesma que vem dando certo no Campeonato Gaúcho: manter a comissão técnica para reformular o elenco de forma pontual.
“Vamos fazer todo o esforço, o possível e o impossível, para ter a continuidade do trabalho - inclusive à comissão técnica. Temos o assédio de times de Série B e de Série A sobre a comissão técnica. Primeiro, (a meta é) renovar o contrato com o Rogério; depois, fazer a renovação com os atletas que nos interessam para a Série D e buscar o acesso”, adiantou o dirigente rubro-negro.
Segundo Ricardo Fonseca, é graças a este planejamento que o clube tem economizado em jogadores – se 70 ou 80 atletas passavam pelo clube por ano até 2012, hoje em dia, segundo ele, o número varia entre 25 e 28. O dirigente destaca o desejo de Rogério Zimmerman, que topou o projeto de um planejamento moderno para permanecer no Brasil de Pelotas. Em dois anos, além de resultados, o sim do treinador resultou também na citada sintonia com a diretoria.
“O Rogério é um treinador experiente, muito inteligente e muito correto com as coisas que faz. Essa sintonia que nós temos é pela credibilidade que nós temos, entre presidente e treinador. Além de profissionais do clube, ele como treinador e eu como presidente, nós temos uma amizade muito forte. Eu que indiquei ele. Na minha gestão, tive a honra de trazer o Rogério. Temos uma afinidade muito grande.”
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