Foi pouco! Um ano após 7 a 1, desilusão impera com Seleção
Desilusão, falta de perspectiva e um sinal de alerta que não foi atendido, essa é a visão de duas das vozes mais críticas ao futebol brasileiro atual um ano depois do 7 a 1 da Alemanha contra a Seleção na Copa do Mundo. Enquanto a CBF defende que qualquer mudança no cenário atual tem que ficar sob a sua tutela, Tostão, um dos maiores jogadores da história do Brasil, e o Bom Senso FC, movimento dos atletas por melhores condições no futebol brasileiro, discordam da entidade.
“Não mudou nada depois do 7 a 1. A CBF e os técnicos brasileiros, já que a maioria dos técnicos que falam são corporativistas, dizem que foi um apagão, uma coisa inesperada, que o futebol brasileiro joga um jogo moderno, que os técnicos estão bem preparados. Não deram a importância que merecia o 7 a 1, consideraram um fato extraordinário”, explica Tostão, em entrevista ao Terra.
“Foi uma mensagem, um aviso de que o Brasil precisa melhorar o seu futebol. As pessoas não entenderam isso, então durante este ano o Dunga, uma pessoa que tem valor, mas foi chamado justamente porque em 2006, quando o Brasil também perdeu, colocaram um técnico para tentar recuperar o futebol rapidamente, com o discurso disciplinador. É a mesma coisa, veja aí os bons resultados amistosos, mas um novo fracasso (Copa América), e continua tudo no mesmo tamanho. Foi um ano perdido”, complementou o campeão na Copa do Mundo de 1970 com a Seleção.
A visão é compartilhada por Ricardo Borges Martins, diretor-executivo do Bom Senso FC, movimento dos jogadores brasileiros que busca melhorias no futebol nacional. Na visão dele, a goleada alemã é apenas o reflexo de um problema que afeta o país há anos.
“É no 7 a 1 que a gente começa a refletir com maior força sobre as raízes do futebol brasileiro. Desde a formação de atletas, a maneira como os clubes são protegidos, como funciona o campeonato nacional, qual a participação do público nos estádios, como se dá presença dos públicos, audiência na TV. E a gente vê que tudo isso vem caindo. O 7 a 1 é o símbolo de um fracasso bem maior, a decadência do futebol brasileiro”, explica.
Nova CBF?
Após a Copa de 2014, a CBF prometeu mudanças no futebol brasileiro. Começou por trazer Dunga, técnico em 2010, e Gilmar Rinaldi, ex-goleiro e empresário, para o comando do selecionado nacional. Após um começo promissor, a Seleção fracassou novamente na Copa América neste ano. Após atuações irregulares, a equipe acabou eliminada pelo Paraguai nos pênaltis durante as quartas de final.
Antes disso, em fevereiro, o discurso de renovação na CBF se intensificou com a posse de Marco Polo Del Nero. O ex-presidente da federação Paulista de Futebol (FPF) assumiu com um discurso de renovação da entidade e reaproximação com os clubes. Apesar das críticas, a entidade acredita que os avanços estão sendo feitos.
“É uma mudança estruturante. Primeiro temos que mudar a forma de funcionamento da CBF, estamos finalizando o estudo da empresa Ernest & Young, uma das maiores empresas de consultoria do mundo para pensar o modelo de governança. Mudamos o estatuto da CBF encerrando longo período de eleições e reeleições sem fim (não se sabe se a medida já vale para o mandato atual de Del Nero)”, conta Walter Feldman, secretário-geral da entidade, sobre o que foi feito nos três primeiros meses de Marco Polo.
Desilusão
Se algo aumentou nos últimos 365 dias foi a desilusão com o futebol brasileiro. Apesar do clima de festa nas ruas brasileiras durante a Copa do Mundo, o consenso entre os entrevistados é que hoje o futebol perde espaço no interesse do público brasileiro, e o 7 a 1 só ajuda a aumentar este fosso.
“É uma ilusão achar que o brasileiro, a maioria, adora futebol, vive do futebol. É uma minoria, as pessoas estão preocupadas com os problemas pessoais, a sua empresa, outras coisas importantes, então é uma desilusão enorme com a Seleção, por causa dos dois últimos fracassos e o 7 a 1, uma coisa marcante pelo placar”, afirma Tostão.
A audiência do Campeonato Brasileiro está em queda ano a ano, fazendo com que propostas para o retorno do modelo de mata-mata sejam propostas na CBF. Dentro dos estádios, a média de público foi a maior da década em 2014, mas um estudo da Pluri Consultoria mostrou que o Brasileiro é apenas o 15º do mundo que leva mais torcedores aos estádios, atrás de países sem tradição no futebol como Japão e China.
“A gente vê o futebol como entretenimento perder para outros, videogame, teatro, cinema. As pessoas veem menos lazer no futebol do que antes. O mais grave de tudo isso é permitir essa queda, fazer com que esse vale fosse infinito, sem que se tomasse atitudes necessárias para que o futebol tivesse uma virada em sua gestão”, critica Borges.
A CBF se defende dizendo que está dando mais poder para os clubes no desenvolvimento dos campeonatos para torná-los mais atrativos. A medida foi anunciada por Marco Polo na reunião extraordinária convocada após a prisão do ex-presidente José Maria Marin na Suíça por corrupção, em um momento em que o dirigente sofria pressão pela renúncia e a ameaça de uma possível volta de uma liga de clubes.
“Nós criamos um comitê dos clubes das Série A, B, C e D, e estamos dando total autonomia aos conselhos arbitrais para que os clubes definam as formas de funcionamento das competições no Brasil para avançarmos o futebol brasileiro”, comentou Feldman.
Como mudar?
Se pouco foi feito mesmo com a maior goleada sofrida na história da Seleção Brasileira, o que é necessário fazer para mudar o futebol brasileiro? Tostão e Bom Senso veem na MP do Futebol, medida provisória que em troca do refinanciamento das dívidas fiscais dos clubes pede contrapartidas nas gestões das equipes e federações, é ao menos um começo para que a mudança ocorra.
“A aprovação da medida provisória não resolve todos problemas do futebol brasileiro, mas é um ponto de partida. Se aprovada, a gente vai estar dando um pequeno passo, porém importante. Será um pequeno gol. Ficará 7 a 2, aí a gente aos poucos pode empatar o jogo. Se não for aprovada, vai para 8 a 1, 9 a 1 e não vai parar”, disse o presidente do Flamengo, Eduardo Bandeira de Mello em evento realizado na última segunda para defender a aprovação da medida.
Tostão vê com bons olhos a MP, mas lembra: não é só ela que vai resolver os problemas do futebol brasileiro.
“Acho que é um início de uma mudança, mas a mudança do futebol tem que ser muito ampla. Das categorias de base, na formação de jogadores, na direção dos clubes, nas relações comerciais que tem dentro do futebol. A MP começa a querer mudar o futebol com as contrapartidas com as obrigações dos clubes. É para acabar essa farra da gastança desenfreada que existe dos clubes, que não se programam, não se organizam, gastam o que não podem e não tratam bem os clubes e o futebol”, explica o ídolo da Seleção.
Já a CBF prefere que a reformulação do futebol brasileiro passe apenas pelas suas mãos. A entidade é contra medidas da MP que afetam o modo como ela elege os seus líderes e também nas eleições de suas federações.
“Nós trabalhamos para que não haja interferência do Estado no futebol brasileiro, que é uma determinação constitucional. Desde o início trabalhamos nesta linha”, argumenta Feldman.
Para o Bom Senso, maior defensor da medida, a postura da mandatária do futebol nacional é reflexo menos do desejo dela guiar a mudança e mais de continuar com o controle da Seleção, sua principal fonte de renda.
“A gente está falando de uma perda de identidade do torcedor brasileiro com a sua Seleção, porque isso acaba refletindo a maneira como o futebol é administrado no País. A CBF, que liga muito mais para a sua Seleção, sua galinha dos ovos de ouro, não consegue nem lá fazer um trabalho elogiável sob qualquer aspecto”, finaliza Ricardo.
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