Tenha paciência você, Ancelotti!
Supervalorizado no futebol europeu, endeusado por clubes e contratado a peso de ouro para dirigir a Seleção. Trabalho do nosso técnico é um lixo
O artigo critica Carlo Ancelotti após o empate da Seleção Brasileira com a Austrália, reprovando sua postura complacente e o pedido de paciência diante da falta de evolução tática e de identidade da equipe. O autor afirma que trocar peças não basta e que o treinador falha ao tentar mascarar o mau desempenho. Por fim, argumenta que o verdadeiro problema reside na base nacional, que perdeu a essência de formar atletas criativos e irreverentes, tornando inútil a busca por soluções externas.
Há declarações que explicam mais do que uma entrevista inteira. A de Carlo Ancelotti depois do empate em 1 a 1 com a Austrália é uma delas.
"Não é o início de um novo ciclo, é a continuação de um ciclo que começou no ano passado", disse o treinador. Depois, completou que era preciso ter paciência e que o resultado "não foi nem positivo nem negativo".
Ora, continuação de quê, Cacilda?
Depois da eliminação para a Noruega na Copa do Mundo, o próprio Ancelotti havia chamado aquele momento de "início de um novo ciclo". Agora, ao primeiro tropeço da nova temporada, muda o léxico e transforma a reconstrução em continuidade. É uma matemática verbal que não resolve o problema dentro de campo.
E o problema é justamente esse: não há evolução. Ponto.
O Brasil empatou com a Austrália, sofreu para criar, precisou buscar o empate nos minutos finais e deixou novamente a impressão de uma equipe sem alma, sem fluência e sem uma ideia que sobreviva às circunstâncias do jogo. O treinador, entretanto, enxerga uma partida que não foi "nem positiva nem negativa".
Como assim?
Se uma Seleção Brasileira não consegue se impor contra a Austrália e termina o jogo precisando de um gol no apagar das luzes para evitar a derrota, o diagnóstico não pode ser tão asséptico. Não é preciso transformar um amistoso em tragédia nacional, mas também não se pode tratar um sinal de alerta como se fosse uma paisagem neutra.
E então vem a palavra mágica: paciência.
Paciência com o quê, Cacilda?
Com uma equipe que já passou por um Mundial sob o comando do treinador? Um trabalho que, segundo o próprio Ancelotti, não está começando agora? Com uma reformulação que troca jogadores, mas não consegue devolver à Seleção uma identidade?
Paciência é virtude quando existe construção. Quando não se enxerga construção, ela corre o risco de virar complacência.
Ancelotti decidiu abrir espaço para jovens e testar jogadores. Isso, por si só, não é problema. O problema é confundir renovação com simples substituição de peças. Colocar caras novas em uma camisa pesada não significa, automaticamente, produzir uma Seleção nova.
O Brasil não precisa de uma procissão de novidades. Precisa de jogadores capazes de acrescentar alguma coisa.
E aqui, inclusive, está o ponto que considero mais grave: o futebol brasileiro está procurando fora aquilo que deveria voltar a produzir dentro.
Fomos buscar um dos treinadores mais laureados da Europa porque perdemos a confiança na nossa própria capacidade de formar e conduzir uma Seleção. Só que nenhum italiano, espanhol, português, seja lá onde tenha nascido, conseguirá devolver ao Brasil aquilo que deixamos escapar nas categorias de base.
O resgate precisa começar ali.
Precisamos voltar a formar o jogador que recebe a bola e parte para cima. O meia que enxerga o passe improvável. O ponta que encara o marcador. O atacante que improvisa. O garoto que aprende a decidir, não apenas a obedecer.
O futebol brasileiro ficou excessivamente afeito à cartilha e desaprendeu a irreverência.
E não existe prancheta capaz de fabricar isso aos 25 anos.
Ancelotti tem responsabilidade, evidentemente. Mas dado o peso de ouro de sua contratação e seu currículo abarrotado de títulos por clubes europeus, seu trabalho é um lixo até aqui. Lixo. Zero.
Pior do que o 1 a 1 com a Austrália é a naturalidade com que o resultado foi recebido.
"Nem positivo, nem negativo."
Ora, Ancelotti, tenha paciência você!
Assim, para quem acompanha a Seleção há décadas, essa frase soa quase como um epitáfio.
O Brasil não precisa de eufemismo. Precisa de futebol.
E, antes de pensar em 2030, precisa responder a uma pergunta incômoda: quando foi que deixamos de ensinar nossos meninos a jogar?
É aí que está o verdadeiro trabalho de reconstrução.
Porque, se continuarmos apenas trocando nomes, convocando jovens e pedindo paciência, poderemos chegar à próxima Copa com uma Seleção perfeitamente renovada — e igualmente incapaz de dizer ao mundo quem é.
O Brasil não precisa de um novo ciclo. Precisa resgatar a própria identidade.
Siga nosso conteúdo nas redes sociais: Bluesky, Threads, Twitter, Instagram e Facebook.
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.