Vicky Farfus destaca inspiração em seu pai, Augusto Farfus, mas mira construir seu próprio legado
A brasileira conta sobre os desafios de construir sua trajetória no automobilismo, a pressão pelo sobrenome e a busca pelo sonho da F1
Aos 15 anos, Vicky Farfus já conhece de perto alguns dos desafios enfrentados pelas mulheres no automobilismo. Desde que iniciou no kart, aos 12 anos, a piloto brasileira enfrentou um ambiente ainda predominantemente masculino, enquanto construía os primeiros passos de sua carreira.
Em entrevista exclusiva ao Parabólica, a jovem piloto falou sobre suas experiências, dificuldades nas pistas e crescimento da participação feminina no esporte.
A curitibana foi uma das pilotos a participar dos dos testes de novatas da F1 Academy em Navarra. Na ocasião, ela foi a mais rápida após marcar a volta de 01min46s988. Ao falar sobre o papel da categoria em atrair mais meninas para o automobilismo, Farfus disse:
“A F1 Academy, com certeza, influenciou muito as escolhas das meninas. Competir junto com a Fórmula 1 é uma oportunidade gigante, uma visibilidade muito grande. O número de meninas continua crescendo e eu espero ser uma inspiração no futuro para que elas possam acreditar que conseguem chegar lá”.
Iniciando no kart aos 13 anos, Vicky também relatou ter sofrido com os adversários pelo fato de ser uma menina na pista. A jovem piloto destacou a diferença de tratamento que os meninos tinham com ela:
“Não tem nenhum menino que quer ver uma menina na frente. A maior decepção que um menino tem é ver uma menina ser mais rápida que eles. Eles acabam se focando em: ‘se eu não for mais rápida que ela, acabou para mim’.”
“É sempre muito mais difícil ser uma menina. Eles lutam muito mais, são mais agressivos. Quando eles me veem na frente, ainda mais com o carro rosa, eles ficam ainda mais nervosos.”
Apesar da presença feminina estar crescendo dentro das pistas, a curitibana afirmou que a diferença de tratamento ainda existe, ressaltando que o talento é o predominante no esporte, independente do gênero.
“Ainda existe uma diferença, mas eu acho que talento, dedicação e desempenho não tem gênero. Esse é um dos poucos esportes que a força física não é predominante. No automobilismo você não precisa ter a mesma força que um homem.”
Hoje, vemos mais atletas mulheres conquistando espaços em grandes campeonatos, como pilotos fixas e de desenvolvimento também. Esse é o caso de Doriane Pin, que além de atuar no WEC e na Fórmula E, também participa do desenvolvimento da Mercedes na F1.
A francesa é a atual campeã da F1 Academy e se tornou a primeira mulher a guiar um carro de Fórmula 1 em onze anos.
“Eu acho muito inspiradora a história dela, ser campeã da F1 Academy e conseguir dirigir um carro na Fórmula 1, que é um sonho de quase todo mundo. Só poder sentar dentro do carro e dar uma volta é um sonho gigante que muita gente tem, então eu acho que ela conseguiu inspirar muitas meninas mais jovens.”, comentou Vicky sobre o feito de Pin.
Ela também destacou sua admiração por Suzy Wolff, ex-piloto e atual diretora executiva da F1 Academy.
“Suzy Wolf vai sempre ser minha ídola. Ela conseguiu disputar quando tinha bem poucas meninas e conseguiu ser a mulher de mais sucesso do automobilismo. Mesmo não chegando na Fórmula 1, conseguiu crescer muito, fazendo uma categoria para ajudar as meninas chegarem lá.”
Sendo citada como uma das promessas do automobilismo brasileiro desde cedo e tendo que saber lidar com a pressão, Vicky afirma que transforma esse peso em energia para melhorar cada vez mais:
“Eu sinto isso como uma motivação para poder mostrar para o mundo e para os brasileiros que uma mulher, ainda mais brasileira, consegue chegar lá.”
A curitibana também fez parte do programa de jovens talentos da Iron Dames, uma equipe voltada para a visibilidade feminina no automobilismo. Vicky comentou sobre a importância do projeto em sua carreira e em sua evolução física e mental.
“Em 2024 eles escolheram oito meninas para ir treinar na Espanha. Era a minha primeira vez em um kart júnior, então foi um pouquinho mais difícil para mim e as meninas tinham mais experiência que eu.”
“Sou grata ao que a Débora, dona da Iron Dames, fez por mim, ao quanto ela me ajudou na minha carreira do kart e na minha evolução também como piloto. Iron Dames me auxiliou a atingir o meu melhor potencial, a dar o meu 100% sempre.”
“Saber levantar de novo, se motivar, acordar e recomeçar tudo do zero para o próximo dia é uma coisa que todo piloto precisa ter, porque não é todos os dias que você vai ganhar.”
Crescendo em uma família ligada ao automobilismo, Vicky nos contou que essa paixão não surgiu logo de início apesar de acompanhar de perto a carreira do pai, Augusto Farfus, e gostar de vê-lo pilotar.
“Eu praticamente nasci no automobilismo. Sempre assisti o meu pai, então, achava um máximo ele correr, mas eu nunca imaginei estar sentada lá dentro do carro.”
“Eu fazia todo o esporte possível, até que um dia eu falei para o meu pai que queria tentar. Então, comecei no kart e meu pai viu que eu tinha jeito para isso. Decidi continuar e ele me colocou no campeonato italiano, o mais alto no kart.”
A piloto contou sobre sua primeira experiência no kart, destacando o nervosismo do momento e a importância em ter seu pai a apoiando, além de ser seu principal mentor:
“Eu fui para a qualificação chorando de nervosismo, mas ele falou para mim: ‘fecha a tua viseira, não mostra para ninguém e vai’. Quando eu voltei, estava com o maior sorriso no meu rosto. Foi naquele momento que senti a adrenalina que decidi que era o que eu queria pra minha vida”, declarou a brasileira.
Seu pai, Augusto Farfus, atualmente é piloto de GT, sendo um multi campeão nas corridas de 24h (Dubai, Nurburgring e Daytona) e recém vencedor das 6 Horas de Fuji com a BMW #32. Sendo uma figura experiente no automobilismo, a jovem destacou a importância de Augusto ao seu lado na carreira:
“É muito bom porque ele já passou por isso. Ele já errou e já sabe o que é certo e o que é errado. Então, ele me ajuda antes, me avisa, me dá conselhos na pista, me fala direto o que eu estou errando, o que eu poderia ter feito melhor ou o que eu fiz muito bem.”
“Eu aprendo muito mais rápido com ele do meu lado. Desde pequena ele me fala: ‘Tudo o que você quer, você consegue’. Eu vou levar isso para o resto da minha vida.”
Apesar das vantagens em ter um atleta renomado na família, também existe um lado muito comum que todo filho de piloto vive: a pressão de carregar o mesmo sobrenome.
“Existe uma pressão a mais, mas eu tento não pensar nisso e focar em dar o meu melhor de todos os jeitos. Todo mundo sabe quem é meu pai e todo mundo sabe que eu sou filha dele, mas eu quero construir o meu nome.”
“Eu tenho muito orgulho da carreira que ele construiu, saindo de Curitiba, chegando em Mônaco, no nível mais alto de GTs. Então, eu me orgulho em ser conhecida como filha do Farfus, mas eu quero crescer mais que ele. Não quero ser reconhecida apenas como a filha do Farfus.”
Apesar de ter a F1 como meta definida, a piloto também não descarta outras categorias:
“Eu quero muito ser a primeira brasileira a chegar na Fórmula 1, mas eu acho muito legal o Hypercar, onde o meu pai desenvolveu o da BMW. Ele fala que é um carro maravilhoso. Ou quem sabe na classe do meu pai também (GT3), seguir os passos dele”.
Ainda jovem, Vicky já entende que para construir uma carreira no automobilismo é necessário superar desafios dentro e fora das pistas, reconhecendo a necessidade de evoluir através de cada um deles e de lidar com a pressão de carregar um sobrenome conhecido.
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