Betinho Marques: o Galo é verbo da melodia
O Atlético é cabeça e coração. O seu problema e a sua própria salvação
O texto reflete sobre a essência emocional do atleticanismo, mostrando que a paixão pelo Atlético Mineiro supera qualquer lógica cartesiana ou racionalidade. O autor retrata como o clube dita o humor e a vulnerabilidade do torcedor mais endurecido, unindo força e fragilidade no mesmo sentimento. Mais do que tática ou números, a identidade alvinegra é movida pela poesia, pela arquibancada e por uma conexão abstrata e comunitária, onde o Galo representa tanto o sofrimento quanto a redenção de sua gente.
O que move o mundo é a poesia. Muitas vezes, os seres concretos querem tocar tudo, querem matematicar até o sentimento. Faltam-lhes a fé, Tomé e, talvez, um café. Porém, muitos não sabem que até a aritmética quer ser menos cartesiana. De vez em quando, ela escapa no miocárdio do que não se controla, ela "estatística", interpreta e também chora com o gol do Cuello que escorre na boca, depois ela se justifica com a nota Sofascore.
Mas sabe o "cabra" mais durão, aquele que se diz pouco sensível e que é mais forte que a Benzetacil? Pois é! Responda pra mim: qual é o primeiro a chorar com um copo na mão quando o Galo joga? É ele, o "Cabrão" que aguenta tudo, mas não consegue assistir a uma disputa de pênaltis do GALUDO.
Pois bem, senhores! O Galo é isso na vida de um atleticano. A pessoa pergunta como será a semana? A resposta é: depende. Depende da quarta-feira para, na quinta-feira, ter o "bom dia"; caso contrário, como mineiros economistas, vai só o "dia" e tá "bão" demais. Não adianta tentar ser normal, parecer ser forte como os ministros do STF — em outras épocas citaria o Batman, Homem-Aranha ou He-Man —, é preciso entender que, se tu és atleticano, a força e a fraqueza vêm do mesmo lugar. Não adianta colocar a toga, no máximo você é da TOG, logo, você não é ministro, você é sinistro, mas ainda vulnerável, vulnerável ao Galo.
O atleticanismo sobrevive ao trabalho sob pressão, à agonia, insônia, fome, injustiças, mas não resiste ao gol do Vitão com a arquibancada de concreto se derretendo conectada ao gramado de jogo. Não queira treinar sua mente para enrijecer, nem venha de mindset. O Galo que está em ti não permite, não porque sejas frágil, muito pelo contrário, o Atlético é forte exatamente pela casca dura das inúmeras injustiças e mazelas que o seu povo viveu. No entanto, a dicotomia é: a força e fraqueza do Atlético vem de si, do interior do seu interior…
Sobrevivendo ao caos
Já percebeu que uma guerra civil entre atleticanos dói mais que uma discussão com os seus rivais? Sabe por quê? Porque dói MUITO brigar com quem é parte da gente. O atleticanismo sobrevive ao caos extremo e externo, mas o mesmo povo vai às ruínas quando a arquibancada da sua gente se divide. Em síntese: o mundo não destrói ou salva o Atlético, mas o povo preto e branco sim, ele consegue as duas coisas. O Galo é a sua gente, mesmo com dor de dente.
Certa vez, Johan Cruyff disse: "jogar futebol é muito simples, mas jogar futebol simples é a coisa mais difícil que há". De forma análoga, podemos criar um paralelo galista: gritar Galo é muito simples, são apenas quatro letras, o canto é cativante, o povo faz tudo pelo escudo, mas o mais difícil é tentar entender por que tanta gente cartesiana se torna "frasista" e subjetiva se encontrando no mesmo lugar.
A matemática perdeu? Não, jamais. Ela apenas entendeu, como René Descartes, que Galo, logo existo. Ela entendeu, como o mesmo físico, que "viver sem filosofar é propriamente ter os olhos fechados sem nunca os tentar abrir."
O espírito do Galo
O Atlético é cabeça e coração, assim vive um "cartesiano atleticano" que filosofa chorando em cobrança de lateral e já sonha em comprar passagem para a Colômbia. Inclusive, René me lembra Reinier e você já sabe: Florentino Pérez não erra.
A poesia é muito mais matemática e atleticana do que podemos compreender. Afinal, quanto tempo, dinheiro e agenda você ajustou para crer no amor, num mundo melhor, tudo partindo do Everson para salvar, mas aí, o intangível, o não planejado te entrega de bandeja um fim de película com roteiro do Spielberg e aí, do nada, você é salvo pelo Gabriel Delfim?
Diga-me, Cabra, você imaginou que o time da virada iria virar mais outra vez? Mas com Hat-trick do Delfim? O que você controla, Zé Fortão? Você suporta tratamento de canal sem anestesia. Mas não segura a onda quando o Thiago Scap lidera a Rua de Fogo, ali sai água dos seus olhos. Você é apenas um personagem que depende do Galo para ser forte ou vulnerável.
Assim, você, como eu, gosta do concreto armado da arquibancada, mas o que você ama não se toca, não é tangível. Você, amigão leitor, edifica no concreto para se conectar com o abstrato. A matemática atleticana é muito mais poética do que se possa imaginar. O grito de Galo é simples, são só quatro letras, difícil mesmo é explicar a transformação de sê-lo.
Enfim, o Galo é o seu problema e a sua própria salvação. Alegria ainda que tardia, o Galo é verbo da melodia.
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