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CPI do Senado dá de goleada na da Câmara
Sábado, 11 Novembro de 2000, 14h39

Brasília - Em menos de um mês de funcionamento, duas CPIs instaladas no Congresso Nacional começam a dar prova de que, além de incomodar empresários, grandes astros do meio desportivo e cartolas, podem transformar-se em paixões nacional, como o objetivo de suas investigações: o futebol. Na Câmara se investiga o contrato da Nike com a Confederação Brasileira de Futebol (CBF), enquanto que a do Senado é mais abrangente e quer levantar mais sobre este esporte. Porém, uma coisa já é certa: depois das duas CPIs, o futebol brasileiro não será mais o mesmo.

Talvez por ser formada por políticos mais experientes - ex-governadores ou inquisidores tarimbados - e com uma assessoria altamente especializada em investigação, a CPI do Futebol no Senado esteja mais avançada. Até agora, aprovou 51 requerimentos que atingem desde o "feudo" onde se abrigam os empresários de jogadores até pequenas agremiações que, a exemplo do que faz boa parte dos chamados grandes clubes, não recolhem a contribuição previdenciária de seus jogadores.

Além disso, os senadores já receberam o resultado de três sigilos bancários dos 40 pedidos nos três únicas sessões realizadas até agora: a do treinador Wanderley Luxemburgo, da CBF e da empresa Traffic, que intermediou o contrato entre a CBF e a Nike. Mas, a grande esperança é encontrar fatos novos na quebra de sigilo de 26 empresários de jogadores, além das empresas Luxemburgo Veículos e Rhumell, patrocinadora de material esportivo de grandes clubes de futebol e as ainda desconhecidas "cláusulas secretas" do contrato da Nike e CBF.

Ao contrário da CPI do Futebol que promoveu um festival de quebra de sigilos bancários, a CPI da Nike, na Câmara, só aprovou até agora quatro pedidos para abertura das contas: a da CBF e da Traffic, e as de seus respectivos presidentes, Ricardo Teixeira e José Hawilla.

Mas, na próxima terça-feira, esta lista poderá ser maior chegando a se igualar com a CPI do Senado, por causa da quebra dos sigilos de todas as federações de futebol. A mais esperada é a da Federação Paulista de Futebol, cujo presidente, José Eduardo Farah, surpreendeu com a revelação, na semana passada, de que deixará o cargo até o fim do ano e transformará a federação em uma liga. Integrantes da CPI acham que a decisão de Farah foi uma reação à quebra do sigilo da federação.

A competição entre a CPI instalada na Câmara e a no Senado resultou na coincidência de solicitações ao Banco Central. As duas comissões querem que o BC envie informações sobre as divisas geradas pela transferência de jogadores a clubes estrangeiros, nos últimos quatro anos. O banco já abriu 22 inquéritos contra 22 clubes que teriam praticado sonegação de divisas. E para a CBF, os deputados pediram o nome de todos os atletas convocados para a seleção brasileira.

Além disso, querem os contratos de transmissão dos jogos assinados pela CBF e federações com emissoras de TV.

De acordo com o presidente da CPI do Futebol, senador Álvaro Dias (PSDB-PR), o Banco Central e a Receita Federal já deram mostras de que pretendem colaborar com as investigações da melhor forma possível. Também encaminhou à comissão um relatório com 22 processos sobre a compra e venda de jogadores para o exterior.

Comparando os valores apresentados por clubes e federações, o banco constatou que houve uma "diferença de valores" - ou sonegação dos valores negociados - de US$ 42,5 milhões. "A CPI vai revelar uma evasão muito grande de recursos público", previu Dias. "O futebol é paixão, mas tem sido sobretudo uma atividade econômica."

Para o relator da comissão, senador Geraldo Althoff (PFL-SC), as apurações feitas até agora, apesar de atingirem os suspeitos de denúncias apontadas pela imprensa, estão em fase inicial. Haverá outra fase, que ele chama de "estratégica", cujo alvo serão os "indícios" de irregularidades colhidos sobretudo nos 19 depoimentos programados.

O feriado do dia 15 obrigou a comissão a marcar para a semana que vem os depoimentos de Wanderley Luxemburgo e da presidente do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), Adrienne de Senna, responsável pelos processos de irregularidades descobertas 1.125 operações de bingos. Mas, antecipou o do ex-jogador Wilson Piazza, que dirige uma associação de jogadores profissionais.

Tarimbados que são, e receosos com algumas atitudes que quase desacreditaram a CPI do Narcotráfico por causa da pressa em quebrar sigilos, Dias e Althoff não adiantam que atitude tomarão se não houver atendimento de seus requerimentos. Pelo regimento interno, eles podem tomar uma atitude rígida, que inclui prisão. E este foi o motivo que tornou a CPI do narcotráfico uma das mais populares do País.

Agência Estado


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