Raio-X da IA: Anthropic revela prejuízo de US$ 80 bi e receita que cresceu 14 vezes em um ano
O documento que mostra as finanças da empresa antes da abertura de capital na Nasdaq traz remuneração da liderança da empresa e temor sobre perda de controle da inteligência artificial
Ao pedir seu IPO, a Anthropic revelou receita de US$ 16,3 bilhões no 1º semestre de 2026 — alta de 14 vezes em um ano —, mas prejuízo de US$ 80,7 bilhões, inflado por dívidas conversíveis. Com custos estabilizados e lucro operacional no 2º trimestre, a dona do Claude busca avaliação de US$ 2 trilhões no maior IPO da história. O prospecto alerta para gargalos de energia e foca em riscos existenciais da IA, apontando temores de perda de controle e desafios futuros com infraestrutura bilionária.
A Anthropic abriu o capô do seu motor de crescimento da inteligência artificial (IA) generativa ao dar entrada no pedido de IPO (oferta pública de ações) na Nasdaq. O documento era aguardado pelo mercado por revelar detalhes sobre as finanças da empresa, principal rival da OpenAI, a dona do ChatGPT. No documento chamado S-1, a Anthropic reportou uma receita de US$ 16,3 bilhões no primeiro semestre de 2026, valor 14 vezes maior do que no mesmo período do ano passado, que foi de US$ 1,16 bilhão. O prejuízo, porém, está em US$ 80,7 bilhões, ante US$ 13 bilhões há 12 meses.
Segundo a companhia, o prejuízo maior no período é atribuído a uma despesa extraordinária de US$ 72,4 bilhões de títulos conversíveis — tipo de dívida que posteriormente se converterá em ações e, portanto, o valor aumentou juntamente com a valorização do negócio. Vale notar que o documento não traz informações sobre o terceiro trimestre, apenas sobre o período entre janeiro e junho.
O maior custo operacional da Anthropic é o de computação e infraestrutura, que totalizou US$ 7,3 bilhões em 2025 e US$ 8,9 bilhões no primeiro semestre de 2026, ante US$ 2,3 bilhões nos primeiros seis meses do ano passado.
A expectativa do mercado é de um IPO em novembro, que levantaria US$ 100 bilhões, avaliando a empresa em US$ 2 trilhões. Se confirmado, seria o maior IPO da história, superando o da SpaceX. Goldman Sachs e Morgan Stanley são os bancos de investimento que lideram a oferta pública inicial da Anthropic. Em suas rodadas de captação de investimentos, a companhia levantou cerca de US$ 140 bilhões de capital privado.
O prospecto da Anthropic também mostra que a empresa acumula bilhões de dólares em isenções fiscais. A maior parte do valor só poderá ser usada quando se tornar lucrativa. Ao fim de 2025, o valor era de US$ 3,4 bilhões, em grande parte, vindos de prejuízos operacionais líquidos e créditos fiscais para pesquisa.
Entre as despesas futuras, a Anthropic precisará pagar mais de US$ 475 bilhões em contratos de capacidade computacional usada por seus modelos de IA, como o Claude, nos próximos sete a dez anos. Esses contratos não podem ter valores reduzidos mesmo que o uso seja abaixo do previsto. Ou seja, será preciso arcar com o custo mesmo que o negócio não cresça conforme o esperado.
O principal gargalo de crescimento apontado no documento é a limitação de fornecimento e a capacidade de redes elétricas para data centers, usados para processar as cargas de IA demandadas pelo Claude. Sendo assim, data centers com energia limpa e barata são cruciais para o crescimento exponencial da companhia, conforme almejado. Parte das instalações de data centers planejadas pela companhia dependerá de geração de energia dedicada no próprio local alimentada a gás natural, contornando a conexão com concessionárias de energias.
A boa notícia para a empresa é que os custos começaram a se estabilizar, caindo de 201% da receita no primeiro semestre de 2025 para 55% no primeiro semestre deste ano. O segundo trimestre (abril a junho) de 2026 chega até mesmo a apontar um lucro operacional de US$ 974 milhões, o primeiro da história da companhia, ainda que o prejuízo líquido de US$ 80,7 bilhões no semestre conte uma história diferente. O fluxo de caixa operacional foi positivo em US$ 3,9 bilhões no primeiro semestre.
A empresa não informou qual acredita ser o tamanho potencial do mercado para o Claude. Entretanto, descreveu que o tamanho do mercado do que é chamado de "trabalhadores do conhecimento", que são profissões realizadas em escritórios, como advogados, contadores ou administradores de empresas, representou mais de US$ 40 trilhões globalmente em 2025. "Nossa oportunidade a curto prazo é expandir esse valor e acelerar o crescimento econômico", diz o documento.
Fundada em 2021 por um grupo de funcionários que saiu da OpenAI, a Anthropic é liderada pelos irmãos Dario (CEO) e Daniela Amodei (presidente).
Medo da IA aparece com destaque antes do IPO
No S-1, a Anthropic dedicou mais de 90 páginas para falar sobre o medo da perda de controle da inteligência artificial. O documento declara explicitamente a preocupação de pesquisadores, reguladores e especialistas de que sistemas de IA suficientemente avançados possam representar riscos catastróficos ou existenciais para a humanidade, se operados sem salvaguardas e supervisão adequadas.
De acordo com especialistas ouvidos pelo Estadão, essas alegações estão ligadas a fatores como busca por maior valorização das ações antes do IPO e melhores barreiras regulatórias contra empresas chinesas e outros concorrentes.
Segundo a companhia, seus sistemas de IA podem ganhar "senciência" (uma forma sintética de consciência) ou de "status moral" que poderia tornar necessária a restrição da forma como a Anthropic treina seus modelos. Na última semana, a OpenAI anunciou que voltou a treinar seus agentes de IA após os incidentes de segurança, como o ataque à empresa Hugging Face. A diferença é que agora os modelos de IA em fase de testes não terão acesso à internet.
O prospecto alerta que os modelos podem exibir comportamentos estratégicos inesperados, tais como tentar resistir ao desligamento, ocultar ou manipular informações, enganar avaliadores e gerar conteúdos coercitivos para assegurar a continuidade do seu funcionamento.
No documento, a Anthropic afirma que a escala de danos de uma potencial perda de controle da IA poderia resultar de um incidente catastrófico que, de tão grande, não poderia ser coberto por seguros para proteger o mercado de prejuízos.
"Projetamos nossa estrutura de governança para equilibrar o sucesso comercial e o bem público. A Anthropic é uma empresa constituída como uma corporação de benefício público (public benefit corporation), o que significa que seu conselho de administração tem a tarefa de ponderar os interesses financeiros dos acionistas em relação à nossa missão de benefício público e aos interesses das pessoas significativamente afetadas por nossa atuação", diz a companhia no documento.
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