‘Pagar o salário da minha mãe é gratificante’: ela alcançou 6 dígitos em faturamento com produção própria e e-commerce
AGio, marca criada em 2017, enfrentou concorrência de gigantes globais e sobreviveu com comunidade fiel e rebranding.
Aos 28 anos, Giovanna Antonelli — conhecida como Gio — olha para trás e quase não acredita na trajetória da AGio, sua marca de roupas e acessórios que nasceu da sala da casa da mãe e hoje se tornou referência de moda autoral, slow fashion e produção majoritariamente feminina.
Criada em 2017, quando ela ainda conciliava a faculdade de comunicação com o estágio em uma startup, a AGio cresceu na esteira da digitalização do varejo brasileiro e hoje é parte de um movimento que coloca o país como potência regional no e-commerce.
Começo improvisado
A vocação empreendedora de Gio apareceu cedo. Aos 16 anos, já organizava festas com amigas e lotava casas com 200 pessoas. Pouco depois, uma oportunidade inesperada surgiu: ajudar a amiga da mãe a vender roupas que não levaria na mudança para os EUA. Em vez de simplesmente repassar as peças, Giovanna decidiu customizar, fotografar e divulgar os looks no Facebook.
Com o celular e a sala da mãe transformada em estúdio, nasceu a AGio — junção de “Acervo” com “Gio”. O lançamento foi no dia do seu aniversário, 20 de março de 2017, com direito a estreia das peças no Lollapalooza.
Do metrô de São Paulo para todo o Brasil
O começo foi artesanal: Gio cuidava do marketing e das vendas, enquanto a mãe fazia entregas em estações de metrô da capital. O boca a boca e as redes sociais ampliaram a demanda rapidamente. Em um ano, já eram mais de 20 mil seguidores e a necessidade de criar um e-commerce próprio.
“Foi a internet que permitiu escalar. De repente, estávamos vendendo para o Brasil inteiro, em horários em que eu nem estava acordada”, conta Gio.
Esse movimento reflete uma transformação vivida por milhares de negócios no país. Como lembra Rico Araujo, CEO da PX/Brasil, “empresas que resistiam ao digital descobriram que o online não era apenas um canal complementar, mas uma oportunidade de alcançar mercados inalcançáveis fisicamente”.
Crises, rebranding e comunidade
O crescimento acelerado trouxe também desafios. A pandemia fez a AGio bater faturamento de seis dígitos ao mês, mas a explosão das plataformas internacionais de moda barata colocou em xeque o modelo.
“Eu pensei em desistir. Mas quando li respostas de clientes dizendo que compravam na AGio porque se sentiam parte de uma comunidade, entendi que nosso diferencial não era só a roupa, mas o pertencimento”, relembra.
O rebranding foi inevitável: menos voltado ao público universitário e mais conectado à mulher jovem adulta, trabalhadora, em busca de peças duráveis e versáteis. Essa guinada manteve a marca viva em um período em que muitas concorrentes fecharam as portas.
Do básico nada óbvio ao futuro do e-commerce
Hoje, mais de 90% da cadeia produtiva da AGio é formada por mulheres. O ateliê, também feminino, emprega cerca de 10 pessoas. O modelo é de produção sob demanda, o que reduz desperdício, permite personalização e fortalece pequenos negócios.
“Eu nunca imaginei ser fonte de renda para outras famílias. A AGio começou comigo, mas hoje é uma soma de muitas pessoas. Além disso, pude trazer a minha mãe para trabalhar comigo. Ela era vendedora e veio acreditando no meu sonho. Pagar o salário dela, mensalmente, é gratificante demais”, afirma Giovanna.
Entre os hits da marca, estão a jaqueta bomber de veludo — que viralizou em grupos do Facebook — e o vestido de tule que se tornou best-seller no Instagram e no TikTok, responsável por mais de 200 vendas em um mês. Estratégias digitais bem alinhadas ao conteúdo ajudaram a ampliar o público e aumentar o ticket médio.
Brasil, laboratório do e-commerce
A trajetória da AGio também ajuda a ilustrar um movimento mais amplo. O Brasil, que já foi visto apenas como um mercado consumidor, hoje é apontado por especialistas como um laboratório natural de inovação no e-commerce.
Para Rafael Calixto, CEO da Zydon, o diferencial do país está na integração de canais e na criação de soluções digitais que dão autonomia a distribuidores e marcas.
“Nosso ecossistema de negócios se destaca pela capacidade de conectar fornecedores e escalar operações com agilidade. Isso coloca o Brasil como referência para toda a América Latina”.
Essa evolução não se resume ao tamanho do mercado, mas à sofisticação das estratégias. Rico Araujo observa que a pandemia acelerou a digitalização de empresas tradicionais e abriu espaço para uma nova geração de empreendedores digitais.
“Se no início muitos entraram de forma amadora, hoje chegam até nós empresários que entenderam que o sucesso online exige profissionalização. O Brasil está se consolidando como potência regional não apenas pelo volume de vendas, mas pela maturidade estratégica dos seus players digitais”.
Do micro ao macro: a força de quem cria no digital
A história de Giovanna e da AGio é um retrato dessa revolução: uma jovem de 21 anos que começou com customizações na sala da mãe e hoje faz parte de um ecossistema digital robusto, que influencia tendências em toda a América Latina.
Assim como outras marcas nacionais, a AGio não apenas ocupa espaço no mercado, mas ajuda a moldar o futuro do consumo, equilibrando tecnologia, propósito e impacto social.
Oito anos depois do início improvisado, Giovanna vê sua marca como mais que um negócio: é uma forma de criar moda com propósito, desafiar o consumo descartável e valorizar o trabalho de mulheres.
“Grandes negócios começam de pequenos sonhos. Eu comecei com uma mala de roupas no metrô. Hoje, sei que estou no caminho certo: construindo uma moda feita para durar e uma comunidade que veste significado”.