De aviação ao varejo: guerra no Oriente Médio eleva custos e muda planos de empresas
Alta do petróleo, do querosene de aviação e dos fretes leva companhias a rever estratégias para os próximos trimestres; expectativa é que cenário eleve inflação e atrapalhe ritmo de queda nos juros
Empresas de diferentes setores, da aviação à moda, já começam a sentir os efeitos da escalada da guerra no Oriente Médio, iniciada em fevereiro. O aumento do preço do petróleo pressiona os custos de combustíveis, matérias-primas e logística e afeta o planejamento e o caixa das companhias.
Numa semana marcada pela divulgação do balanço do primeiro trimestre de 2026, o assunto foi um dos mais comentados pelos CEOs de empresas como C&A, Latam Airlines Brasil, Azul, Vulcabras, Gerdau e Usiminas, além dos grandes bancos.
Eles destacaram o aumento de despesas com petróleo, fretes e insumos derivados, além da preocupação com o avanço da inflação e possível reflexo no ciclo de queda dos juros. Para analistas e executivos, o cenário lembra os choques observados durante a pandemia, em meio a uma reorganização global de cadeias produtivas, alta da volatilidade e pressão sobre preços ao consumidor.
O presidente da Vulcabras, Pedro Bartelle, afirma que os efeitos econômicos provocados pelo conflito se assemelharam ao impacto causado pela pandemia da covid-19, sobretudo no início. "Começamos a ver que ia faltar matéria-prima, o preço do contêiner saltou e os custos subiram: tudo isso começou com um efeito muito parecido com o da pandemia. Hoje não é mais, mas há semelhanças", afirma o executivo.
Um dos paralelos é que as reuniões semanais de diretoria na companhia se tornaram mais frequentes agora, de maneira parecida com a época da crise sanitária, quando passaram a ser diárias. O executivo afirmou que teve de rever completamente a estratégia para 2026 diante da disparada nos custos de matérias-primas derivadas do petróleo. "Fizemos um orçamento para um cenário e tudo mudou. Aquela receita de dezembro já não funciona mais. Está muito incerto. Já nos adaptamos e agora estamos no meio da guerra", disse ele.
A empresa reajustou preços em até 15%, antecipou lançamentos e passou a priorizar produtos de faixa intermediária, apostando em uma migração do consumo para modelos mais baratos em meio ao cenário econômico mais pressionado.
A pressão sobre derivados do petróleo também chegou ao varejo de moda. O CEO da C&A, Paulo Correa, afirmou que a alta do petróleo tem pressionado os custos de materiais sintéticos utilizados pela companhia, como o poliéster. "A subida no preço do petróleo faz com que os materiais sintéticos, que de alguma maneira são derivados, acabem tendo um impacto maior nessa pressão de reajuste."
Segundo ele, o impacto dos custos mais altos de insumos sintéticos tem sido parcialmente compensado pela valorização do real frente ao dólar, o que ajuda os produtos importados. Apesar da pressão recente, o executivo afirmou que a companhia mantém conversas positivas com fornecedores e não identifica, por enquanto, riscos mais relevantes para as margens.
Se no varejo o impacto aparece nos insumos, no setor aéreo a pressão é ainda mais direta, por causa da disparada do querosene de aviação (QAV), cujo preço disparou nas últimas semanas. Em abril, a Petrobras reajustou em 55% o preço do combustível, mas permitiu que o porcentual fosse dividido em até seis vezes a partir de julho. Neste mês, o reajuste foi de 18%, o que significa R$ 1 por litro.
O CEO da Latam no Brasil, Jerome Cadier, disse que o preço do combustível tem avançado acima do petróleo em meio às tensões no Oriente Médio e atingindo níveis inéditos. "Muito se fala do petróleo, mas estamos com preços nunca antes vistos na indústria de aviação para o QAV", disse ele, durante apresentação dos resultados na semana passada. Ele criticou a proposta da Petrobras de parcelamento do aumento do QAV e disse que a medida não reduz os preços e ainda adiciona custo financeiro às companhias.
"O aumento será pago com custo financeiro. O problema não é financiamento, é custo. A gente precisa lidar com o nível de preços", reforçou o executivo. A Latam registrou impacto de cerca de US$ 40 milhões no primeiro trimestre de 2026 em função da alta do combustível. A companhia espera efeitos mais relevantes nos próximos meses, projetando despesas adicionais superiores a US$ 700 milhões no segundo trimestre. Diante desse cenário, revisou para baixo as projeções para o ano.
Na Azul, embora a preocupação com o combustível também esteja no radar, a leitura é de que a valorização do real frente ao dólar ajuda a aliviar parte da pressão. O CEO da Azul, John Rodgerson, destacou que isso acaba amenizando os impactos para as aéreas, já que grande parte dos custos está atrelada à moeda americana, incluindo o querosene de aviação e dívidas.
Uma semana antes, ele havia afirmado que a disparada do preço do querosene de aviação já força companhias aéreas a rever rotas, frequências e estratégias comerciais no mundo todo. Segundo ele, a companhia avalia cortes pontuais de voos e reajustes tarifários, mas busca preservar a conectividade em regiões estratégicas, priorizando ajustes operacionais em vez da eliminação total de rotas.
De olho no impacto que os aumentos podem ter nas passagens para o consumidor, o governo federal já desenha uma linha de crédito temporária para ajudar as companhias aéreas. O valor total seria de até R$ 1 bilhão, limitado a 1,6% do faturamento bruto anual de cada empresa. O teto estudado é de R$ 330 milhões por companhia ou conglomerado. A União assumirá o risco integral das operações.
Impacto macroeconômico
Para muitas empresas, além do aumento de custo decorrente da alta do preço do petróleo, as questões macroeconômicas influenciadas pelas incertezas também causam turbulência no planejamento. A Usiminas, por exemplo, avalia que o cenário econômico dos próximos trimestres como desafiador. A alta nos preços do petróleo e do gás natural, o avanço da inflação e a redução mais lenta das taxas de juros compõem um ambiente de incerteza na visão da empresa.
A companhia acredita ainda que o cenário é agravado pelo "risco de disrupção nas cadeias de suprimentos, principalmente no transporte marítimo de mercadorias". Apesar desse cenário, a expectativa é de manutenção dos volumes de vendas na siderurgia, mas com custos mais elevados em razão da pressão nos preços de matérias-primas, energia e fretes. Na unidade de mineração, a expectativa é de maiores volumes, porém acompanhados de custos mais altos relacionados a fretes marítimos.
Na mesma linha, o CEO da Gerdau, Gustavo Werneck, afirmou que os principais fornecedores de insumos da companhia têm procurado a empresa para renegociar preços, em função dos efeitos da guerra. "Não tem como não repassar a pressão de custos para frente; vai acontecer", disse o executivo. Ele afirmou ainda que há clientes com folga em seus balanços, mostrando margens maiores, o que possibilitaria esses repasses.
No varejo alimentar, o impacto já começa a aparecer, sobretudo nos produtos mais perecíveis e dependentes de logística rápida. O vice-presidente da Associação Brasileira de Supermercados (Abras), Marcio Milan, afirmou que a pressão tem sido mais intensa em frutas, verduras e outros itens frescos.
"O cenário vem nos preocupando. Não há perspectiva de acordo no curto prazo e, mesmo que ocorra, a normalização tende a demorar", afirmou Milan. Segundo ele, a tendência é que a pressão de custos se estenda para o segundo semestre, especialmente em regiões mais distantes dos centros produtores, onde o frete tem maior peso.
Apesar disso, o repasse ao consumidor final ainda varia entre as empresas, a depender de fatores como nível de estoque, oferta e estratégia comercial, em um ambiente ainda competitivo.
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