'Um dos maiores filósofos do século 20', diz Eugenio Bucci sobre Jürgen Habermas
Jornalista e professor da ECA-USP analisa importância do filósofo alemão, morto aos 96 anos neste sábado, 14
Um dos filósofos mais importantes do século 20. É assim que Eugenio Bucci, jornalista e professor da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), resume Jürgen Habermas, filósofo e sociólogo alemão que morreu neste sábado, 14, aos 96 anos.
Ao longo de mais de seis décadas de produção intelectual, ele construiu uma das mais ambiciosas teorias sobre como sociedades democráticas podem — e devem — se organizar pela força do argumento, não pela imposição do poder.
"A morte de Habermas vem marcar o desaparecimento daquele que foi, provavelmente, o maior ou um dos maiores filósofos do final do século 20. O pensamento dele se estende a partir do final da Segunda Guerra Mundial e vem até os nossos dias, sem sair de cena, sem perder o tônus e sendo sempre uma referência para debates intelectuais em todos os campos", diz Bucci.
A crítica a Heidegger foi um divisor de águas geracional na academia alemã. Ela sinalizava que uma nova geração de intelectuais não estava disposta a separar filosofia de responsabilidade histórica. Habermas, herdeiro da Escola de Frankfurt, seria fiel a esse princípio por toda a vida.
A modernidade como projeto inacabado
Depois, nas décadas de 1970 e 1980, quando pensadores como Michel Foucault, Jacques Derrida e Jean-François Lyotard começaram a questionar as bases da racionalidade moderna, Habermas foi um dos poucos a enfrentá-los. Para os pós-estruturalistas, toda razão era, no fundo, um instrumento de poder. A emancipação prometida pelo Iluminismo havia se revelado uma ilusão.
Habermas não aceitou essa conclusão. Para ele, o erro não estava no projeto moderno, mas em sua versão reduzida — a razão instrumental, voltada apenas para fins e eficiência. Havia outro tipo de razão, esquecida ou subvalorizada: a razão comunicativa, que emerge quando pessoas dialogam genuinamente em busca de entendimento mútuo. Era aí que residia a possibilidade real de emancipação.
"Habermas defendia que o projeto modernista não estava superado, que precisava ser corrigido e aprofundado", diz o professor. "Ele contrapunha a ação comunicativa, típica dos cidadãos em busca de liberdade, à ação estratégica, típica do poder. Esse embate com os pós-modernistas é um dos momentos mais conhecidos e mais momentosos de sua trajetória."
Democracia é comunicação
A contribuição de Habermas ao campo da comunicação vai além de uma teoria da mídia. Ele mostrou que a esfera pública — esse espaço de debate entre o Estado e a vida privada dos cidadãos — não é um lugar físico nem uma instituição formal. É uma prática comunicativa. Ela existe, ou deixa de existir, na medida em que as pessoas dialogam livremente e com igualdade de condições.
"Habermas é o primeiro a perceber que a esfera pública é um espaço social gerado pela comunicação. A esfera pública é tecida e constituída pelo exercício da comunicação entre os cidadãos. Ele produziu uma conexão necessária entre o exercício da comunicação no âmbito de cada pessoa e a própria tecidura da democracia", explica Bucci.
Essa tese tem consequências diretas para o presente. Se a democracia é constituída pela qualidade do diálogo público, então o enfraquecimento desse diálogo — pela desinformação, pela polarização ou pelo colapso das instituições mediadoras — é também um enfraquecimento da democracia. Não é uma metáfora. É uma relação de causa e efeito que Habermas descreveu com precisão.
"Muitas vezes, quando conseguimos perceber o declínio da democracia pela medida que percebemos o declínio da qualidade da comunicação, nós devemos também isso às ideias desenvolvidas por Habermas", contextualiza o professor da USP. "Poucos, como ele, entenderam os nexos profundos e determinantes entre a qualidade da comunicação e a qualidade da democracia".
Habermas ainda atualizou esses conceitos para o mundo digital. Muito recentemente, voltou a analisar a esfera pública à luz das redes sociais e dos algoritmos — mantendo, mesmo aos 90 anos, a capacidade de interagir com o presente. Para Bucci, essa longevidade intelectual é a melhor medida de sua grandeza: um pensamento que não envelheceu porque soube, sempre, renovar suas perguntas.