Com cenas de apedrejamento e agressão, Dona Beja aposta em coragem para mostrar luta contra opressão
Novela está sendo exibida na plataforma de streaming HBO Max e na Band
Quando foi exibida em 1986 pela Rede Manchete, a novela Dona Beija foi considerada ousada ao contar a história de uma mulher que se liberta e bate de frente com a sociedade brasileira de 1815. Em 2026, a novela ganhou uma releitura, atualmente exibida pela HBO Max e pela Band, que segue corajosa e com mais ousadia do que outras tramas na televisão.
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Daniel Berlinsky, autor da nova versão, conta em entrevista ao Terra que a maior preocupação dele ao escrever a história era não fugir do tema principal da novela original, que é o do empoderamento de uma mulher.
"O que seria essa mulher em 2026? Não é só o empoderamento de uma mulher, é o empoderamento do feminino e, portanto, de todos aqueles que resistem à opressão do masculino da nossa sociedade. É natural a diversidade estar ali, ela surge a partir do tema e se espalha para todos os personagens", diz o autor.
Na novela Dona Beja, de 2026, há personagens negros de diversas classes sociais, como o protagonista Antônio, interpretado por David Júnior, que é um advogado nascido em uma família rica. Além disso, há tramas LGBTs que não existiam originalmente.
Indira Nascimento, que interpreta Maria na trama, celebra estar em um elenco diverso. "Tem uma comunidade da qual eu faço parte, que é a comunidade LGBT e de mulheres negras, que é muito carente de representatividade ainda hoje. Existir uma personagem como a Maria, que pode discutir esses assuntos, que pode dar oportunidade para a gente pensar melhor sobre os afetos e a existência da mulher no mundo dentro desse contexto histórico, é muito precioso."
Histórias violentas
Logo no começo da trama, a protagonista Beja (Grazi Massafera) salva Severina (Pedro Fasanaro), uma mulher trans, de ser queimada viva em uma fogueira. Pedro, que é uma pessoa não-binária, conta que essa diária de gravações foi emocionalmente desgastante.
"Apesar de ser uma cena muito curta, ela tomou muito tempo para gravar. Passei muito tempo amarrado, vendo pessoas jogando pedras cenográficas. Isso existiu de fato, ver aquelas pessoas gritando palavras de violência, toda aquela agressão. Só de lembrar, já fico com o choro na garganta. Foi um dia que mexeu com vários gatilhos da minha vida e que, sempre que lembrar dessa diária de gravação, vai mexer com muita coisa na minha cabeça. Foi muito pesado", relembra Pedro.
Outra cena marcante que aparece logo no primeiro capítulo é de Candinha, personagem de Erika Januza, sendo arrastada por um homem pela rua e obrigada a se prostituir. A atriz considera que cenas assim são necessárias justamente para levar conscientização ao público sobre temas importantes. "Se a gente pode passar uma mensagem, por que não passar uma mensagem que toque aquela pessoa, que talvez possa impulsioná-la a tomar uma atitude que pode mudar a vida dela, mudar o pensamento ou, pelo menos, expandir o pensamento em relação a alguma coisa."
"A gente reproduz violência para discutir violência. Esse é o nosso interesse. A gente não quer incitar violência, pelo contrário. A gente vive em 2026 muitas violências que são debatidas nesse projeto", analisa David Júnior sobre a trama.
O autor de Dona Beja reforça o posicionamento do ator e diz que a novela é urgente dada a quantidade de feminicídios, casos de racismo e de violências contra a comunidade LGBTQIAPN+ que acontecem diariamente no Brasil. Por isso, quis contar uma história que mostre esses temas e mostre personagens querendo se encontrar e podendo viver como realmente são, sem tanta pressão da sociedade.
Um dos exemplos disso é a personagem Carminha, vivida por Catharina Caiado, que enfrenta comentários gordofóbicos dentro de casa e o preconceito por se apaixonar por um homem pobre. "Sinto que as mulheres ainda são muito dependentes do olhar externo. O medo de não pertencer, não agradar e não ser reconhecida nos lança em uma busca violenta de um corpo padrão que é inatingível - porque o sistema lucra com a nossa insatisfação. Questiono esse movimento porque acho que o corpo é livre para ser o que ele quiser, e eu acho tão lindos os corpos com curvas", diz a atriz.
Do outro lado dos mocinhos que sofrem com essas violências, há os vilões que as praticam, como é o caso de Ceci, interpretada por Deborah Evelyn. A artista tem um grande número de antagonistas no currículo e diz adorar dar vida a esse tipo de personagem, justamente por vivenciar algo tão diferente de si.
"Dentro dessa história, a Ceci serve como um alerta de que isso não é bom, é uma crítica. Não é à toa que ela é antagonista. A gente também faz as pessoas se mexerem através da crítica, mostrando uma coisa que não é boa. Se o público olha e fala: ‘Que horror! Que personagem é essa?’. Quer dizer que eles estão achando horrível isso que ela faz. Que bom!", comenta Deborah.
