Autores dividem o protagonismo de novelas entre vários intérpretes
A telenovela brasileira passou por profundas transformações de formato e conteúdo ao longo do tempo. Diante de folhetins cada vez mais dinâmicos e ágeis, o trabalho de criação dos autores foi se adaptando a uma demanda maior por histórias, personagens e cenas. É por isso que muitos escritores optam por descentralizar sua trama principal em vários personagens. Dessa forma, é possível dividir o "fardo" dos intérpretes, além de mexer e inventar novas situações com as novelas em exibição. "O público é ávido por agilidade. Nenhuma história consegue se manter em total ápice por tantos meses. É preciso ter a possibilidade de chamar a atenção para diferentes núcleos. Ter muitos protagonistas é a saída", garantiu Carlos Lombardi, autor de Pecado Mortal, sua novela de estreia na Record. Na nova trama, Lombardi conta com cerca de 10 personagens principais e acredita ter encontrado o equilíbrio ideal entre seus protagonistas, algo que ele já utilizou em folhetins como Quatro por Quatro, de 1994, e Pé na Jaca, de 2006.
O método é uma herança deixada a Lombardi e outros criadores por Cassiano Gabus Mendes, autor de clássicos das 19h como Corrida do Ouro, Marron-Glacê e Elas por Elas, novelas que inauguraram o "filão" de múltiplos protagonistas e que fizeram escola. Basta ver que, outra "discípula" de Cassiano, Maria Adelaide Amaral também apostou em vários protagonistas para a espinha dorsal de Sangue Bom, sua estreia autoral em novelas – antes ela só havia feito minisséries e remakes da obra de Cassiano. Na trama de apelo jovem assumido, Sophie Charlotte, Fernanda Vasconcellos, Isabelle Drummond, Marco Pigossi, Jayme Matarazzo e Humberto Carrão se dividem no posto principal. "Um personagem complementa o outro e o conjunto enriquece a novela. Dá muito mais trabalho, mas cria-se um mosaico interessante de vozes e posturas que identificam o folhetim", acredita Maria Adelaide.
Talvez por estar associado ao humor, o horário das 19h virou a faixa perfeita para a emissora abordar histórias descentralizadas. Tramas recentes como Morde & Assopra, Cheias de Charme e o remake de Guerra dos Sexos contavam com, no mínimo, quatro protagonistas. "O grande problema do autor é fazer com que todos os intérpretes fiquem felizes com o seu espaço e representatividade dentro da novela. A tarefa é árdua. Afinal, é no decorrer da trama que a gente consegue identificar o que mais agrada o público. E é claro que isso será evidenciado", entregou Silvio de Abreu. No caso de Izabel de Oliveira e Filipe Miguez, dupla responsável por Cheias de Charme, o êxito popular fez com que ambos tentassem escrever de olho em um certo "equilíbrio de forças" entre os papéis. "Acho que nossa sorte foi ter um elenco bem entrosado entre si e com seus personagens. Aí, era só dosar as histórias e situações na medida para que todos tivessem seus bons momentos", explicou Izabel.
Na Record, além da atual novela de Carlos Lombardi, as antecessoras no horário – Balacobaco, Vidas em Jogo e Ribeirão do Tempo – também apostavam em um grande número de personagens principais. Notadamente, Vidas em Jogo é a única onde todos os protagonistas estavam, de fato, interligados. Na trama de Cristianne Fridman, 10 premiados na loteria tinham de dividir a quantia nada modesta de R$ 200 milhões. "O dinheiro era o grande pretexto para mostrar nuances e ambiguidades dos personagens. Então, montei o esquema de ter perfis bem diferentes e populares para dar gás à história. Achei que o público fosse ficar confuso, mas todo mundo embarcou bem na trama", exaltou Fridman.
Sorte Paralela
Fiéis ao formato tradicional de contrapor o casal de protagonistas a um grande vilão, alguns autores, simplesmente, são forçados a eleger seu protagonista substituto de acordo com a repercussão da trama. Glória Perez é uma que não tem dado muita sorte com seus personagens principais. Desde América, de 2005, seus mocinhos fracassam e algum personagem paralelo rouba a cena. Recentemente, em Salve Jorge, Morena e Théo, de Nanda Costa e Rodrigo Lombardi, não convenceram. No lugar deles, surgiu a figura hipnotizante de Heloísa, destemida delegada interpretada por Giovanna Antonelli. "Fiquei muito feliz com o trabalho da Nanda e do Rodrigo. E sabia que a Giovanna arrasaria", afirmou a autora.
Manoel Carlos é outro que reza pelo formato mais tradicional de seus protagonistas. Mas, em Viver a Vida, de 2009, com a pouca sintonia entre Helena e Marcos, de Taís Araújo e José Mayer, deixou-se levar pela história de Luciana, de Alinne Moraes, a soberba filha do protagonista que fica paraplégica após um acidente de carro. "Dramas de superação sempre chamam o público. Não sou de fazer muitos protagonistas, mas sou do tipo que reforça toda a trama com bons personagens. Novela é uma obra que se cria ao longo da exibição. Então, tudo pode acontecer", analisou o autor, que volta ao horário das 21h com Em Família, que tem previsão de estreia para o início de 2014.
Instantâneas
# Betty Lago é um dos 10 nomes que protagonizam Pecado Mortal. É a segunda vez que a atriz divide o posto em uma trama de Carlos Lombardi. A primeira foi em Quatro por Quatro.
# Dos quatro casais, o grande destaque de Quatro por Quatro ficou com Babalú e Raí, de Letícia Spiller e Marcelo Novaes.
# Nenhum dos quatro protagonistas de Morde & Assopra conseguiu sustentar a trama. Após uma reformulação, a saída de Walcyr Carrasco foi apostar na história de Dulce, uma mulher simples e enganada pelo filho, papel de Cássia Kiss Magro.
# Criada em 2007 por Letícia Dorneles, Amigas & Rivais, novela do SBT, apostou em protagonistas múltiplas para entrelaçar o destino de quatro mulheres: Nicole, Helena, Olívia e Laura, de Cacau Mello, Thaís Pacholek, Karla Tenório e Lisandra Parede, respectivamente.