De olho na audiência, emissoras renovam programas de humor
- Márcio Maio
O humor sempre teve espaço nas emissoras abertas. Mas a visibilidade que os canais dão ao gênero vem mudando nos últimos anos. E, com isso, o mercado se movimenta. O Pânico na TV!, por exemplo, passou 10 anos na Rede TV!, mas agora é Pânico na Band, onde o grupo de Emílio Surita estreia dia 1º de abril. Já Rafinha Bastos, que deixou a Band ano passado, assinou com a Rede TV! para fazer a versão nacional do premiado Saturday Night Live, da rede americana NBC. A MTV continua mantendo Marcelo Adnet em seu "casting", mesmo diante de convites de quase todas as redes abertas para ele. E a Band, que já investe no jornalismo bem-humorado do CQC e no "talk show" com comediantes no Agora É Tarde, se prepara para estrear em abril o Faz-me Rir, espécie de competição entre humoristas. Isso sem contar com a estreia Casseta & Planeta Vai Fundo e a reformulação do Zorra Total, que estreia seu vagão feminino e deixa o programa inteiro dentro de seu metrô fictício. "Estamos em uma fase boa. Na Globo mesmo, abrimos um espaço para lançar novos talentos que, hoje, estão nas novelas. As outras emissoras também perceberam essa abertura e é assim: o povo quer banana? Então, vamos plantar", analisa Maurício Sherman, diretor do Zorra Total.
A verdade é que a grande virada do humor começou mesmo na internet. Dela surgiu a maior parte dos profissionais que se destaca hoje no gênero. "Imagina se o Didi (Renato Aragão) tivesse a web para se apresentar em sua época! Sairia de Sobral, onde nasceu, direto para a televisão", supõe Marcelo Tas, que divide os trabalhos no CQC com vários humoristas revelados na rede. A internet, aliás, virou um bom termômetro para avaliar tudo no que diz respeito à programação das emissoras. "Milhões de pessoas se manifestam o tempo todo nas redes sociais. Não dá para fechar os olhos para o que elas escrevem. E quem se destaca, é claro, se torna atraente para a mídia", explica o argentino Diego Guebel, diretor artístico da Band.
Talvez por isso a emissora tenha levado a melhor na disputa pela equipe do Pânico na TV!. "Foi uma decisão de todo mundo", atesta Emílio Surita. O grupo estreia no próximo dia 1º com mais verba de produção, mas também com o risco de, no futuro, enfrentar a concorrência da própria Rede TV!, que contratou o ex-CQC Rafinha Bastos para ser produtor executivo e comandar os trabalhos da versão nacional de Saturday Night Live. O humorista já chegou à emissora fazendo piada com a situação. "Qualquer criança de seis anos sabe que saturday é sábado em inglês. Mas a Rede TV! é assim: surpreendente", brincou, ao ser apresentado pela emissora como a principal aposta para as noites de domingo.
A Globo segue sem mudanças inesperadas. Além das séries dramatúrgicas recheadas de doses de humor, como As Brasileiras e Louco Por Elas, o Casseta & Planeta Vai Fundo explora sua nova fase no canal. Agora em temporadas mais curtas, os "cassetas" voltam depois de mais de um ano de preparação e ganham a companhia das atrizes Miá Mello e Maria Melilo ¿ que faturou a edição do ano passado do "Big Brother Brasil". "Não estávamos de bobeira. Ralamos muito para mostrar algo totalmente diferente", promete Hubert. O Zorra Total também mostra novidades, a começar pelo vagão feminino do metrô e novos personagens. Como a Santinha, um tipo moralista e controlador interpretado por Thalita Carauta. "Ela tem uma energia meio semelhante a da Perpétua, de Tieta. Aquela coisa de querer comandar, colocar a ordem ali. E sempre de olho na vida dos outros", adianta a atriz, que já interpreta a "sem-noção" Janete ¿ também conhecida como Babuína ¿ no humorístico.
Assim como a Globo, a MTV aposta na mesma linha dos últimos anos. A principal mudança fica por conta do Comédia MTV Ao Vivo, que estreou no último dia 15 e, como o próprio nome já indica, é feito ao vivo. Assim, permite uma interação maior com o público. Inclusive pela presença de uma plateia. "A MTV sempre foi uma emissora crítica e debochada. Esse deboche é bastante eficaz na comunicação com o jovem", valoriza Zico Góes, diretor de programação. As produções humorísticas do canal são as mais baratas da tevê aberta. Mas isso não tem impedido que se destaquem nessa área. "A galera sempre faz humor que tem a ver com a sua grade. Na Rede TV!, sacaneavam o artista da Globo; na Globo, é com dramaturgia; na Record, é meio show de humor; e na MTV, é mais alternativo, com menos recursos mesmo", defende Paulinho Serra, da equipe do Comédia MTV, que trabalha ainda em cima de um piloto de novo humorístico ao lado de Tatá Werneck.
Balança comercial
Ao ver o Pânico se mudando para a Band, Emílio Surita diz que se lembrou de uma reportagem de uma famosa publicação nacional que saiu assim que o programa estreou na Rede TV!. Na matéria, estava escrito que o humor não vendia na tevê aberta. "Olha como as coisas mudam. Achavam isso, mas errou quem acreditou naquele texto", orgulha-se. De fato, algumas pessoas assumem que, há algum tempo, era mais complicado conseguir patrocinadores. Mas isso dependia do tipo de humor realizado. "Quando começamos com Hermes e Renato, tínhamos um sucesso grande de audiência. O mercado, mais conservador, não curtia. Considerava tosco e isso não agradava. Mas funcionava para atrair investimento para outros programas da MTV", argumenta Zico Góes.
Já Maurício Sherman não concorda com esse pensamento. Segundo ele, desde a época do rádio, o humor era bem visto pelos patrocinadores. Mas um fator foi determinante para que os humorísticos nacionais se enfraquecessem quase até os anos 90. "Até a década de 80, estávamos em ditadura e não existe humor sem democracia. A censura era muito violenta", lembra ele, que continuou explorando o gênero nesse período, mas com cuidado redobrado.