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Um livro de terror em sintonia com o Brasil assustador atual

Fã de Game of Thrones, Filipe de Campos Ribeiro constrói narrativa que tem semelhanças com radicalismos criticados em O Sétimo Guardião

12 abr 2019
10h45
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Após a morte dos pais, soropositivos, Ismael volta ao interior para reaver sua herança. Inundada por uma tempestade e isolada do mundo, a cidade está sob intervenção militar. Seus habitantes, acuados por estranhos crimes, professam uma inquietante religiosidade baseada num livro de autor desconhecido.

A premissa do livro Terra de Sonhos e Acaso (Editora Martin Claret), de Filipe de Campos Ribeiro, está intrinsecamente ligada à realidade do Brasil de 2019.

Assistimos ao crescimento do contágio do vírus HIV no País, especialmente entre jovens e idosos; enchentes causam destruição e mortes; os militares ostentam poder nunca antes visto desde a redemocratização; a violência segue incontrolável; a fé desvirtuada produz uma horda de intolerantes.

Literatura mais atual, impossível.

Fã de Games of Thrones, o autor vê no gênero terror uma ferramenta para o ser humano encarar a si mesmo, sem disfarces. Um mergulho na imensidão emocional da qual a maioria de nós foge durante toda a vida.

O blog conversou com Filipe de Campos Ribeiro.

Por que escolheu o gênero terror?

O terror é porta de entrada para drogas mais fortes, como a grande literatura. Só que muitas pessoas se contentam em ficar naquela região mais infantil, lidando para sempre com emoções básicas, como o medo, o sexo e o sobrenatural. O medo do desconhecido: acho que essa é a região de onde nunca consegui sair, e para onde sempre quis voltar. Então foi natural escolher o terror. Toda obra que se dá o respeito – ou que quase se leva a sério, quando se fala de terror – carrega nela sempre essa vontade do autor de dizer como o mundo é. Ou o que ele conseguiu descobrir desse mato sem cachorro que é a existência. O (Franz) Kafka tentou dizer “pra mim, o mundo é assim” por meio da história onde um burocrata acorda e descobre que está sendo processado (no livro O Processo). A Clarisse Lispector tenta nos contar o que é o mundo para ela pelos devaneios de uma mulher que encontra uma barata no quarto de empregada (na obra A Paixão Segundo G. H.). O Philip K. Dick tenta falando de um policial que caça androides num futuro distópico (no romance Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?, que deu origem ao filme Blade Runner). George Orwell, de um governo que tenta controlar a todos pela vigilância e empobrecimento da língua (no clássico 1984). J. G. Ballard por pessoas que tem fetiche em bater o carro e transar (em Crash). Os três últimos escolheram a ficção científica. Longe de me comparar a qualquer um deles, mas acho que nada vai mais direto ao ponto que o terror.

O autor Filipe de Campos Ribeiro: “O terror toca em pontos sensíveis, e é sempre sobre algo que está pairando no ar”
O autor Filipe de Campos Ribeiro: “O terror toca em pontos sensíveis, e é sempre sobre algo que está pairando no ar”
Foto: Divulgação

Raramente há personagens HIV+ na literatura. Por que deu essa condição aos pais do protagonista?

Meu melhor amigo já trabalhou no Barong, uma ONG de prevenção ao HIV. Eles distribuem camisinhas e fazem todo tipo de campanha de conscientização. Mas acho que foi só isso. Contrair o vírus é uma tragédia, com grande potencial narrativo. Ele vem depois de um ato de prazer – idealmente. Você não sabe que o contraiu, até se testar ou aparecerem sintomas. Nesse período, pode infectar pessoas. É pouco visto na literatura, mas se encaixa perfeitamente na literatura de terror, porque o gênero é sempre sobre como tudo pode dar muito errado a qualquer momento. Talvez não tratem tanto disso por ainda ser um tabu. O vírus é um destruidor de mundos, especialmente do seu mundo íntimo, aquele com o qual você mais se importa. É uma tragédia pessoal imensurável e um problema de saúde pública cuja prevenção é ameaçada por moralismos.

A religiosidade que domina a cidade interiorana, no livro, é uma crítica à imposição de dogmas e costumes conservadores no Brasil de hoje, retratada na novela O Sétimo Guardião?

Dei ‘sorte’ que a maré virou para esse lado, mas não foi a intenção criticar o momento. Escrevi o livro entre 2012 e 2017. Quando elaborei a história, tudo o que está acontecendo agora seria impensável. Naquela época, havia sim uma imposição de dogmas; já era o começo da polarização que nos levaria a essa situação bizarra – mas lá atrás ninguém sabia disso. O Brasil é um País onde qualquer obra que seja escrita com paixão, com alguma verdade, vai ser atual a qualquer momento futuro. Porque não muda nunca. No livro, não é sobre o avanço evangélico, é sobre um cristianismo primitivo, deturpado, cuja expressão se dá por uma inquietante prática. O terror toca em pontos sensíveis, e &eac ute; sempre sobre algo que está pairando no ar. Talvez por isso a coincidência.

A capa da obra: muito a ver com a realidade conturbada retratada na novela das 21h da Globo
A capa da obra: muito a ver com a realidade conturbada retratada na novela das 21h da Globo
Foto: Divulgação

Você desconstrói aquela imagem novelesca do interior pacato e amigável. Viveu em cidade pequena? 

Morei em Taubaté durante o ensino médio (colegial, na época). O interior de São Paulo é um lugar de muitas relações verdadeiras e de poucos segredos que duram. Aqui na capital, nunca ficamos sabendo quando alguém morre. Só nos avisos de missas de sétimo dia nos elevadores dos prédios. No interior, parece que tem sempre alguém morrendo, o tempo todo. Narrativamente, é muito mais interessante. É o lugar onde todos os demônios pessoais vêm à tona. E de onde todos os sonhos de uma vida diferente fogem. Nunca me esqueci dos anos que passei no interior. Se o sal da terra estivesse em algum lugar, seria lá.

O material de divulgação o apresenta como ‘promessa não realizada’ de dois importantes diretores de teatro. Por que essa autodefinição pessimista? A dramaturgia o frustrou?

Minha família é do teatro. Sei das misérias que envolvem aquilo. Escrevi uma peça, celebrada por gente do meio, mas fracassada comercialmente. E ter começado com um fracasso comercial meio que tornou tudo tão mais difícil... Nunca é bom estar num meio de escassez. Mas sigo acreditando que não há experiência mais intensa do que sair de uma peça de teatro que falou com você. Só não estou mais nesse barco.

A teledramaturgia o interessa? Vê a possibilidade do livro virar série ou filme?

Uma outra mídia de escassez – para quem escreve e não é um dos medalhões. Mas há algo, além disso, bem pessoal. Não consigo trabalhar com prazos, o que já me desqualifica. Adoro o meio, só não engulo muito esse frisson por séries – exceto Game of Thrones, que é a melhor coisa dos últimos muitos anos. Mas acho que o livro pode sim – como qualquer bom livro de gênero – ter uma outra vida audiovisual.

(O autor participará de sessão de autógrafos neste sábado, dia 13, a partir das 18h, no Sebo Clepsidra Fortunato, na Rua Fortunato, 117, Santa Cecília, na capital paulista.)

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