'Tristão e Isolda', emblemática ópera de Wagner, retorna ao Theatro Municipal após quase 50 anos
Espetáculo será apresentado em cinco récitas, a partir desta quarta, 22; Diretor cênico Allex Aguilera e a soprano Eiko Senda falam sobre a nova montagem ao 'Estadão'
Sem desejo, não haveria Tristão e Isolda. É a jornada para tentar aplacar essa força irrefreável - e o custo para ela se realizar - que guia cada nota e cada verso da emblemática ópera composta e escrita por Richard Wagner (1813-1883). É também a insistência no desejo que leva o Theatro Municipal de São Paulo a, enfim, voltar a ela 48 anos após sua última encenação na casa.
Em um mundo cada vez mais acelerado e com foco de atenção disperso por conta do ritmo típico das redes sociais, passar cinco horas sentado assistindo a um espetáculo com pouca ação narrativa e cantada em alemão pode parecer prova de resistência de reality show. No entanto, os ingressos para as únicas cinco récitas, que se iniciam nesta quarta-feira, 22, se esgotaram em minutos. Afinal, onde reside o fascínio dessa criação?
"Em primeiro lugar, a música de Wagner tem uma força extraordinária. Quando a ouvimos ao vivo, ela provoca uma experiência quase física. É muito difícil ficar indiferente", afirma Allex Aguilera, responsável pela direção cênica do espetáculo. "Ela nos obriga a parar, a escutar e a viver o tempo de outra maneira. É uma experiência de imersão. Quem se entrega dificilmente sai do teatro da mesma forma como entrou."
Inspirado por uma lenda medieval celta, o libreto narra o périplo amoroso entre os dois personagens-títulos - revezados a cada apresentação entre os tenores Simon O'Neill, neozelandês, e Michael Weinius, sueco, e as sopranos Annemarie Kremer, holandesa, e Eiko Senda, japonesa. Tristão é um cavaleiro da Cornualha que, após matar o noivo da princesa irlandesa Isolda, tem como missão levá-la até seu tio, o rei Marke, que irá desposá-la. Avessa à ideia, ela pede a sua aia um veneno capaz de matar a si mesma e a Tristão como vingança. Eles bebem, por sua vez, uma poção de amor. Perdidamente apaixonados, o casal é flagrado pelo rei, e Tristão acaba ferido de morte. Desolada, Isolda morre também para, por fim, concretizar seu amor em outro plano.
A tragédia se alinha ao desencanto vivido pelo próprio Wagner. Entusiasmado pelo movimento liberal conhecido como Primavera dos Povos, que inspirou diversas revoluções pela Europa ao longo de 1848, o compositor iniciou sua famosa tetralogia O Anel do Nibelungo, na qual exaltava a capacidade do homem em desafiar a ganância e a tirania dos deuses para estabelecer uma nova ordem social.
Frustrado ao ver esse ideário humanista ser reprimido por forças conservadoras, o músico encontrou alento nos escritos de Arthur Schopenhauer (1788-1860). Segundo o filósofo, o desejo é uma causa perpétua de sofrimento. Mal ele se realiza, dá lugar a outro desejo, ou seja, a única forma de escapar desse looping de insatisfação seria aniquilar justamente a vontade.
O grande feito de Wagner foi materializar esse conceito em forma sonora, com a criação do chamado "acorde de Tristão" - uma ruptura com a harmonia então vigente no universo musical. Tocado já no prelúdio, ele se repete ao longo de toda a obra sem jamais ser seguido por um acorde de resolução, criando uma tensão constante. Ela só é aplacada nos minutos finais, quando Isolda canta o monólogo Liebestod (amor-morte, em português) e, por meio dele, entrega a vida para dissolver sua paixão no além.
Traduzir tamanho mergulho psicológico nunca foi uma tarefa simples. Em sua primeira tentativa de montagem, em 1862, a equipe escalada simplesmente a abandonou por considerá-la impossível de ser executada, adiando a estreia para 1865. O desafio segue vivo agora com a Orquestra Sinfônica Municipal, liderada pelo regente Roberto Minczuk, o diretor musical da peça, além do Coro Lírico Municipal, os solistas e o encenador.
"Os grandes acontecimentos dessa ópera não são batalhas, perseguições ou mudanças de cenário. Eles acontecem dentro dos personagens", explica Aguilera, que é brasileiro, mas se formou na Suíça e trilhou carreira na Espanha, tendo já trabalhado ao lado de nomes como Zubin Mehta, Werner Herzog e La Fura dels Baus.
O Theatro Municipal previa uma versão inédita com direção de Daniela Thomas. Complicações técnicas, porém, impediram sua realização. Para manter as apresentações no cronograma previsto, buscou-se então uma produção já pronta, estreada três anos atrás pelo Teatro de la Maestranza de Sevilha.
Para dar espaço ao turbilhão interno proposto pelo compositor, o diretor optou por uma abordagem livre de excessos, concentrando foco em dois elementos cênicos de grande escala, uma coroa e uma árvore seca. Eles dialogam o tempo todo, criando uma tensão entre o desejo dos protagonistas e a realidade que os esmaga, como explica o encenador.
"A coroa representa o poder do rei Marke, que considero o verdadeiro motor dramático da ópera. É ele quem envia Tristão à Irlanda, e é sua relação de amor e amizade com o sobrinho que torna a traição tão devastadora. A coroa o mantém em cena mesmo na sua ausência física, lembrando-nos de que o mundo real, com as suas regras, hierarquias e consequências, nunca deixa de existir. Já a árvore seca e vermelha, por sua vez, é o símbolo do amor impossível: sem folhas, sem raízes, condenado desde o início."
Em cada um dos três atos, Aguilera explora uma identidade visual distinta de acordo com o percurso emocional da partitura. O primeiro ato, ambientado em um barco rumo à Cornualha, é monocromático e se transforma de forma sutil com a mudança de sentimentos dos personagens. No segundo, quando o casal extravasa o amor sentido um pelo outro, o tom onírico ganha força, contrastando com o ato derradeiro, no qual a cor cinza impera.
"No final, resta apenas Isolda iluminada por uma única luz. Era importante para mim que a cenografia desaparecesse aos poucos, deixando apenas a música conduzir o público até a transfiguração." A concepção está alinhada com uma das principais lições que o diretor aprendeu com o compositor alemão. "Wagner me ensinou a não ter medo do silêncio e do aparente estatismo. É preciso ter coragem de deixar o cantor simplesmente cantar, respirar e existir em cena."
Protagonizar uma ópera desta envergadura exige preparo de atleta. Em resposta por escrito à reportagem, Eiko Senda diz estar há três meses sem falar com ninguém para dedicar a voz exclusivamente a Isolda. Sua rotina diária inclui musculação, meditação e dez horas de sono. Álcool e glúten estão proibidos, e a alimentação conta com acompanhamento nutricional para sustentar o corpo durante as apresentações e nos ensaios.
"Wagner utiliza uma das maiores orquestras do período romântico. A soprano precisa ter uma técnica de projeção perfeita para cortar a massa instrumental sem que precise forçar as cordas vocais, o que destruiria a voz em poucos minutos", explica ela, radicada entre o Brasil e Uruguai e conhecida como um dos principais expoentes do repertório wagneriano no país. "O maior desafio da Isolda é saber exatamente onde economizar energia e como usar o texto e articular as consoantes alemãs para projetar a voz sem esforço muscular, mantendo a linha de canto nobre e saudável do início ao fim."
Sua interpretação passa pelo seu legado cultural pessoal. Para ela, a heroína é uma "mulher samurai": uma figura nobre a quem a quebra da lealdade fere mais do que qualquer dor física. A encenação carrega ainda outro toque inspirado no Japão. Buscando traduzir a dor sentida por Tristão no último ato, Aguilera introduziu elementos de butô, dança surgida no país oriental como resposta ao cenário de destruição vivido em Hiroshima e Nagasaki após as cidades serem bombardeadas durante a Segunda Guerra Mundial.
Dada toda a complexidade exigida, uma montagem dessa no país se assemelha à passagem do cometa Halley na órbita da Terra, com uma diferença: neste caso, não é possível precisar quando será a próxima vez que ela irá acontecer. As duas últimas vezes aconteceram em 2011, em Manaus, durante o Festival Amazonas de Ópera, e em 2003, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Tudo isso torna a experiência ainda mais significativa.
"Sempre existiu a ideia de que Tristão e Isolda era um projeto exclusivo do circuito estrangeiro", diz Eiko. Reencontrar a obra agora, com um elenco majoritariamente local, é para ela um orgulho genuíno. A mesma sensação ressoa em Aguilera: "Quem ama ópera fala uma linguagem comum. É uma paixão que atravessa fronteiras. O fato de a temporada ter esgotado tão rapidamente é, para mim, uma demonstração muito bonita de que o público brasileiro continua ávido. Saber que Wagner segue encontrando tantos admiradores no Brasil só me traz alegria."
Tristão e Isolda
- Theatro Municipal de São Paulo.
- Pca. Ramos de Azevedo, s/n.
- Qua., sex. (menos dia 24) e dom., às 17h.
- De 22/7 a 2/8.
- Ingressos esgotados.
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