'Quero refletir sobre como a performance estrutura o nosso cotidiano', diz autora Katie Kitamura
Escritora americana está no Brasil para a Flip e conversou com o 'Estadão' sobre 'Audição', livro em que uma mulher é surpreendida por um rapaz que diz ser seu filho
A escritora americana Katie Kitamura olhava distraidamente o noticiário online quando uma manchete a deixou paralisada: "Um estranho me disse que era meu filho". "Não cliquei no link nem li a matéria, pois queria pensar sobre o caráter insólito daquela frase e entender por que ela me impactou tanto. Fiquei fascinada com a ideia de um único encontro ser capaz de mudar tudo o que você compreende sobre si mesmo e sobre o seu lugar no mundo", disse ela, uma das convidadas da 24ª Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip, que acontece na cidade fluminense.
A inquietação motivou sua inspiração e se materializou no livro Audição (Fósforo), considerado um dos principais de sua carreira - ela também é autora de outra obra publicada no Brasil, Uma Separação (Companhia das Letras). A frase é dita logo no início da narrativa, quando a narradora, uma atriz consagrada, a ouve de um jovem chamado Xavier, que acabara de conhecer. Apesar da perturbadora semelhança física entre ambos e de ele repetir com precisão os gestos dela, a atriz garante não ter tido nenhum filho.
Xavier se envolve na produção do próximo espetáculo da atriz, cujo nome não é revelado ao leitor, o que lentamente quebra barreiras entre ambos. Essa é a trama da primeira parte do livro. Na segunda, alguns papéis são trocados (Xavier, por exemplo, tem uma relação familiar com a atriz), o que transforma o romance em um exercício sobre a atuação de cada um no relacionamento social, cujas funções não são necessariamente fixas.
"Sempre me interesso por personagens e pessoas que habitam espaços liminares, situados entre identidades diferentes", diz Katie em entrevista ao Estadão. "Isso fica mais evidente no meu romance Uma Separação, no qual a personagem central está separada do marido quando ele morre. Ela acaba não sendo nem exatamente ex-mulher nem viúva enlutada, situando-se, de certa forma, entre esses diferentes papéis."
Katie acredita que há algo nos nomes que atribui uma grande carga de informações a um personagem sobre classe social, raça, gênero. Daí sua opção por protagonistas femininas sem nome. "O curioso é que não hesito em nomear os outros personagens, mas nunca soube como chamar minhas narradoras e nem existe um nome secreto que eu esteja guardando."
Ao definir Audição como um thriller psicológico sobre a invisibilidade e o desejo de ser visto, a autora justifica o fato de a protagonista ser uma atriz. "Meu interesse é refletir sobre como a performance estrutura o nosso cotidiano. Ou seja, até que ponto existe um elemento de performance na maneira como desempenhamos papéis de maternidade, ou como nos comportamos em um relacionamento, nas nossas amizades ou no trabalho", afirma. "Por isso, transformei a protagonista em uma atriz, uma personagem que compreende bem como a performance funciona e sabe como manipulá-la."
Katie conta que cresceu lendo os romances de Agatha Christie, fascinada pelas estruturas narrativas cujas tramas eram tão engenhosas que não perdiam o poder mesmo quando já se conhecia a solução do assassinato. Em Audição, ela aponta ainda outra influência: o cinema do diretor David Lynch (1946-2025), conhecido por longas ao mesmo tempo enigmáticos e fascinantes, raramente seguindo uma linha reta.
"Dois filmes dele foram decisivos na escrita desse romance, Cidade dos Sonhos e A Estrada Perdida", conta. "Revi essas obras, refleti sobre como foram construídas e pensava em como ambas carregam significados profundos, embora Lynch não se prendesse excessivamente a sentidos concretos ou a respostas definitivas. São obras realmente muito misteriosas."
É o que explica a trama com personagens que são, ao mesmo tempo, iguais e totalmente diferentes, que vivenciam os mesmos impasses e problemas, independentemente da realidade em que habitam. "Uma vez que tive a ideia e soube que queria escrever essa história sobre um tipo de retorno ou aparição inquietante de um personagem na vida dessa mulher, senti-me mais encorajada a observar os filmes de Lynch."
Ela cita ainda outro cineasta, o tailandês Apichatpong Weerasethakul, cuja obra é ainda mais onírica, convite para que o espectador seja transportado a um mundo de sonho. Dois filmes, Mal dos Trópicos e Eternamente Sua, foram decisivos na elaboração da trama do livro. "Muitos de seus longas são, de certa forma, divididos em duas partes. Ficou claro para mim que eu havia internalizado aqueles filmes tão profundamente que, mesmo sem perceber, fazia referência a eles."
Curiosamente, a ideia inicial era escrever um romance convencional sobre um casal sem filhos que conhecia um jovem carismático, disposto a se infiltrar na vida deles. "Era algo semelhante à sensação de dirigir por uma estrada reta e muito bem iluminada, onde eu conseguia enxergar o destino lá na frente. Não havia riscos envolvidos", conta Katie, que confessa se identificar mais como leitora que escritora. "Por isso, senti que precisava recomeçar do zero e encontrar uma maneira diferente de contar essa história - uma abordagem que envolvesse mais riscos. Isso exigiria escrever cenas que talvez me assustassem um pouco ou tentar fazer coisas que eu não sabia exatamente como executar."
Ao abandonar a segurança da escrita tradicional, ela se aventurou a tratar de contradições que marcam certas experiências universais, como a parentalidade, a criação artística, o papel de cônjuge, a vivência de um relacionamento. "Assim que me liberei das amarras, criei a estrutura em duas partes e o livro tornou-se muito mais simples e me senti mais revigorada."
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