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| Gambiarra e outros Paliativos Emocionais |
Gambiarra e outros Paliativos Emocionais
Flávio Ulhoa Coelho narra neste livro um painel humano de gente escondida da vida. A começar pelo conto “Minhocão”, dividido em quatro partes, ao longo do livro, sempre iniciado com o mesmo texto, um recurso de escritor que conhece seu ofício.
Concorra a exemplares do livro
O que mais sobressai nestes contos de Gambiarra é uma solidão perversa de personagens que se debatem em páginas amargas. Essa observação do escritor de todas as coisas que o cercam, objetos, pessoas, cidades, ruas, praças, dor – tudo isso pode se resumir na frase fulminante que dá início ao conto “Vozes no corredor”; “Toda vez que abro aquela porta, sou atropelado por quase cinqüenta anos de memória”. E quais são essas memórias? Quase sempre, figuras distorcidas num retrato sem retoques, de violência e crueldades, em cenas sem saída que constroem um cenário feito de silêncios e gritos, mesmo aqueles dados para dentro. Não há como não se prender a esta leitura que não faz concessões. Pelo contrário: Flávio Ulhoa Coelho sempre mergulha fundo em uma paisagem feita de destruição e isso inclui, especialmente a vida. A narrativa é um salto escuro do qual não se tem escapatória.
Esses contos descrevem sempre, de maneira contundente, situações envolvendo o ser humano que parece sempre estar à margem da própria vida e à margem de si próprio, já que, no fundo, nada importa, senão o momento, o instante em que ele se expõe cada vez mais ferido, numa chaga que não fecha. Tocante o conto “A aposta”, no qual duas irmãs são submetidas a uma brutalidade que poucos sabem existir. A violência como regra natural de vidas completamente destroçadas pelo medo, pelo espanto. Enfim, o livro de Flávio Ulhoa Coelho revela um retrato de assombros. Um retrato desses que estão em toda parte. Nos becos. Nas esquinas. Nos quartos. Na memória. Um livro passional. De literatura de primeira qualidade. De personagens que pedem socorro em uma paisagem em que a norma vigente é a negação.
Sobre o autor:
Flávio Ulhoa Coelho é professor titular do Instituto de Matemática e Estatística da USP (IME). Publicou, dentre outros livros, Contos que conto (1991, Editora Estação Liberdade), terceiro lugar na 5ª Bienal Nestlé de Literatura, e Ledos Enganos, Meras Referências (1996, Escrituras Editora).
Sobre Álvaro Alves de Faria:
É jornalista, poeta e escritor, ganhador de dois prêmios Jabuti (1976 e 1983) e dois prêmios especiais da APCA (1988 e 1989) por seu trabalho como crítico literário em favor do livro. Reuniu sua poesia até 2003 no livro Trajetória Poética (Escrituras Editora), prêmio APCA desse ano.

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