Do sino à sunga, a história do AC/DC no Rock in Rio 1985
Banda foi headliner da primeira edição do festival nos dias 15 e 19 de janeiro; mais de 500 mil pessoas estivearm presentes nas duas datas
Em dezembro de 1984, chegou às bancas de jornal o Guia Oficial do Festival Rock in Rio, com "Tudo sobre o maior concerto de rock do mundo". Duas das 120 páginas da publicação eram dedicadas ao AC/DC, definido por José Emílio Rondeau como "o príncipe da pauleira" e "uma das cinco melhores bandas de heavy metal [do mundo]". O texto destaca o fato de o grupo vir da Austrália — "terra dos cangurus e aborígenes" — e sua fórmula de "peso, sexo e ocultismo (!?)" ter permanecido inalterada apesar da mudança de vocalista.
🎧 Do universo de fã ao universo da música: tudo que você ama em um só lugar. Siga @centralsonora.
Mais de quatro décadas depois, ainda há quem se surpreenda ao lembrar que o AC/DC esteve no primeiro Rock in Rio, evento que reposicionou o Brasil na rota dos grandes espetáculos internacionais. Muitos artistas visitavam o país pela primeira vez — incluindo os irmãos Angus e Malcolm Young e companhia. O quinteto completo por Brian Johnson (voz), Cliff Williams (baixo) e Simon Wright (bateria) foi headliner em duas noites: 15 e 19 de janeiro. No primeiro show, encerrou a programação após apresentações de Kid Abelha e os Abóboras Selvagens, Eduardo Dusek, Barão Vermelho e Scorpions, diante de cerca de 250 mil pessoas. Quatro dias depois, na chamada "noite do metal", voltou ao palco após Baby Consuelo + Pepeu Gomes, Whitesnake, Ozzy Osbourne e novamente Scorpions, tocando para um público estimado em 280 mil fãs.
Os ingressos, que começaram a ser vendidos em outubro de 1984, custavam entre 18 mil e 20 mil cruzeiros, chegando a 28 mil às vésperas do festival. Considerando a inflação acumulada, isso equivaleria hoje a algo entre R$ 100 e R$ 150. Na época, o salário-mínimo girava em torno de 166 mil cruzeiros. As entradas eram impressas e comercializadas em agências do Banco do Brasil.
Em tese, as apresentações do AC/DC não integravam uma turnê formal. O giro de divulgação de Flick of the Switch (1983) já havia sido encerrado, e a banda interrompeu temporariamente as gravações do disco seguinte, Fly on the Wall (1985), apenas para cumprir a agenda no Rio.
https://www.youtube.com/watch?v=RoizxfLBMfo&list=RDRoizxfLBMfo&start_radio=1&pp=ygUWYWMvZGMgcm9jayBpbiByaW8gMTk4NaAHAdIHCQkDCwGHKiGM7w%3D%3D
O repertório priorizou clássicos. "Back in Black", "Hells Bells", "The Jack", "Dirty Deeds Done Dirt Cheap", "Highway to Hell" e "Whole Lotta Rosie" conduziram a massa. Curiosamente, apenas uma faixa de Flick of the Switch foi executada: a abertura "Guns for Hire". Houve ainda espaço para "Jailbreak", tocada pela primeira vez desde 1977. O EP '74 Jailbreak havia sido lançado em outubro de 1984, reacendendo o interesse pela música datada dos primórdios do grupo — e foi no Rock in Rio que ela ganhou sua primeira execução ao vivo com Brian Johnson nos vocais. Na segunda noite, o setlist precisou ser enxugado e justo "Jailbreak" esteve entre as excluídas.
Sino, sunga e irritação
Uma história de bastidores se tornou lendária. Em contrato, a banda exigiu que o cenário completo estivesse disponível, incluindo dois canhões, dezessete baterias de fogos montadas nas laterais do palco e o sino que desceria do teto durante "Hells Bells". O problema: o sino original pesava cerca de duas toneladas — embora suas badaladas fossem reproduzidas eletronicamente. Transportado de navio, enfrentou entraves alfandegários e, na montagem, constatou-se que o palco não suportaria o peso.
Sem comunicar o restante da produção, o cenógrafo Mário Monteiro fez um molde da peça e, com equipe ligada à TV Globo, produziu um "clone" de isopor e gesso. O sino original permaneceu guardado. As duas apresentações transcorreram sem que público ou banda suspeitassem. Após o segundo show, Monteiro revelou o truque. Longe de reagir mal, a produção do AC/DC pediu para levar o sino falso como presente — não era a primeira vez que enfrentavam problema semelhante.
Em Rock in Rio: A história (Globo Livros, 2022), Luiz Felipe Carneiro conta que, apesar do sucesso dos shows do AC/DC, Angus odiou essa primeira visita ao Brasil. O guitarrista ficou "extremamente irritado com o movimento dos fãs", mas deu a desculpa de que a cama do Copacabana Palace, onde estava hospedado, era pequena demais e se mandou, junto com a mulher, para o mais reservado Sheraton.
https://www.youtube.com/watch?v=b68QwIGt6wA&list=RDb68QwIGt6wA&start_radio=1&pp=ygUWYWMvZGMgcm9jayBpbiByaW8gMTk4NaAHAdIHCQkDCwGHKiGM7w%3D%3D
Ainda assim, o que causou asco a ele foram, segundo Carneiro, "a pobreza e o alto índice de mendicância". "Angus viveu um imenso choque cultural, a ponto de mal sair do quarto do hotel durante sua estada no Rio. Também escalado para o festival, Ozzy Osbourne reclamou da mesma razão ao jornalista Mick Wall, dizendo a ele: "Acho o Rio uma porra de uma merda. A comida é horrível, você não pode beber a água e eu não posso sair do hotel, porque senão vou ser assaltado. Ficarei feliz quando for embora."
Uma das poucas saídas de Angus, porém, rendeu uma das imagens mais icônicas de sua carreira. Em trajes de banho, ele e os colegas posaram, em clima descontraído, tendo a orla do Rio de Janeiro como pano de fundo.
As coletivas de imprensa realizadas em Ipanema também evidenciaram o choque cultural. Ao ser questionado se havia ali uma troca em curso, Brian respondeu: "Bem, eu acho que sim […] Pela primeira vez, a garotada (do Brasil) se interessou por algo diferente, sabe? Eles descobriram o rock 'n' roll uns 30 anos atrasados, mas antes tarde do que nunca, né?" E completou: "Só espero que todos esses jovens brasileiros não saiam correndo para comprar calças de lycra. Eu não aguento mais (roqueiros com) calças de lycra."
Setlist Rock in Rio 1º show
1. "Guns for Hire"
2. "Shoot to Thrill"
3. "Sin City"
4. "Shot Down in Flames"
5. "Back in Black"
6. "Have a Drink on Me"
7. "Bad Boy Boogie"
8. "Rock and Roll Ain't Noise Pollution"
9. "Hells Bells"
10. "The Jack"
11. "Jailbreak"
12. "Dirty Deeds Done Dirt Cheap"
13. "Highway to Hell"
14. "Whole Lotta Rosie"
15. "Let There Be Rock"
Bis:
16. "T.N.T."
17. "For Those About to Rock (We Salute You)"
Setlist Rock in Rio 2º show
1. "Guns for Hire"
2. "Shoot to Thrill"
3. "Sin City"
4. "Back in Black"
5. "Have a Drink on Me"
6. "Bad Boy Boogie"
7. "Rock and Roll Ain't Noise Pollution"
8. "Hells Bells"
9. "Dirty Deeds Done Dirt Cheap"
10. "Highway to Hell"
11. "Whole Lotta Rosie"
12. "Let There Be Rock"
Bis:
13. "T.N.T."
14. "For Those About to Rock (We Salute You)"
Rolling Stone Brasil: AC/DC — revista especial
À VENDA: Rolling Stone Brasil especial AC/DC. Discografia comentada, histórico dos shows no país, a história dos integrantes da banda australiana e sua influência completa na música mundial. Garanta a sua revista impressa no site Loja Perfil.
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.