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Como o Metallica abandonou o metal em 'Load'

Disco lançado em 4 de junho de 1996 sinalizou uma mudança mais drástica da sonoridade da banda em favor do hard rock — para incômodo de parcela do público

3 jun 2026 - 17h03
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Quando surgiu para o mundo, na primeira metade da década de 1980, o Metallica era a força mais revolucionária da história jovem do metal. Uma banda que despiu todos os excessos atribuídos ao gênero em favor de velocidade, técnica e agressão pura. Não à toa seu álbum de estreia, Kill Em All (1983), quase foi batizado Metal Up Your A** (Metal na sua bund*). Em comparação a isso, Load (1996) parece obra de outro grupo.

Metallica em 1996
Metallica em 1996
Foto: Anton Corbijn via Facebook / Metallica / Rolling Stone Brasil

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Em 1996, o quarteto apareceu de cabelo curto, delineador e com um som mais semelhante aos artistas que eles tiravam sarro. Os fãs de longa data ficaram estupefatos, mas até que deu certo do ponto de vista comercial.

https://open.spotify.com/album/5rI3pfrpvmdYtGAsBwaGec

Vida no topo

O Metallica havia alcançado o patamar mais elevado do mainstream com o disco Metallica (1991), apelidado pelos fãs de The Black Album. Nele, a banda já havia abdicado de parte dos elementos sonoros que a levaram a esse ponto. As músicas não eram mais tão rápidas e a agressividade começou a suavizar, a ponto do álbum ter baladas como "Nothing Else Matters" e "The Unforgiven".

Entretanto, o cenário em torno do grupo mudou drasticamente em menos de três anos. Kurt Cobain faleceu, acabando com o Nirvana e derretendo a ascensão do movimento grunge. O Guns N' Roses virtualmente implodiu em meio a excessos. O Pearl Jam começou a boicotar seu próprio sucesso.

De repente, o Metallica se viu sozinho no topo da hierarquia do rock. James Hetfield (voz e guitarra), Kirk Hammett (guitarra), Jason Newsted (baixo) e Lars Ulrich (bateria) encararam isso como prova de sua invencibilidade. Enquanto todo mundo tropeçou, a banda continuava de pé. E agora eles queriam esbanjar.

Cinco anos de material

Quando Hetfield e Ulrich finalmente se sentaram para trabalhar no material do que seria o sucessor de Metallica, a quantidade de ideias era superior a qualquer outro álbum. Em entrevista à Metal Hammer, James atribuiu isso a um acúmulo devido ao espaço entre discos:

"Todo esse material se acumulou na estrada. Havia sacos e sacos de fitas com riffs... coisas que havíamos acumulado em cinco anos sem compor. Primeiro foi tipo: 'Ok, vamos parar em 20 músicas'. Então continuávamos e dizíamos: 'Tudo bem, vamos parar em 30'. Foi completamente louco."

Um aspecto dessas fitas era a presença de um som completamente diferente do thrash metal que os deixou famosos. Os integrantes nunca esconderam suas influências além da música pesada, com blues, southern rock e hard rock setentista sendo mencionados juntos de Black Sabbath, Motörhead, Diamond Head e afins. Agora, o Metallica estava se apoiando nesses artistas fora do metal para seu próximo trabalho.

https://www.youtube.com/watch?v=F3WIHtOmkBg&list=RDF3WIHtOmkBg&start_radio=1&pp=ygUObWV0YWxsaWNhIGxvYWSgBwE%3D

Entretanto, não houve uma decisão consciente de mudar tudo sobre o som da banda. Também durante entrevista à Metal Hammer, o produtor Bob Rock explicou que a principal mudança nas sessões de Load, realizadas entre 1995 e 1996, foi colocar todos os quatro para gravar juntos, como se estivessem ao vivo. Fora isso, ele afirmou tudo ser fruto da vontade do Metallica:

"Uma das coisas mais admiráveis sobre a banda é que eles realmente não pensam em termos de reações das pessoas. Eles apenas fazem o que sentem ser certo para eles. Eles não levam em conta o que as pessoas pensam. Quando seguem em uma direção e assumem um compromisso de fazer algo, eles simplesmente fazem. E não se limitam."

O álbum em si

Apesar de ser bem avaliado na época e ter passado por uma nova apreciação com o passar do tempo, é impossível falar de Load sem apontar: não foi esse álbum que iniciou o movimento de fãs pedindo para o Metallica retornar à sua sonoridade clássica. Há de se argumentar que isso começou com Metallica. Entretanto, o Black Album conseguiu vencer o ceticismo do público na força de seu material — como resultado, dezenas de milhões de cópias vendidas e o trabalho mais bem-sucedido da história do heavy metal.

https://www.youtube.com/watch?v=4FKYsUEuvIo&list=RD4FKYsUEuvIo&start_radio=1&pp=ygUObWV0YWxsaWNhIGxvYWSgBwE%3D

Load não teve o mesmo privilégio. A razão é simples: as músicas não são do mesmo nível daquelas feitas para seu antecessor.

O primeiro single, "Until It Sleeps", estabelece um padrão de músicas que começam lentas e contemplativas para explodir no refrão, mas estas frequentemente falham em atingir a catarse adequada. A balada com toques de country "Mama Said" é bonita, mas soa estranha vinda do Metallica, em parte pelo o som do álbum em geral.

As influências além do metal ficam em conflito constante com a produção moderna de Bob Rock. "King Nothing", é talvez a melhor faixa do trabalho justamente porque soa mais confortável nessa sonoridade. O fato de soar como Black Album também ajuda.

https://www.youtube.com/watch?v=Xz9DX_VMXdI&list=RDXz9DX_VMXdI&start_radio=1&pp=ygUObWV0YWxsaWNhIGxvYWSgBwE%3D

O álbum pode ter sido feito por uma banda que se via em plenos poderes, mas essa não é a impressão passada pela obra. Há uma tensão constante, como se o Metallica quisesse manter sua identidade sonora e ser 20 outras coisas paradoxais ao mesmo tempo.

Criou-se então um conflito. O Metallica queria ser como seus heróis, quando seus fãs queriam que a banda fosse ela mesma. O problema, como o próprio Bob Rock apontou, era simples: Load, que ainda assim vendeu 5 milhões de cópias somente nos Estados Unidos, era o grupo sendo verdadeiro a si próprio, para incômodo do público. O mesmo vale para Reload (1997), disco de sobras dessas sessões.

O momento no qual Hetfield, Hammett e Ulrich perceberam a crise de identidade só ocorreu em St. Anger (2003). Mesmo assim, demoraram mais cinco anos para fazer as pazes com seu passado em Death Magnetic (2008).

Rolling Stone Brasil Rolling Stone Brasil
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