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Chilique de Lennon, fim dos Beatles e origem dos Stones: produtor revê histórias do rock em livro

Chega ao Brasil o livro de memórias 'Sound Man', do britânico Glyn Johns, profissional que deixou sua marca na indústria musical e assinou trabalhos para algumas das maiores bandas da história, incluindo os Beatles, os Rolling Stones, The Who e Led Zeppelin

31 ago 2026 - 18h07
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Resumo
Em sua autobiografia "Sound Man", o produtor Glyn Johns revela os bastidores da era de ouro do rock. Ele detalha sua atuação no conturbado fim dos Beatles durante as sessões de "Let It Be", incluindo atritos com John Lennon e o impacto do empresário Allen Klein. Johns também narra sua trajetória marcante com os Rolling Stones, o desenvolvimento de técnicas inovadoras com o Led Zeppelin e The Who, além de parcerias e histórias curiosas com ícones como Bob Dylan, Eric Clapton e a banda Eagles.
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Glyn Johns entrou na indústria musical em 1959, quando o ramo era uma espécie de Velho Oeste, cheio de sujeitos desagradáveis querendo levar a melhor sobre os outros. Não que isso tenha mudado muito, mas naquela época havia um clima sem lei entre artistas, empresários e gravadoras. Para ganhar respeito e se destacar, era necessário muito trabalho, ter personalidade forte e enfrentar egos. E Johns, britânico nascido no condado de Surrey (o mesmo lugar de onde saíram Jimmy Page, Eric Clapton e Roger Waters), soube reunir esses atributos e deixar sua marca no mundo do rock.

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Como engenheiro de som e produtor, ele foi peça importante na origem dos Rolling Stones, quando a banda calcada no blues buscava encontrar sua identidade, e viu de perto o fim dos Beatles ao trabalhar no problemático Let It Be (1970). Também gravou a fulminante estreia do Led Zeppelin, LPs marcantes do The Who, ajudou a descobrir os Eagles e assinou trabalhos para Bob Dylan, Clapton, The Clash, entre outras lendas do gênero.

Toda esta jornada está detalhada em seu livro de memórias, Sound Man, originalmente publicado em 2014 e que acabar de ganhar edição no Brasil. A obra é um deleite para os fãs dos artistas citados, graças à proximidade que Johns manteve com eles e ao apreço conquistado ao longo dessas relações.

Glyn Johns, de pé (à esquerda), durante as gravações de 'Let It Be', dos Beatles
Glyn Johns, de pé (à esquerda), durante as gravações de 'Let It Be', dos Beatles
Foto: Ethan Russel/Apple Corps/Divulgação / Estadão

O sonho de ser cantor e a origem dos Stones

Johns se interessou por música ainda menino, cantando no coral da igreja. O sonho de se tornar um cantor de sucesso, porém, não se concretizou, embora ele tenha emplacado um único hit na Espanha, em 1966, com uma versão de Lady Jane, dos Rolling Stones. Naquele período, sua carreira estava cada vez mais ligada à banda de Mick Jagger e Keith Richards, para a qual era requisitado em diversas gravações.

Amigo de infância do pianista Ian Stewart e muito próximo do baixista Bill Wyman, Johns trabalhou com o grupo de 1963 a 1975. Entre uma série de causos, conta que nunca gostou de Brian Jones como pessoa, embora o admirasse como músico, e rotula Mick Taylor como "ególatra". Menciona ainda um entrevero, não detalhado, com Keith Richards.

Mesmo assim, sentiu profundamente a morte trágica de Jones, afogado numa piscina aos 27 anos, e se orgulhou quando Richards gravou seu primeiro vocal pelos Stones graças a um erro seu: ao mixar o blues You Got The Silver, de Let It Bleed (1969), acidentalmente apagou os vocais gravados por Jagger. Como o cantor estava na Austrália e não poderia refazê-los, Keith assumiu o microfone e tornou a faixa emblemática.

O atribulado fim dos Beatles

No fim de 1968, Johns recebeu um telefonema de Paul McCartney e o convite irrecusável para ser engenheiro de som do novo projeto dos Beatles, então intitulado Get Back e que mais tarde se tornaria Let It Be. O entusiasmo inicial, porém, deu lugar ao estranhamento. Johns percebeu que George Martin, produtor responsável por toda a discografia do quarteto até então, estava fora da empreitada. Ao questionar McCartney, ouviu uma resposta direta: a banda simplesmente não queria trabalhar com veterano naquele projeto. Até hoje ninguém entende bem o porquê.

Sem um rumo definido, os Beatles testavam possibilidades. Cogitaram gravar um álbum ao vivo em um cenário exótico, bem como a produção de um especial de TV. Enquanto as ideias mudavam, as câmeras registravam tudo sob a direção de Michael Lindsay-Hogg, material que daria origem ao filme Let It Be (1970) e, décadas depois, serviria de base para a série documental Get Back (2021), de Peter Jackson, na qual Glyn Johns aparece bastante.

O relato de Johns é revelador ao expor o clima de desorganização e tensão que culminaria no fim da banda. Ele descreve, por exemplo, como Allen Klein, que assumiu o posto de empresário do conjunto, foi peça central na dissolução do ato musical mais celebrado de todos os tempos.

Klein fora manager dos Stones e Johns já o conhecia. Por isso, tanto George Harrison quanto Ringo Starr chegaram a perguntá-lo sobre o empresário. A resposta foi que procurassem Jagger e Richards, que poderiam dar uma opinião mais fundamentada (e não exatamente favorável). O conselho, porém, foi ignorado. John Lennon, Harrison e Starr acabaram fechando acordo com Klein, enquanto McCartney se recusava a fazê-lo.

Johns acredita que Klein se aproveitou do momento de extrema fragilidade dos Beatles. Certo dia, o nova-iorquino apareceu de surpresa e confrontou Paul, pressionando-o a assinar um documento que lhe daria controle sobre os negócios da banda. O autor ouviu boa parte da discussão e a recorda como "algo extremamente desagradável".

Chilique de Lennon e o LP que virou 'porcaria'

Aquele clima esquisito também aparece em uma das melhores anedotas do livro, sobre quando eles decidiram refazer os vocais de Lennon para a faixa Across The Universe. Johns conta que o músico estava de "temperamento muito estranho". Para prepará-lo, colocou-o na cabine vocal e o deixou se aquecer, na tentativa de fazê-lo entrar no clima da canção. Quando o engenheiro anunciou que gravaria o primeiro take, Lennon ficou furioso e deu um chilique ao descobrir que nada ainda havia sido gravado. Para o cantor, aquele momento inicial era uma performance única, a qual ele jamais conseguiria reprisar da mesma maneira. Contrariado, o beatle precisou repetir a gravação e ficou bastante irritado.

"John já tinha experiência de gravação o suficiente para saber que aquela reclamação era ridícula, então a atribuí a ele estar sob o efeito de alguma substância. Foi uma forma triste de terminar uma relação de trabalho que até então tinha sido muito prazerosa", lamenta o autor.

O desentendimento ajuda a explicar por que Johns não recebeu o crédito de produtor do álbum, uma decisão que até hoje incomoda os fãs. Ocorre que durante o turbulento processo, Johns preparou mixagens das canções e entregou versões finais do disco Get Back aos quatro integrantes. Inicialmente, o trabalho foi rejeitado, mas, quando ficou claro que o LP precisava ser concluído, Paul, George e Ringo não fizeram objeções à sua mixagem. Lennon, porém, acabou recorrendo a Phil Spector. Conhecido pela técnica da "parede sonora", Spector acrescentou uma série de arranjos pomposos e intervenções grandiloquentes às gravações, dando ao álbum sua forma definitiva.

A produção desagradou a McCartney que, anos mais tarde, em 2003, lançou Let It Be... Naked, uma abordagem mais crua e próxima daquela imaginada por Glyn Johns - este, por sua vez, é ainda mais duro ao avaliar o resultado como "a porcaria mais melosa" que já ouviu. A proposta original de Johns só chegaria oficialmente ao público em 2021, como parte da edição expandida do projeto.

A relação com Zeppelin, Who e mais

Mas boa parte de Sound Man extrapola o mundo dos Beatles e dos Stones. Johns foi chamado para gravar o álbum de estreia do Led Zeppelin. O disco, um marco do rock, foi gravado em apenas nove dias. Ele já conhecia Jimmy Page e confiava no talento do guitarrista, certo de que qualquer projeto em que ele estivesse envolvido daria certo. Conta, ainda, que chegou a apresentar o acetato para Mick Jagger e George Harrison, mas nenhum dos dois enxergou grande valor naquele trabalho.

Foi durante as gravações zeppelianas que Johns afirma ter descoberto, "por acidente", seu famoso método de gravação de bateria. A técnica consiste em utilizar apenas três ou quatro microfones para obter um som natural e, ao mesmo tempo, poderoso do instrumento. O resultado alcançado registrando as batidas de John Bonham se tornaria uma referência na indústria fonográfica. O formato seria aperfeiçoado nos discos que fez com o The Who, especialmente Who's Next (1971).

O excêntrico Dylan e sua proposta inusitada

Johns também teve memoráveis interações com Bob Dylan. Entre as excentricidades do compositor, destaca que, para montar o álbum ao vivo Real Live (1984), Dylan começou a selecionar as piores versões das canções para integrar o LP. Johns ficou sem saber se aquilo era uma provocação ou coisa séria. No fim, tais gravações não foram escolhidas, e foi Johns quem pinçou as melhores execuções.

O produtor lembra uma proposta inusitada do trovador americano. Quando os dois se conheceram, Bob elogiou seu trabalho com os Stones e fez muitas perguntas sobre os Beatles. Disse, então, que desejava fazer um supergrupo com as duas bandas e perguntou se Johns poderia fazer a ponte com os demais para saber se havia interesse. Entusiasmado, o inglês começou a fazer as ligações. Harrison e Richards acharam a ideia fantástica. Ringo, Charlie Watts e Bill Wyman também demonstraram simpatia. Lennon não se empolgou. McCartney e Jagger deram sonoros "nãos", encerrando uma possibilidade que, caso tivesse se concretizado, resultaria no encontro mais extraordinário da cultura moderna.

Franqueza e humildade foram marcas de seu trabalho

Outros mitos do rock também marcam presença. Há detalhes de uma desavença com Jimi Hendrix e da amizade construída com Eric Clapton, para quem Johns produziu diversos LPs, incluindo o clássico Slowhand (1977) e, mais recentemente, I Still Do (2016), seu último grande trabalho antes de se aposentar.

Além disso, teve papel fundamental na descoberta dos Eagles: ao assistir a um show da banda nos EUA, percebeu potencial e decidiu apostar neles. A parceria, no entanto, chegaria ao fim após três álbuns. Johns, um homem sóbrio desde sempre, foi demitido após proibir o uso de drogas e álcool no estúdio.

No fim das contas, o leitor ficará impressionado com a franqueza e o senso de humildade de Glyn Johns. Nesse aspecto, é inevitável compará-lo a Here, There and Everywhere: Minha Vida Gravando os Beatles (Ed. Novo Século), de Geoff Emerick, célebre engenheiro de som dos Fab Four. Ambos são eficazes ao mergulhar nos bastidores do rock, expondo conflitos e egos que normalmente permanecem longe das narrativas oficiais construídas em torno dos ídolos.

Capa de 'Sound Man', onde Glyn Johns aparece ao lado de Mick Jagger
Capa de 'Sound Man', onde Glyn Johns aparece ao lado de Mick Jagger
Foto: Belas Letras/Divulgação / Estadão

Sound Man

  • Autor: Glyn Johns
  • Tradução: Paulo Alves
  • Editora: Belas Letras (312 págs.; R$ 129 e R$ 79 o e-book)
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