Baterista do Scorpions justifica continuidade da banda: "rock vicia"
- David Shalom
Em 2010, o Scorpions anunciou sua turnê de despedida, deixando a entender que, assim, encerraria sua carreira, uma das mais bem-sucedidas do rock pesado mundial, após mais de quatro décadas de atividades. Contudo, menos de três anos depois, houve uma mudança de planos. Assim como o Kiss fez na década passada, quando voltou atrás depois de ter anunciado o fim do grupo, o quinteto alemão, que se apresenta em São Paulo nesta quarta (20) e quinta-feira (21), no Credicard Hall, resolveu transformar o previamente anunciado término em apenas uma mudança na forma de lidar com seus compromissos profissionais. A atitude é semelhante à tomada pelos britânicos do Judas Priest no ano passado, quando decidiram não mais fazer longas turnês.
Em entrevista exclusiva ao Terra, no entanto, o baterista da banda, James Kottak, 49 anos, optou por um discurso que não comprometesse o de seus colegas de até poucos meses atrás. "Nós não mudamos de ideia. Normalmente, quando lançamos um novo álbum de estúdio, fazemos uma turnê de três anos. Comeblack foi lançado em 2010, portanto estamos exatamente no terceiro ano consecutivo de estrada", disse o músico, ressaltando não ser mais possível à banda, formada principalmente por integrantes na faixa dos 60 anos, prosseguir com a média atual de 80 shows anuais. "Nós pensamos, 'ok, vamos fazer essa turnê e depois cada um vai separadamente para um lado'. Mas, com o passar do tempo, foram aparecendo ofertas e mais ofertas de shows por todos os lados, e é difícil recusar propostas assim (risos). O rock´n´roll é a melhor droga do mundo, você simplesmente sempre quer mais."
Apesar do novo discurso, a mudança de rumos do Scorpions não deve render o que a maioria dos fãs esperam de seus ídolos. Isso porque a possibilidade de um disco de inéditas, aquele que sucederia o último trabalho do quinteto, Sting in Tail, lançado em 2010, é praticamente descartada pelos músicos. "Quem pode saber o que vai acontecer no futuro? É impossível prever. No entanto, um novo álbum de estúdio, original, somente com material novo, acho que definitivamente não irá acontecer", completou Kottak.
Confira a entrevista:
Terra - Três anos depois de ter anunciado a turnê de despedida, o Scorpions continua na ativa, afirmando que não ocorrerá mais a aposentadoria dos palcos. O que os fez mudaram de ideia?
James Kottak - Bem, nós não mudamos de ideia. Normalmente, quando lançamos um novo álbum de estúdio, fazemos uma turnê de três anos. Comeblack foi lançado em 2010, portanto estamos exatamente no terceiro ano consecutivo na estrada. As pessoas acham que uma turnê dura cerca de um ano, mas elas estão completamente enganadas. O mínimo, para nós, são três, afinal o mundo é grande. Há tantos lugares onde queremos tocar que precisamos desse tempo. E o público brasileiro é tão fenomenal, que, quando a oferta para voltarmos apareceu, nós dissemos, "claro, vamos nessa". Assim, prosseguiremos viajando até o final do ano e, em 2013, diminuiremos um pouco a agenda, fazendo apenas algumas apresentações mais selecionadas. O ponto é que uma turnê de despedida não quer dizer que a banda esteja terminando, só significa que continuar excursionando no nível atual, constantemente, fazendo 80 shows por ano, não é mais possível. É cansativo demais para nós.
Terra - Então, assim como o Judas Priest fez no ano passado com a turnê Epitaph, vocês pretendem apenas diminuir o ritmo de shows e não cessá-los.
James - Exatamente. E provavelmente iremos diminuir muito a carga de datas em nossa agenda. Mas ainda há lugares que precisamos visitar. Ainda não tocamos na China, na Austrália, além de alguns outros países aos quais gostaríamos muito de ir. Claro, ainda não sabemos exatamente como vai ser esse pós-turnê, até porque adoramos tocar. Realmente amamos rock´n´roll.
Terra - Mas, inicialmente, houve anúncios de que de fato a banda iria terminar...
James- Bem, eu não diria terminar. Foi mais algo em que pensamos, "ok, vamos fazer essa turnê e depois cada um vai separadamente para um lado". Mas, com o passar do tempo, foram aparecendo ofertas e mais ofertas de shows por todos os lados, e é difícil recusar propostas assim (risos). O rock´n´roll é a melhor droga do mundo, você simplesmente sempre quer mais.
Terra - Em 2010, o Scorpions lançou o disco Comeblack, misto de regravações de clássicos da banda com covers. Como vocês escolheram o material do trabalho?
James - Bem, obviamente, coisas como Rock You Like a Hurricane e Still Loving You não poderiam ficar de fora do trabalho. Já os covers, como All Day an All of the Night, do The Kinks, e Tainted Love, de Gloria Jones, eram canções que o Rudolph (Schenker, guitarrista do Scorpions) sempre quis gravar. Na verdade, esse disco foi mais um projeto passional do que qualquer outra coisa. A ideia nos foi apresentada por nossa gravadora e nós dissemos, "claro, vamos fazer. Por que não?".
Terra - O Scorpions tem planos de voltar a lançar um novo álbum de estúdio?
James - Não temos planos de gravar nada, mas quem pode saber o que vai acontecer no futuro? É impossível prever. No entanto, um novo álbum de estúdio, original, somente com canções inéditas, acho que definitivamente é algo que não irá acontecer.
Terra - Se não há planos para um novo disco, o Scorpions irá em breve lançar um DVD bastante tecnológico, todo gravado em 3D. Conte-me um pouco sobre esse trabalho.
James - Sim. Pouco mais de um ano atrás filmamos, em uma cidade da Alemanha, uma apresentação com 12 câmeras com a tecnologia 3D para lançar para os fãs. E eu te digo: assisti a alguns trechos das filmagens e o material é simplesmente fantástico! Você sente realmente como se estivesse ali, no palco com a banda, com a fumaça, as guitarras, os microfones, tudo saltando da tela, dando uma realidade incrível para o DVD. Estamos muito empolgados com esse material. É impressionante! Ainda não tenho muitos detalhes a respeito do lançamento, mas devem ocorrer algumas exibições especiais em poucos cinemas do mundo para depois ele ser lançado em DVD.
Terra - Desde 1985, quando se apresentou na emblemática primeira edição do Rock in Rio, o Scorpions veio ao Brasil diversas vezes. O que a banda trará de novidade nesta nova visita?
James - Bem, nós temos uma incrível parede de mídia, um telão gigantesco que torna o show fantástico visualmente. Além disso, traremos um repertório com canções diferentes das da última passagem. Procuramos elaborar bem o set-list para que os fãs tenham a oportunidade de ver algo novo, diferente do que viram em 2010. Por fim, traremos ao País nosso poder e nossa energia. Estamos preparados para quebrar tudo (gargalhadas)!
Terra - Você está no Scorpions desde 1996, o que naturalmente o levou também a excursionar diversas vezes pelo Brasil. Qual fato tem como mais memorável de suas passagens pelo País?
James - A América do Sul é simplesmente incrível e linda, então tudo é memorável. Mas tivemos a oportunidade de tocar na Amazônia, em 2010, em um show que acabou gerando um DVD, e aquilo foi indescritível. Antes da apresentação, viajamos para lá como turistas, com o objetivo de conhecer a região e saber exatamente o que rolava por ali. Para além das paisagens, o Brasil também possui um povo fantástico. As pessoas são todas muito legais, abertas, receptivas, amigáveis, sempre fazendo com que tenhamos ótimos momentos no País. Além disso, elas são loucas, amam demais o rock´n´roll.
Terra - Há muitas diferenças entre o público brasileiro e o europeu ou o norte-americano?
James - Claro. As pessoas no Brasil são muito mais loucas (risos)! Fico empolgado só de falar a respeito. Quando você viaja à América do Sul encontra um nível totalmente diferente de loucura. Vocês simplesmente ficam pirados (risos). Isso também ocorre aqui em cima (na América do Norte), mas aí embaixo é outro nível. E nós admiramos esse poder, essa energia do público, até porque conseguimos sentir tudo isso também.
Terra - E em relação à Europa, berço do Scorpions, continente onde o heavy metal encontra sua maior popularidade?
James - Tenho um bom exemplo. Semanas atrás, tocamos no Wacken (Open Air, realizado anualmente em Wacken, na Alemanha), o maior festival de heavy metal do continente, e ficamos basicamente basicamente frente a 50 mil metaleiros que estavam indo à loucura. E o lance sobre esses fãs europeus é que pode estar chovendo, pode estar nevando, que eles ficam lá em pé, até o fim do show. No entanto, no geral, o público europeu é mais conservador do que o sul-americano. Eles não ficam tão loucos e não são tão barulhentos como vocês, brasileiros. É algo que varia de local para local. Contudo, os fãs, cada um com seu estilo, são ótimos em qualquer lugar que visitamos.
Terra - Você está há mais de 15 anos no Scorpions, quase o mesmo tempo que permaneceu na banda Herman Rarebell, baterista de sua fase áurea. Como se sente tocando em um dos mais populares grupos da história do rock pesado?
James - No começo foi surreal (risos), mas hoje sinto como se tivesse me tornado parte da banda, sinto que contribui bastante e sou muito orgulhoso por fazer parte dessa história. A melhor parte, no entanto, é poder viajar pelo mundo todo ao lado de amigos. Tenho minha família em casa e, na estrada, tenho outra, a família rock´n´roll.
Terra - E como é ser um americano no meio de alemães?
James - Sabe, eu não chamaria o Scorpions de uma banda alemã. Para mim, está mais para um grupo internacional. Na equipe, temos pessoas da Inglaterra, nosso baixista (Pawel Maciwoda) é polonês, eu sou americano. Conheci os caras do Scorpions em 1988, no Monsters of Rock, quando eu tocava no Kingdom Come. Depois disso, toquei com o Michael (Shenker, guitarrista da banda) em um disco, nos vimos em outras oportunidades e, agora, estou há mais de 15 anos com ele e os outros caras. Então, não penso neles como alemães, mas sim como meus amigos, como minha família rock´n´roll.
Terra - Você tocou com outro grande nome do heavy metal anos atrás, em 1997, quando substituiu provisoriamente Vinne Appice no posto de baterista de Ronnie James Dio, morto em 2010. Como foi essa experiência?
James - Sabe, acho que fiz uns nove shows com ele e tudo foi realmente surreal. Estar lá no fundo tocando e ver que quem está no palco é Ronnie James Dio...fico arrepiado só de pensar a respeito. Eu só pensava, "ele tão fenomenal!". Além disso, Ronnie era dono de uma personalidade incrível e, logo no dia em que você o conhecia, simplesmente se tornava seu amigo. Ele era um cara muito legal, divertido, sempre com uma piada ou algo engraçado para dizer. Mas, acima de tudo, era 0um cantor fenomenal. E de quem sentimos muita falta.
Terra - Para você, qual foi a importância de Dio para o heavy metal?
James - Acho que a maior possível. Nos anos 1970, com a banda Elf e, posteriormente, com o Rainbow, ele foi responsável por uma imensa reviravolta no estilo. O disco Rainbow Rising (1976) mudou tudo. Pessoalmente, inclusive, foi esse o trabalho que me fez começar a tocar com bumbo duplo. Essa fase dele, no início de carreira, foi um grande marco para o metal. Isso sem contar, claro, sua época no Black Sabbath e sozinho, nos discos solo. Dio liderou todas as mudanças que fizeram o metal ser o que é hoje. Fora tudo isso, ele ainda criou um altíssimo padrão para os vocalistas do estilo.
Terra - Para encerrar, uma curiosidade. Você foi um dos músicos que deram depoimento para o escritor Paul Miles para o livro Sex Tip from Rock Stars: In their own Words. Como veio esse convite?
James - Veio do nada (risos). O Paul me mandou um email me perguntando se eu poderia lhe dar algumas dicas para o livro com essa temática - e eu virei para ele e disse, "não, você tem que estar brincando" (risos). Mas ele é um cara legal, me disse o que estava pretendendo e eu respondi, "claro". No entanto, não consegui responder a maioria das perguntas, porque elas me incriminariam com minha cara metade (risos). Era uma lista com 20, 25 perguntas com coisas como, "qual é a sua técnica para pegar garotas?" ou "qual é a melhor maneira de arrumar uma garota em tal lugar?" (risos). Eram assuntos muito bizarros, mas acabou sendo, de fato, muito engraçado.
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